Mostrando postagens com marcador Pesquisas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pesquisas. Mostrar todas as postagens

9 de jan. de 2014

DISTRIBUIR BÍBLIAS OU ENSINAR HISTÓRIAS DAS RELIGIÕES?!




Ontem os estudantes do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP, animados pelo cuidado com as causas humanistas que nos unem como educadores, chegaram aonde amarramos a nossa rede encantada de férias, para alertar acerca de uma noticia (veja aqui e aqui) que navega desabusada pela Veneza Brasileira: sobre o projeto de lei 334/2013, de autoria da vereadora irmã (evangélica) Aimée Carvalho (PSB), que tramita na Câmara dos Vereadores do Recife.

O projeto, que até ganhou adesão de setores católicos (muito embora a bíblia católica seja um pouco diferente da evangélica), aguarda posição dos parlamentares em fevereiro e propõe que as bibliotecas de todas as escolas e também instituições de ensino superior estatais e privadas da cidade, além das bibliotecas públicas, sejam obrigadas a ter duas bíblias (uma edição em português de papel normal e outra em braille, a linguagem dos cegos), além de permitir a qualquer empresa e instituição religiosa distribuir exemplares da bíblia nos pátios das escolas e faculdades... O argumento (acompanhe a matéria integralmente por aqui), resumindo, é que, com a disponibilização das bíblias, "a violência diminui e a prosperidade aumenta" (sic)!

De fato, diante da crescente violência juvenil e/ou da dificuldade de socialização de um projeto de civilização, muitos imaginam que os símbolos religiosos facilitam a transmissão de valores e que a escola deva ensiná-los com autoridade, reforçando a identidade moral "majoritária" na comunidade. Mas essa é uma compreensão um tanto retrógrada, haja vista que boa parte da humanidade já (?!) ultrapassou uma visão mágica da espiritualidade (por exemplo, Jesus altera o mundo milagrosamente e atende as minhas preces por prosperidade e riqueza) e também uma visão mítica das coisas (segundo a qual Jesus e até o último apóstolo trouxeram um depósito de informações verdadeiras e eternas sobre tudo - e contra todos os que não têm fé na sua religião). Somente nessas "altitudes" de compreensão espiritual é que faz sentido o proselitismo com o texto sagrado da minha tradição religiosa.

Hoje, todavia, as pessoas mais amadurecidas têm uma crença mais razoável (se sigo a Jesus, posso encontrar uma vida boa, verdadeira e abençoada pelo seu caminho de amor, mas entendo que outros possam igualmente descobrir outras espiritualidades válidas) e até mais pluralista (há algo da consciência de Cristo em todos os seres e culturas, sendo o cristianismo uma de suas interpretações) e inclusive mais integral (a espiritualidade também se verifica na profundidade da observação científica e nas relações intersubjetivas profundas, podendo-se mesmo conceber uma "missa sobre o mundo" para além das místicas explicitamente eclesiais).

Nessa perspectiva hermenêutica mais acurada, aquilo que  os cristãos, por exemplo, chamam de revelação, é entendido como verdadeira pedagogia divina: é o Espírito que nos permite interpretar os “sinais dos tempos” e, numa certa altura do esperançoso compromisso prático para com a defesa da vida no mundo, acreditarmos que aquele grito que despertou a nossa práxis de amor fiel é sagrado, ou seja, percebermos que dentro de nossa relação amorosa fala-nos processualmente uma palavra - revelação - diferente, que causa diferença na vida, no sentido de uma qualidade humana mais profunda, de uma existência descentrada do ego. De forma que, mesmo para um cristão, a Palavra de Deus não está presente só nos “livros sagrados”, nem somente na literatura cristã.

Será, então, que melhor do que distribuir o livro sagrado da minha religião, melhor do que converter o mundo à minha doutrina e implantar a minha igreja, não seria ajudar na disponibilização, contextualização e interpretação das mensagens de todas as tradições espirituais, para quem delas necessite em seu processo de educação (e transcendência) humana e humanizante, favorecendo assim a compreensão e a paz entre os povos?!

Além desses argumentos teológicos (já passou o tempo de evangelizar pela construção de igrejas e/ou pela distribuição de bíblias) para se questionar o projeto de lei da nobre vereadora, podemos levantar também argumentos legais. A Constituição do Brasil estabelece em seu Artigo 19 que é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público. Assim, a laicidade estatal demanda tanto a liberdade religiosa, como a igualdade no tratamento conferido pelo Estado às mais diversas religiões e filosofias.

O respeito à liberdade e à diversidade religiosa implicam na aceitação e no reconhecimento do pluralismo espiritual como parte da realidade humana, inclusive para quem não profere religião alguma. O respeito à diversidade exige o aprendizado de superação dos preconceitos, discriminações e intolerâncias, que marcaram a história religiosa do nosso país - onde até dia desses todos deviam se batizar na igreja oficial do Estado, e onde ainda há igrejas pleiteando essa prerrogativa de antanho. A nossa Carta Magna enseja novas atitudes políticas, em que não se coloque o próprio sistema de valores e verdades como parâmetro de conduta para todas as pessoas; em que se deve traduzir, em termos razoáveis e humanos, a pertinência universal das propostas éticas postuladas a partir de uma tradição religiosa ou filosófica.

"A liberdade religiosa não pode ser confundida com liberdade de promoção religiosa em espaços de órgãos públicos e a interferência da religião e seus sistemas de verdade nos atos civis de interesse público, em caráter de justaposição dos interesses privados da religião sobre os interesses do Estado e da sociedade como um todo. A colaboração da religião é aceitável desde que de interesse público e não da promoção de suas convicções em particular" (Brasil, Presidência da República, Secretaria de Direitos Humanos. Diversidade religiosa e Direitos Humanos. Brasília: SDHPR, 2013, pg. 69s).

Então, se os vereadores do Recife querem mesmo ampliar o acesso à informação dos educandos da cidade, para que estes possam escolher valores mais humanos através de textos sagrados, devem incluir muitas outras opções de "bíblias" - até porque a maioria dos livros já está disponível na Internet, para tudo que é computador e tablet/celular, não sendo necessário gastar mais papel e derrubar árvores ou investir mais recursos financeiros, para tornar o projeto mais sustentável e legal. Os vereadores precisam legislar debaixo das leis do nosso Estado liberal, que defende o pluralismo de culturas e a liberdade de filosofias: precisam usar o dinheiro público em favor de todo o povo e das suas opções espirituais diversas; povo que pode e deve ter ampliado o seu direito de acesso aos livros - mas, no caso, dos textos sagrados de uma lista que pode ir das oito maiores religiões aos oito mil movimentos religiosos do planeta (a maioria já está até acessível, em inglês por aqui e em parte em nossa língua por aqui; mesmo os livros dos povos de tradição oral, que tiveram as suas histórias sagradas compiladas por antropólogos).

Ainda que a gente tomasse como critério apenas as práticas religiosas mais apontadas pelo Censo (veja aqui), a cidade do Recife tem 835 mil católicos e 384 mil evangélicos, mas também 55 mil espíritas e 224 mil pessoas sem religião (além de 11 mil de outras igrejas): se o projeto da irmã não é proselitista e respeita a laicidade, por que não pleiteia a distribuição de literatura espírita e obras sobre as convicções espirituais dos sem religião?! E por que não prioriza a literatura sobre a rica (e invisibilizada) espiritualidade dos primeiros habitantes dessas terras e dos povos aqui escravizados - e cuja memória subsiste nos mais de 1.200 Terreiros de nossa Região Metropolitana?! Aliás, além de politicamente correta, seria atitude bastante cristã a valorização dos sentidos religiosos dos grupos "minoritários" ou relegados ao avesso da nossa história... nem sempre tão cristã, de fato!

É muito simplório defender a distribuição, somente da bíblia cristã, porque foi “o primeiro livro impresso do mundo, logo merece destaque entre os demais (…). Além, claro, de trazer ensinamentos importantíssimos para toda a sociedade...". Antes da imprensa havia livros, também religiosos, muito importantes, e hoje os livros impressos já estão sendo substituídos pelos digitais. Há religiões mais antigas e que já foram e podem ser maiores do que o cristianismo, e suas escrituras merecem consideração em processos educativos. Os textos sagrados mais antigos vêm do hinduísmo (onde se funda o complexo mitológico de carma-reencarnação), aí incluídas as coleções védicas surgidas a partir do séc. XIV a.C., os ensinamentos e narrativas dos Upanishads e dos Puranas e os grandes épicos Ramayana e o Mahabharata, que contém um dos mais famosos e mais populares escritos religiosos do mundo, o Bhagavad Gita. E o que dizer das Três Cestas do budismo e dos mais de 4 mil livros do cânone taoísta, que começaram a ser escritos no séc. V a.C.? E do Tanakh hebraico e do Alcorão islâmico, que são variações da Bíblia cristã, antes e depois dela? E dos livros das religiões que inspiraram ou atualizam esses monoteísmos (como o Avesta, do zoroastrismo, o Kitáb-i-Aqdas, da Fé Bahá'i, e o Livro de Mórmon, uma das obras-padrão dos Santos dos Últimos Dias)? E das histórias sagradas dos nossos indígenas e afro-brasileiros, consignadas em obras como Mitologia dos Orixás ou até já adaptadas para crianças nO Casamento entre o Céu e a Terra?!

Por fim, apresentamos também argumentos pedagógicos para o questionamento do projeto de lei da distribuição de bíblias: mesmo que se amplie a oferta para os outros textos sagrados, a sua simples disponibilização escolar não é garantia de uma educação mais humana, nem a escola é lugar para socialização de textos religiosos particulares - mas sim para reflexão crítica sobre todos eles. A própria bíblia, lida sem formação hermenêutica, pode levar a interpretações e práticas absurdas e desumanas (veja aqui ou aqui, por exemplo). Ademais, a religiosidade, de uma forma geral, a gente "pega no ar que nem sarampo", não é um conhecimento racional - embora deva ser razoável - e a iniciação de alguém numa tradição espiritual, portanto, tem o seu espaço propício não na escola, mas nas liturgias da respectiva vivência simbólica.

O que a escola pode e deve fazer é comparar criticamente e interpretar os fatos - também religiosos - nos seus contextos históricos. Assim, religião não se ensina propriamente, mas se pode e deve refletir sobre esse fenômeno na escola. Mesmo porque os sentidos e sentimentos religiosos sempre influenciam as nossas relações humanas, sejam de produção, de parentesco e política, de palavra ou interpretação. De modo que o ensino religioso (veja aqui um panorama das discussões sobre o tema e por aqui um mapa do ensino religioso) tem uma legislação cada vez mais clara (veja aqui) e deve se constituir numa transposição pedagógica dos conteúdos das Ciências da Religião, numa sequência cognitiva e respeitando as características próprias dos educandos em cada série, através de eixos curriculares transdisciplinares e transreligiosos, que combinam o estudo de culturas e tradições religiosas, teologias dos caminhos espirituais, os textos sagrados das religiões, ritos e ethos das tradições de sabedoria. Quer dizer, não adianta apenas distribuir textos, sem uma pedagogia adequada para situá-los e interpretá-los nos seus contextos.

Por trás disso tudo, certamente se esconde o confronto antropológico – e político – entre uma compreensão (pré-moderna) de cultura simples e homogênea, com instituições hegemônicas, e outra de cultura complexa e policêntrica, onde as instituições – também as religiosas – reorganizam-se em bases liberais, pluralistas e democráticas. No primeiro caso, o professor de cultura religiosa está a serviço da religião majoritária e das suas igrejas; no segundo, serve à comunidade, ampliando a consciência social sobre as experiências e movimentos religiosos.

Acima compartilhamos um exemplo de subsídio pedagógico audiovisual (veja outros subsídios por aqui) que pode ser adequado para a educação religiosa na escola. Muitas vezes precisamos ponderar sobre poderes maiores que regem a vida, quando tentamos entender nossa origem e nossa missão sobre a Terra. Nessa busca, bilhões de pessoas (veja aqui um desenho da paisagem religiosa do mundo) voltaram-se, entre outras opções, mais animistas e politeístas, para o deus que norteia as religiões islâmica, cristã e judaica. Não é possível descobrir o que é esse "Deus", mas é possível compreender como as culturas foram desenvolvendo essa figura do Criador e elaborando os seus cultos. Então, esse programa do History Channel aborda a percepção de tal presença divina desde os tempos de Abraão e como ela impactou a humanidade, esboçando a imagem de "Deus" que conhecemos mais pelo mundo afora. Embora, na prática, a teoria às vezes seja outra, a perspectiva abraâmica do sagrado é mais histórica e menos cíclica, menos étnica e mais ética - pauta-se por um "julgamento".

Inspirado principalmente pela estudiosa das religiões Karen Armstrong (autora do livro Uma História de Deus), esse documentário "Deus, a história das religiões", de 2001, tenta mostrar a trajetória de pelo menos três mil anos do monoteísmo em um hora e meia. O programa reúne entrevistas com representantes de várias tradições para discutir o papel que o divino desempenha em suas vidas. Apresentando essas práticas religiosas desde vários pontos históricos e geográficos, considera as muitas maneiras como as "culturas do livro" situam a ideia de um deus único. Cientistas da religião também opinam no documentário, mostrando como o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, enquanto movimentos espirituais, têm afetado e moldado um ao outro, ao ponto de que a revelação que uma tradição descobre é por causa das outras - e para as outras. Não é uma história geral das religiões, mas já ajuda a entender como essas religiões mais novas da humanidade se tornaram as maiores do universo. Acreditamos que subsídios nessa linha, histórica e hermenêutica, junto com professores concursados e formados em Ciências da Religião, é que precisam ser disponibilizados, por primeiro, nas escolas do Recife - e, junto com eles, aí sim, os links para os principais ou mais significativos textos religiosos da gente.

Gilbraz.

Mais no blog:

5 de jan. de 2014

PASTORIL E REISADO

foto da amiga Ádria de Souza / Pref. Olinda
A queima da lapinha é um ritual tradicional que marca o encerramento do ciclo natalino e a chegada do carnaval e acontece, geralmente, no dia 6 de janeiro, o Dia de Reis, da visitação dos misteriosos Magos ao Menino Jesus. A tradição é realizada juntamente com o cortejo de grupos de pastoril e de reisados. Em Olinda, o Pastoril Estrela de Belém realizará a queima da lapinha na próxima segunda-feira (6), às 19h30, em frente à Igreja do Carmo, seguindo-se um cortejo dançante pela cidade.

No Recife, a cerimônia acontece no mesmo dia, no Pátio de São Pedro, no Centro, e no Sítio Trindade, em Casa Amarela. Na Zona Norte, os pastoris e bandas natalinas se concentram às 18h, em frente da Igreja da Harmonia, na Estrada do Arraial, de onde seguem cantando suas jornadas para o Sítio Trindade. No Centro, a concentração dos pastoris e reisados começa às 19h, no pátio da Igreja do Carmo, de onde desfilam em cortejo para o Pátio de São Pedro. A festa no Bairro de São José segue até às 23h, com pastoris como o Estrela Brilhante e Luz do Amanhecer.

O Pastoril integra o ciclo das festas natalinas do Nordeste brasileiro. Em Pernambuco, o primeiro Pastoril ou Presépio animado surgiu nos fins do século XVI, em cerimônia realizada no Convento de São Francisco em Olinda, com as pastorinhas cantando loas sobre o nascimento de Cristo. Tempos depois, com a folclorização da religião, surgiu também nas periferias o Pastoril profano, que se caracteriza por certa licenciosidade.

Reisado é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja sobretudo a véspera e o Dia de Reis. O primeiro Reisado de que se tem notícia, ainda no período colonial, instalou-se em Sergipe. O Reisado pode ser dançado de 24 de dezembro a 6 de janeiro, quando um grupo formado por músicos, cantores e dançarinos vai de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passa e dança. O Reisado também é muito conhecido como Folia de Reis.

Dia desses (veja aqui) tivemos o prazer de ir com a família assistir ao espetáculo Agora é tempo, onde a cultura do pastoril é encenada e resgatada pela família da nossa ex-aluna Giselle Tigre: uma beleza. Na Continente, revista de cultura de Pernambuco, encontramos agora neste mês de janeiro um artigo bonito do médico e escritor (autor do Baile do Menino Deus) Ronaldo Correia de Brito, sobre o reisado. O texto, intitulado "A metafísica da porta", reflete sobre a lógica popular-subversiva dos "Mateus", invertendo a ordem profano-sagrada do mundo e abrindo a porta para a festa do Menino, onde se dramatiza a morte e ressurreição do "Boi" - que sincretiza motivos simbólicos egípcios, gregos e mesopotâmicos, tomados de empréstimo pela mitologia do povo cristão nessa dança de visitação natalina...

"Os brincantes se aproximam da casa que os receberá para a festa. Escutam-se longe o tropel de passos, o canto a duas vozes das marchas de estrada, as crianças respondendo num tom agudo, acima do vozeirão adulto. São homens, rapazes e meninos, embora usem vestidos pregueados, anáguas de renda, fitas e espelhos. As roupas imitam as cotas de malha dos cavaleiros andantes. Um capacete confeccionado com papelão, vidrilhos e areia prateada – do qual pendem fitas das mais diversas cores –, e uma espada de aço na mão direita completam o figurino medieval. O campo de batalha a que se dirigem é a porta de uma casa e o terreiro em frente. Irão representar um auto de reisados, que dura a noite toda, à mercê dos improvisos e da cachaça que os anfitriões oferecem.

O número de cantos de um reisado, antes dos brincantes chegarem à casa onde acontecerá a festa, depende do repertório do mestre, contramestre e violeiro. O valor do brinquedo se mede pelos entremezes que ele representa, pelos improvisos do mestre, pela graça dos Mateus, pelas coreografias e afinação das vozes nos cordões de figuras. E por muitas habilidades, como a destreza em jogar as espadas simulando uma batalha, a imitação de mulheres nos papéis femininos, a dança com ritmo e cadência.

Mas não é sobre esses valores que desejo escrever. Dividido em cinco partes – marcha de estrada, abrição da porta, divino, chamada das figuras e despedida – o reisado me interessa pela metafísica do segundo entremez. Quando os brincantes chegam à casa para celebrar a festa, encontram todas as portas e janelas fechadas, num ato de interdição à festa. Entristecidos e surpresos, eles cantam:

Abra a porta gente
que eu venho ferido
pela falsidade tão grande
dos meus inimigos.

Se tu vens ferido
chega pra dentro
sangue do meu peito jorrando
serve de alimento..."

Continue lendo o texto por aqui.

3 de jan. de 2014

A FORÇA DA FÉ

A palavra "sagrado" provém do latim sacrum, que se referia aos deuses ou a alguma coisa em seu poder. Toda tradição espiritual sacraliza tempos e espaços, além de histórias nas quais os devotos devem ter "fé". Do latim fides, fé é a firme opinião de que um testemunho é verdadeiro. Para religiões que se baseiam em crenças, a fé também quer dizer que alguém aceita as visões dessa religião como verdadeiras. Para religiões que não se baseiam em credos, por outro lado, significa que alguém é leal para com uma determinada comunidade.

Com o reconhecimento do papel (bom ou ruim) das religiões e espiritualidades na organização das sociedades e personalidades humanas, essas são palavras que têm voltado ao debate público. Desde 2009 a Globo e o Futura, na série Sagrado (acesse os vídeos livremente por aqui: eles servem pra começar uma boa conversa com a sua turma), apresentam uma releitura da vida da gente sob a ótica da diversidade religiosa. "Sagrado" é uma coprodução da TV Globo e do Canal Futura, que vem mostrando, a partir de temas atuais, a visão e a interpretação das principais religiões sobre assuntos como violência urbana, liberdade de expressão, meio ambiente, novas famílias, entre outros.

E, felizmente, multiplicam-se, pelos meios de comunicação, os espaços pedagógicos para promoção da diversidade religiosa, para discussão da história das religiões e para disseminação de uma cultura de paz. No começo de 2013 a Globo de São Paulo realizou uma série de reportagens sobre a Fé (veja por aqui), que em matérias especiais e seis programas televisivos apresentou um pouco de história das religiões, o que a ciência diz sobre a fé, manifestações e rituais de fé, o mercado em torno da fé, testemunhos de cura pela fé... Agora no final do ano, a Globo Nordeste também produziu e apresentou uma série de cinco programas especiais sobre a Força da Fé, que traz depoimentos de pessoas transformadas pela experiência da religiosidade. Você pode assistir aos programas com os testemunhos por aqui: EspíritaCatólicoEvangélicoCandomblecista, Budista.

Mais no blog:
Caminhos da fé
Viver com fé
Cultura e fé
Nomes de Deuses
Fé até onde?
Rituais de fé
Convivência das religiões
Problematizando as crenças
Lei das religiões
Mãos em oração
Fórum Inter-religioso da UNICAP

CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE




Palestra do Café Filosófico CPFLCultura, o vídeo Ciência e Espiritualidade examina os diversos paradigmas científicos, mostrando a evolução da ciência, desde o materialismo realista até a física quântica. Estuda a importância da descrição que a ciência nos dá do Universo, em relação a nosso modo de agir e de pensar a vida e seus objetivos. Mostra a evolução do observador na visão da ciência, antes sem função tanto no mundo externo quanto em relação a si mesmo e, hoje, entendido como co-construtor da realidade e artífice de seu destino. Deste modo, procura demonstrar que nos construímos de dentro para fora. Examina a derrubada dos postulados do materialismo realista, chegando a uma física de possibilidades em que nossa consciência realiza escolhas, tornando-nos, conseqüentemente, livres e responsáveis.

Moacir Costa de Araújo Lima, natural de Porto Alegre, RS, conferencista na área de espiritualidade e ciência, vem apresentando palestras e workshops no Brasil e no exterior. É bacharel em Física, com três pós-graduações nessa área, bacharel em Direito, Professor Universitário e Mestre em Linguística, na área de Lógica da Linguagem Natural, pela PUCRS. Em suas obras e palestras, dedica-se ao estudo das possibilidades de atuação da consciência no mundo da nova Física. Com a virtude didática de tornar acessíveis aspectos complexos do conhecimento humano, transita com facilidade nos caminhos da ciência e da espiritualidade, mostrando as ligações cada vez mais evidentes dessas duas áreas.

Mais no blog:

1 de jan. de 2014

PROBLEMATIZANDO AS CRENÇAS COMUNS




Amigos de além-mar nos apresentaram a um rapaz apelidado Dany Caligula, estudante de filosofia e sociologia em Toulouse, que está estourando na web francesa (veja o seu canal no Youtube por aqui e a sua revista eletrônica aqui), com sugestivas crônicas para reflexão. Apelidado de "DOXA", o seu projeto visa "combater os preconceitos e lugares-comuns", oferecendo provocações audiovisuais em um formato adequado para a Internet e os jovens.

Apoiado pelo brilhante Usul, comentador de jogos eletrônicos do estilo que o nosso filho Arthur adora, Dany e seu colega Ovis lidam com discernimento sobre temas atuais, como o trabalho, a educação e a arte, a filosofia e os meios de comunicação. Muitas vezes partindo da etimologia do termo estudado, ele então explora os seus aspectos controversos, que dizem respeito à nossa existência cotidiana, citando autores clássicos e filmes contemporâneos.

Incentivando o intercâmbio de ideias e organizando debates on-line (veja aqui) sobre as suas web-crônicas, esse Dany é um exemplo de como a Internet pode transformar estudantes em professores, e os nossos simples tablets em escolas dinâmicas. Para os estudiosos da religião (que navegam no francês), vale a pena dar uma olhada em seu último episódio, postado nas derradeiras horas de 2013 e apresentado acima, sobre "Ateísmo e religião", que recupera criticamente o sentido das mensagens religiosas e apresenta o ateísmo como uma aventura espiritual...

Mais no blog:

29 de dez. de 2013

OS ANIMAIS TÊM ALMA E DIREITOS?!




A cidade do Recife causou polêmica ao criar uma Secretaria Executiva de Direito dos Animais (veja aqui). Dia desses o Brasil discutiu a invasão de um laboratório de testes medicinais por ativistas que resgataram cães que estavam sendo "tratados como bichos" (veja aqui). Agora a revista Tendencias 21 publicou matéria (em espanhol), assinada pelo paleontólogo Leandro Sequeiros, sobre os direitos - e as almas - dos animais. É que há 20 anos um grupo de moralistas, etólogos e cientistas trouxe à luz uma iniciativa conhecida como "Projeto Grande Símio", e emitiu também a "Declaração sobre Grandes Macacos Antropóides". Os direitos dos animais são iguais aos dos humanos? Eles possuem alma também? Este debate ainda está esquentando entre os estudiosos das religiões e das éticas em nossa sociedade...

"La Declaración de los Grandes Simios Antropoideos es un documento de ambiciosas perspectivas que vendría a moverse en claves todavía más contundentes, si cabe, que las propias de la Declaración universal de los derechos del animal que la UNESCO aprobó en 1977, e incluso fue ratificada por la ONU. Levantando como estandarte el eslogan «La igualdad más allá de la humanidad», la declaración constituye una intentona de ampliar la «comunidad moral» de los iguales al grupo zoológico de los grandes simios (chimpancés, bonobos, gorilas y orangutanes) del que el Proyecto mismo toma su nombre, y ello al menos como paso intermedio en la búsqueda de la reconciliación total del ser humano con sus hermanos animales.

En este sentido el Proyecto, a través de su manifiesto, dice ampararse en los fundamentos que a tal fin proporcionan los más recientes desarrollos de ciencias naturales –biología, evolucionismo darwinista, etología, psicología animal, genética– que habrían terminado por arrumbar la concepción tradicional de los animales no humanos y de la distancia que media entre éstos y los hombres tanto en lo tocante a las capacidades intelectuales (resolución de problemas, uso del lenguaje articulado, capacidades éticas, morales y políticas, etc) como en lo que a la vida psíquica y emotiva se refiere (amistad, amor por los cuidadores, decepción, miedo, dolor, padecimientos varios, etc).

La Declaración sobre los Grandes Simios incide fundamentalmente sobre tres puntos que señalan sendos derechos elementales que el humano despotismo habría venido a hurtar a sus parientes los chimpancés, los orangutanes y los gorilas: 1) el derecho a la vida (salvada la eventualidad de la legítima defensa); 2) la protección de la libertad individual (salvada la condena «en firme» tras el adecuado proceso legal frente al que los miembros de la comunidad de iguales tienen en todo caso, derecho a jurisconsulto y a abogado defensor) y 3) la prohibición de la tortura (cuyo alcance sin duda alguna incluye prácticas tales como la doma, los espectáculos circenses o los experimentos biomédicos dolorosos).

La incapacidad evidente que lastra a los interesados, imposibilitándoles hacerse cargo de su misma lucha emancipadora, requiere que sea el mismo opresor –o por lo menos grupos conscientes del mismo, la vanguardia pro-simia por así decir, de entre los humanos– quien se erija en campeón de la liberación de los simiescos oprimidos, representando de este modo su causa.

A este noble objetivo se orientan los esfuerzos del Proyecto Gran Simio cuyos planteamientos, llevados a su límite, podrían ocasionar una auténtica conmoción de repercusiones no difíciles de prever, en las formaciones sociales de nuestros días. Probablemente el vegetarianismo activo sería una de las implicaciones prácticas inexcusables de la Declaración, si es que esta misma se entiende como un primer paso intercalado en un proceso de mayor alcance que tendría que ampliarse también en el futuro –¿dónde poner, si no, los confines de la comunidad de iguales?– a las «bestias de granja», ¿lo sería también la paralización inmediata de la investigación biomédica, tal vez inaceptable por el sufrimiento infringido a la cobayas que esta misma conlleva?, ¿cabría exigir en su caso la sindicación de los nuevos «trabajadores» tales como perros policía, vacas lecheras, bueyes de carga o abejarrucos, quienes seguramente podrían reivindicar un «convenio colectivo», vacaciones pagadas, holgazaneo dominical y también «dignos» subsidios de jubilación para acomodarse una vez llegados a la «edad del merecido descanso»? El profesor Gustavo Bueno y el equipo de filosofía de la Universidad de Oviedo han estudiado estas preguntas.

Se trata en todo caso de cuestiones abiertas de índole ciertamente mayor –y no ya, como tal vez pudiera parecer, burdas parodias malintencionadas con objeto de ridiculizar las posiciones de referencia– a las que, con todo, los promotores del Proyecto y de la Declaración, no han dado de momento respuesta alguna..."

Leia a matéria completa por aqui.

Mais no blog:

28 de dez. de 2013

INSPIRADOR DO CAMINHO DE SANTO AMARO LANÇA LIVRO SOBRE O SANTO



Mais no blog:

SIMPLES ASSIM

Você pode ter passado a vida inteira, ou parte dela, ouvindo a expressão: tempo é dinheiro. Conhecido de perto um universo em que ter do “bom e do melhor” é sinônimo de uma vida sossegada. Também deve ter escutado, e acreditado, que comprar roupas, sapatos e supérfluos alivia o estresse, principalmente, das mulheres durante a tensão pré-menstrual (TPM). Que shopping é e será um dos melhores lazeres desta vida moderna. Agora, suponha que tudo isso virasse de cabeça para baixo. Em nome da simplicidade do ser, homens e mulheres, de idades diferentes, chacoalharam esses velhos conceitos cada vez mais impostos à sociedade e optaram, sem culpa e com leveza, por uma vida simples. Acreditam que precisam de pouco para se satisfazer e asseguram que o lucro com tudo isso não se vende nem se troca, e tem nome: felicidade.

Não se trata de um movimento, mas um fenômeno sem causa única e nenhuma regra. Essas pessoas estão, aos poucos, caminhando por conta própria em busca da simplicidade, sem fazer publicidade disso. Alguns mudaram de cidade, outros conseguiram isso morando em uma capital como Belo Horizonte. E não estão sós. A tal simplicidade já chama a atenção do mundo, já que grandes homens, que poderiam esbanjar mordomias, disseram “não” a elas e a tudo que elas remetem. O ex-guerrilheiro José Mujica, atual presidente do Uruguai, por exemplo, mora em uma casa deteriorada na periferia de Montevidéu, sem empregado nenhum. Seu aparato de segurança: dois policiais à paisana estacionados em uma rua de terra.

Outro que recebeu os olhares do planeta é o papa argentino Francisco, que despertou a simpatia dos católicos e até mesmo de quem não segue a religião, por quebrar protocolos da Igreja. Sabe-se que antes de chegar ao cargo mais alto da instituição, no dia 13/03/13, quando foi escolhido como papa, ele andava de metrô e ônibus por Buenos Aires e cozinhava a própria comida. Já como líder do catolicismo, ele dispensou o carro oficial ao celebrar uma missa e caminhou pelas ruas, aproximando-se mais do povo...

Veja a matéria completa de Luciane Evans por aqui

Mais no blog:

26 de dez. de 2013

ENTENDENDO O ISLÃ... E OUTRAS COISAS



O Veduca é uma plataforma inovadora de aprendizado online, com cursos certificados ou livres, todos gratuitos. Nela você encontra bom conteúdo em ensino superior da internet, previamente selecionado e organizado por áreas de conhecimento, produzido por universidades como Harvard e Oxford, Usp e Unb, além de fundações feito a TED. Registrando-se lá, você pode fazer buscas nas legendas, fazer anotações referenciadas na timeline das videoaulas, acompanhar sua evolução, testar seus conhecimentos e obter certificados de conclusão.

Na área de filosofia e religião (veja aqui) você encontra ótimos cursos, como "Ciência, misticismo e religião", "Novo Testamento: história e literatura", "A morte: questões morais e filosóficas", "Dalai Lama: compaixão" e o novo "Entendendo o Islã". Neste curso sobre cultura e espiritualidade do Islamismo, a religião que mais cresce no planeta, além de oito vídeo-aulas legendadas em português de grandes estudiosos do mundo todo, são disponibilizados fóruns e materiais suplementares. Ótimo material para quem deseja entender os sinais dos tempos...

Acesse o Curso por aqui.

Mais no blog:

20 de dez. de 2013

REGINALDO ROSSI: O CHIQUE DO BREGA




Morreu na manhã desta sexta-feira (20 de dezembro), aos 69 anos, o "Rei do Brega", o cantor Reginaldo Rossi (Reginaldo Rodrigues dos Santos). Ele estava internado no Hospital Memorial São José, no Recife, desde 27 de novembro, para tratar de um câncer de pulmão. O pernambucano era também compositor: iniciou a carreira em 1964 e tem mais de trezentas composições gravadas (uma das mais representativas é A raposa e as uvas).

Reginaldo Rossi estudou engenharia e foi professor de física e matemática. Com influência dos Beatles, começou a carreira artística cantando rock. Animou comícios contra a ditadura e tentou um caminho político pelo Partido Democrático Trabalhista, mas fez sucesso mesmo foi como cantor de música romântica popular brasileira, o "brega" (aventa-se que esse nome deriva da Rua Manuel da Nóbrega, que ficava na zona de prostituição soteropolitana).

O "brega" é caracterizado como música banal e afetada por clichês sentimentais simplistas. Fernando Fontanella, no entanto, afirma que, dentro de um jogo de "hierarquias culturais", "o imaginário do belo sempre é pensado pelas instituições da hegemonia dentro de uma legitimação dos grupos dominantes", o que explicaria a relação da "música brega" ao "mau gosto", como algo oriundo de um processo de estruturação de classes (A estética do brega. Recife: UFPE (dissertação de mestrado), 2005).

Seja como for, é impossível compreender a alma da gente no Recife sem esse canto, que revela crenças, desejos e medos, sombras e luzes de nossa multi-cultura. E enquanto "cristãos" discutem se Reginaldo foi pro céu ou pro inferno (veja aqui), o bispo católico já declarou (veja aqui) que "Reginaldo Rossi viveu intensamente. Foi uma pessoa feliz, realizada. Agora ele parte para a vida eterna. Foi um homem que soube superar as dificuldades e sempre foi sensível às questões sociais".

Mais no blog:

18 de dez. de 2013

SANTOS DO ALÉM




Os santos são homens ou mulheres apontados por diferentes religiões por causa de sua elevação espiritual, e propostos aos crentes como modelos de vida em razão de seu jeito de ser ou de um comportamento considerado exemplar ou ainda por causa do martírio ou testemunho da fé pelo sangue.

Em todas as religiões há casos de pessoas que decidem dedicar as suas vidas à busca da espiritualidade. Na Índia, por exemplo, os homens que entregam suas vidas em busca de uma iluminação são chamados de Sadhus, ou homens santos, e são respeitados pela sociedade há milhares de anos.

O fotógrafo canadense Joey Lawrence passou anos viajando à Índia e à Etiópia, e desenvolveu a série Holy Men, na qual ele retrata os homens santos que estão em busca de libertação espiritual. Durante o trabalho, uma equipe acompanhou o fotógrafo e assim nasceu o documentário Beyond ("Além"), que registra (em inglês) a busca de Joey com a sua série fotográfica.

16 de dez. de 2013

BÍBLIA MUNDIALIZADA PELO CIBERESPAÇO




Com a criação da imprensa, Gutemberg possibilitou que a Bíblia chegasse a todos os rincões da terra. Agora, uma aplicação para smartphones e tablets pretende repetir e ampliar a história, no mundo da internet. Levar a Bíblia a todas as pessoas, por todos os meios. Essa sempre foi a missão da Sociedade de São Paulo, desde a sua fundação, há cem anos. É por isso que o Grupo Editorial Paulino, aproveitando o quinquagésimo aniversário do decreto conciliar Inter Mirifica, criou um novo aplicativo para iPad: o "Mundo da Bíblia". O novo instrumento foi apresentado quinta-feira, 5 de dezembro, na sala Marconi da Rádio Vaticano, na presença do prefeito da Casa Pontifícia, monsenhor Georg Gänswein; de Dom Giacomo Perego, diretor da Edizioni San Paolo e Gualtiero Carraro, curador do projeto.

Os 73 livros do Antigo e do Novo Testamento aparecem em um índice animado, com introduções e capas ilustradas. O texto flui como se fosse um rolo contínuo em 3D, podendo-se escolher entre a versão ilustrada ou a dividida em versículos. Estes inclusive podem ser compartilhados através da rede no Facebook, Twitter ou e-mail. O aplicativo ainda traz a história sagrada em imagens, o mundo da Bíblia em atlas e cronologia 3D, símbolos e jogos bíblicos. Monsenhor Gänswein, em seu discurso, descreveu "Bibleword": "Não como uma ferramenta para ler a Bíblia", mas uma ferramenta para "entrar na Bíblia. Conhecer o mundo da Bíblia, sendo contemporâneo de um tempo que passou, uma história que é outra e agora eu faço minha. Tempo e espaço são cancelados e eu estou lá, a Bíblia é o presente em que vivo e que me faz viver, e está incluído no meu tempo, neste momento, em diálogo com as mulheres e os homens de hoje."

O aplicativo "Bibleword" para iPad (ou para o programa gratuito iTunes de computadores) começa disponível (por 8,99 euros) em italiano, inglês, espanhol e francês por aqui.

Mais no blog:

15 de dez. de 2013

SOBRE FELICIDADE, DESCENTRAMENTO... ESPIRITUALIDADE




"Eu maior" é um documentário, que acaba de ser finalizado para exibição gratuita, ensaiando uma reflexão contemporânea sobre autoconhecimento e busca da felicidade, por meio de entrevistas com expoentes de diferentes áreas, incluindo líderes espirituais, intelectuais, artistas e esportistas. Um filme sobre questões essenciais e universais, numa época de grandes transformações e desafios, que pedem níveis mais altos de discernimento e consciência individual.

Aqui nesse site você pode saber mais sobre o documentário, produzido pela Catalisadora Audiovisual para a Associação Dobem, que entrevistou trinta personalidades e foi patrocinado por mais de seiscentas pessoas - o que demonstra o interesse civil e público pela temática e prática da espiritualidade, entre e para além das religiões.

Em tempos de modernidade globalizada, com grandes possibilidades tecnológicas e enormes dificuldades de relações entre grupos humanos e destes com a natureza, as pessoas tendem a ficar mais egoístas, no sentido de ouvir mais a própria intuição. Paradoxalmente, isso leva à busca por uma espiritualidade maior e uma melhor compreensão do significado da vida, o que pode inclusive redefinir e ampliar os nossos limites éticos. E aí: tá disposto a escancarar o seu ego?!

Mais no blog:

13 de dez. de 2013

12 de dez. de 2013

ANAIS DO CONGRESSO DA SOTER

O 26º Congresso Internacional da SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – foi realizado entre os dias 08 a 11 de julho de 2013, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas –, e refletiu sobre o tema: Deus na Sociedade Plural. Fé – Símbolos – Narrativas.

Ao propor o tema Deus na Sociedade Plural. Fé – Símbolos - Narrativas, o Congresso da SOTER abordou um tema relevante de nossa contemporaneidade, que necessita ser interpretado por cientistas sociais, teólogos/as, filósofos/as e cientistas da religião, oferecendo assim novas chaves de leitura para pensar Deus no momento atual.

O Congresso de 2013 contou com 614 inscritos, dos quais 584 efetivamente participaram, e 381 comunicações aprovadas, das quais quase todas foram apresentadas e encontram-se nestes Anais. O tema, Deus na Sociedade Plural. Fé – Símbolos – Narrativas, abriu um amplo leque de questionamentos, que foram discutidos no decorrer das atividades do Congresso e poderão ser retomados com este subsídio.

Baixe os anais da SOTER por aqui.

3 de dez. de 2013

TEXTOS COMPLETOS DO CONGRESSO DA ANPTECRE

O IV Congresso Nacional da nossa Associação de Pós-graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião foi organizado através de Mesas de Debate articuladas pelos Programas da área e Sessões Temáticas e Grupos de Trabalho propostos pelos seus pesquisadores e selecionados pelo Comitê Científico da ANPTECRE. Além disso, três conferências abordaram a temática central, em relação às tendências internacionais e sob os enfoques das Ciências da Religião e das Teologias.

A Universidade Católica de Pernambuco, através do seu Mestrado em Ciências da Religião, acolheu esse Congresso, de 4 a 6 de setembro de 2013, com  mais de quatrocentos pesquisadores de todo o Brasil, além de público local interessado nos estudos da religião. Foram dias de muita partilha, onde percebemos que a religião não está mais somente nas igrejas, mas nas ruas, na estética e na ética, na maneira das pessoas conviverem.

Nas páginas dos Anais do Congresso, agora publicados, temos o prazer de socializar cinco textos referentes a essas conferências e mesas, bem como as comunicações aprovadas pelas coordenações das dezesseis Sessões Temáticas que enriqueceram o nosso encontro no Recife. Desejamos que tais registros constituam uma lembrança, mas também permitam um aprofundamento das questões discutidas no IV Congresso da ANPTECRE, sobre “o futuro das religiões no Brasil”.

Baixe os Anais em pdf clicando aqui.

Mais no blog:

2 de dez. de 2013

IGREJAS COBRAM ENTRADA

Será que as igrejas históricas precisam cobrar entrada, como os museus, quando não há celebrações? O Diário de Pernambuco (01/12) traz matéria de Raphael Guerra (veja aqui) comentando que mais uma igreja, a do Carmo, está cobrando entrada em Olinda, para as "despesas de manutenção": "... Reitor da Igreja do Carmo, frei Luiz Nunes Pereira explica que a cobrança começou a ser realizada há cerca de quatro meses porque os custos de manutenção, segurança e limpeza do templo são muito altos. “A ideia surgiu dos frades carmelitas. Essa igreja só realiza missas duas vezes na semana, às quartas-feiras e aos domingos. O dinheiro arrecadado entre os fiéis não é suficiente, não dá para pagar nenhum funcionário”, relatou. Segundo o reitor, as principais despesas estão relacionadas ao pagamento de seguranças, em regime de rodízio 24 horas, como forma de evitar o roubo de imagens sacras valiosas e históricas. O religioso lembrou que a taxa cobrada deve se tornar, em breve, um hábito de outras igrejas católicas históricas porque elas vêm perdendo fiéis. “Ao longo dos anos, o povo está se afastando”, lamenta. O Convento de São Francisco, em Olinda, também cobra um valor simbólico para a entrada...".

A notícia parece contrastar com as recomendações recentes da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (veja por aqui), do papa Francisco, sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Atual: "... A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas que também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o Batismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa." (N. 47).

A questão, contudo, pode ser um pouco mais profunda. Há dez anos atrás, em número sobre Pastoral Urbana da Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP (veja por aqui), eu antevia o problema, do discernimento das igrejas necessárias e adequadas para uma nova concepção eclesial e o novo entendimento da missão cristã, num artigo sobre "A Igreja na cidade pós-moderna": "... Muitos templos, por exemplo, precisam ser vendidos aos clubes ou doados para a assistência social ou para o patrimônio histórico. Eles foram construídos em profusão, correspondendo ao esquema mental tradicional e dualista, que separava e privilegiava com ricos ornamentos os espaços para o sagrado, que entendia missão como “implantação da Igreja” através da construção de igrejas. Essas foram erguidas para enevoar a miséria humana, construídas em planos elevados para representar a distância hierárquica do divino – e guardar as imagens de um caminho penitencial para se o alcançar. Agora missão cristã é partilhar a vida e despertar, em torno da Palavra de Deus, comunidades solidárias. Essas podem reunir-se nas casas e nos salões comunitários, poucas igrejas são necessárias para as celebrações maiores: de preferência as que favoreçam a participação no banquete eucarístico pela arquitetura circular, as que facilitem uma experiência de Deus em nosso meio, em um clima de austeridade e beleza onde sobressaiam as pessoas – e daí se favoreça a sua transcendência...".

Seria o caso, então, dos cristãos se livrarem de certas igrejas dos centros históricos, para irem "reconstruir a Igreja", onde o povo está agora - ou onde se precisa mais dela, nas periferias sociais e existenciais?! Ainda no século passado fui com Henrique Cossart assessorar uma assembleia em Mossoró e ouvi de Dom José Freire, bispo então do lugar, que ele fora procurado por um grupo de empresários recém-chegados à região, com uma proposta de comprar a emissora de rádio da Diocese, ao que logo retrucou: "... Se quiserem, vendo a catedral, onde só encontro algumas senhoras na missa de domingo bem cedo. Mas pela rádio fazemos educação de base e evangelização, eu me comunico sempre com milhares de católicos: vendemos não!". A tirada dele era, certamente, metafórica, mas dava uma ideia da mudança de mentalidade, hoje ainda mais necessária, sobre o que é mesmo sagrado - ou do que é preciso para socializar bem uma santa notícia...

30 de nov. de 2013

MÃOS EM ORAÇÃO


Esse sertanejo está diante do túmulo do Padre Cícero no Juazeiro (veja outras fotos da nossa excursão por aqui) e a sua oração solitária e silenciosa quase me levou às lágrimas dia desses. Lembrou do meu avô na fazenda, que saía do banco do alpendre quando a imensidão do crepúsculo espraiava-se no horizonte: ele vinha pra junto do rádio ouvir a “Ave-Maria” às seis horas, ajoelhava-se de braços abertos e parecia tomado em transe por um sentimento oceânico - mesmo sem nunca ter visto o mar. Lembrou também de tudo que já estudei comparando as religiões: mesmo se destinando a figuras intermediárias, como Nossa Senhora e os santos, na prece cristã, mesmo não tendo um interlocutor e se dirigindo a um vago ponto de referência, como no budismo, toda religião tem por detrás da oração uma referência à - e experiência da - Realidade suprema, que pode ser pessoal ou impessoal. 

A oração é um fenômeno universal, uma voz dos mesmos sentimentos humanos de criatura, ainda que com modulações diferenciadas: "Há uma sinceridade na oração expressa pelas religiões que deveria vencer todas as cercas da divisão e das contestações entre as religiões: quem observou o muçulmano de joelhos na mesquita fazer as suas prostrações, sem prestar atenção a tudo que o cerca; quem viu um hindu entrar no templo, tirar antes disso o sapato, tocar a campainha na entrada e depois ir até o altar para um pequeno sacrifício às divindades não pode duvidar que a alma das religiões é exatamente esse ato de rezar, que possui algo excepcional, algo maravilhoso. As doutrinas religiosas podem dividir os homens, porém a oração os une sempre, pois na oração não é mais uma doutrina que está sendo debatida e defendida, e sim uma experiência que está sendo vivida em relação ao altíssimo, àquele que não pode ser submetido à medida humana..." (TERRIN, A. Introdução ao estudo comparado das religiões. Paulinas, 2003, p.120).

Quando vejo um homem religioso antigo, como naquele agricultor romeiro do Padre Cícero, sei que ele organiza - e realiza - o seu mundo a partir de um ponto fixo, uma hierofania (o sagrado emerge em meio ao profano e aponta pro divino e permite conexão com ele), que lhe dá o fecundo poder para fundar a realidade: aquele homem cosmogoniza o mundo a partir de pontos de ruptura através dos quais o “mais-que-natural” tenha se manifestado - no caso, através da figura do "Meu Padim", que lhe dá valores e nomes para tudo o mais.

Mas fico me perguntando pelo humano contemporâneo, urbanóide suportado materialmente por invenções mecânicas e digitais, que vive em um mundo globalizado no qual as correntes religiosas viajam e se entrecruzam com toda sorte de comunicação e articulação de sentido: ele assumiu o relativismo da existência e rejeita, quase tanto quanto a pretensão objetivista e tecnicista do conhecimento científico, a linguagem metafísica das subjetividades religiosas. Rejeita a princípio o movimento de transcendência, de um toque divino ou alguma essência humana, apostando num existir sem pontos fixos. Basta-lhe um conjunto de mapas teóricos para vagar por aí, numa realidade fragmentada pela estética do absurdo, como diria Camus, num mundo construído, no máximo, com a ajuda da ficção e do cinema

No entanto, esse suposto apego ao que "é mesmo real" pode ser o começo de uma nova espiritualidade, que ainda estamos por circunscrever. Na sociedade pós-moderna a dimensão religiosa vem por meio de manifestações culturais que transparecem “algo mais” nesse mundo asséptico e cético. Nossa situação é, na verdade, caracterizada pela sensação do irreal e pela procura de um senso novo de realidade. Portanto, pela procura de uma nova religiosidade. Por trás de muita pesquisa terapêutica por saúde, esconde-se a velha busca humana por salvação...

Senti isso na semana passada, discutindo sobre "Espiritualidade no Século XXI" (veja aqui) na Faculdade Messiânica em São Paulo, com agnósticos, muçulmanos e budistas e praticantes das novas religiões orientais. Como estávamos entre os devotos do johrei, oração tradicional pela imposição das mãos, recordei estudos comparados sobre essa forma de rezar (veja por aqui uma dissertação), comentários sobre as variações dos gestos das mãos em oração, em busca da mesma experiência de "ser tocado". Lembrei sobretudo de pesquisa que comprova os benefícios do reiki, despertando o interesse até de médicos e desse povo "pós-religioso" que vai à internet e aos meios de comunicação como meu avô ia ao oratório - e também ao rádio - da sua fazenda no sertão.

Pra completar, abro o facebook hoje (denunciando assim minha própria condição de mochileiro espiritual) e encontro o meu mestre Paulo Suess, teólogo cristão, missionário entre os indígenas, convidando a gente para rezar uma oração deles: 
"Sente-se à beira do amanhecer,
o sol nascerá para você.
Sente-se à beira da noite,
as estrelas brilham para você.
Sente-se à beira do rio, ...
o rouxinol canta para você.
Sente-se à beira do silêncio,
Deus vai falar com você."

Gilbraz.
(post dedicado aos professores de ensino religioso de Roraima,
que estão fazendo estudos intensivos em nosso Mestrado nestes dias)

22 de nov. de 2013

CONVIVÊNCIA DAS RELIGIÕES




A despeito da fama de povo multicultural e cordial, nós brasileiros ainda precisamos aperfeiçoar muito a percepção da sadia convivência entre fé e razão, precisamos aprofundar o ensaio democrático de coexistência das tradições filosófico-religiosas em nossa sociedade sempre mais pluralista. O crescente pluralismo religioso em nossa cultura e a convivência plural das tradições espirituais no espaço público nacional constituem um desafio não somente para as legislações do Estado e para a ética e a etiqueta da nossa convivência civilizada, mas também para as teologias de todas as religiões e igrejas. A cada dia a gente se surpreende com novas notícias que dizem respeito à convivência das religiões entre nós - ou à falta dessa atitude e prática!

Notícia 1: De Belém (PA) chegou a informação de que evangélicos prepararam café e abrigo para os devotos na festa de Nossa Senhora (veja aqui) no Círio de Nazaré. Mas não foi apenas isso: "Em nome da luta para garantir e aprofundar seus espaços de influência religiosa e política, representantes das Igrejas Pentecostais e das Igrejas Cristãs históricas (Católica Romana, Anglicana e outras), tomaram a iniciativa de fazer uma aliança estratégica com base em ações ecumênicas concretas. O primeiro exemplo prático dessa nova fase do Cristianismo no país foi dado durante a festa do Círio de Nazaré, a mais popular manifestação religiosa do Brasil. A Assembleia de Deus (que é a maior Igreja Pentecostal do país, com cerca de 15 milhões de membros) colocou à disposição da Arquidiocese Católica de Belém todo o seu serviço médico, além de 100 voluntários que ajudaram a manter organizada a multidão reunida pelo Círio. Por sua vez, a Igreja Anglicana também participou dessa manifestação religiosa e calcula que foram aproximadamente 20% os evangélicos que se integraram às procissões em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré..." (continue lendo a análise por aqui).

Notícia 2: Em Igarassu (PE), Cosme e Damião, santos que são padroeiros e até "vereadores" da cidade, unindo católicos e seguidores das religiões afro-brasileiras (onde misturam-se sincreticamente com a divindade gêmea Ibeji), estão vendo a sua festa ser demonizada por seguidores de igrejas evangélicas, que "substituem" os tradicionais doces da festa por outros "abençoados por Jesus" - e não "possuídos pelos Encostos". A notícia foi trazida pela pesquisa do doutorado em Ciências da Religião para a UFJF de Júlio César (veja um artigo seu por aqui e comunicação pra gente aqui), através de quem descobrimos que o problema é recorrente, também noutras latitudes. A TV da Igreja Universal apresentou "reportagem" sobre o "malefício das balas consagradas aos encostos" (veja aqui) e não é a única: "Um grupo de evangélicos está tirando doce de criança com uma mão para dar com a outra. A troca acontece em pleno Dia de São Cosme e São Damião, comemorado em 27 de setembro na cultura popular. E dentro da igreja Projeto Vida Nova, na Vila da Penha, onde os pastores convidam mil meninas e meninos a entregar-lhes os saquinhos que conseguiram na rua para receber outros, abençoados por Deus. É apenas um convite. Só entrega os doces quem quer. Geralmente, os saquinhos são queimados, representando o fim de todo o mal que, porventura, foi direcionado às crianças - avisa o pastor Isael Teixeira. Ele conta que geleia, pipoca doce, bananada e pirulito chegam às mãos de oito a dez mil crianças, nos 70 templos da unidade, ao lado de uma surpresa: a bíblia. É para comer orando..." (leia mais por aqui). Alguns grupos evangélicos têm ocupado festas religiosas de outras tradições e utilizado os seus símbolos com significados trocados, para efeito de conversão (como também foi o caso aqui, na Festa do Canindé).

Notícia 3: No encontro da ABHR na USP em São Paulo (SP), a Bola de Neve, igreja evangélica liderada por um pastor surfista que usa pranchas como púlpito, impediu o lançamento de livro, resultado de dissertação acadêmica que analisa criticamente as estratégias mercadológicas da igreja, e tentou barrar na Justiça esse livro, “A Grande Onda Vai te Pegar – Marketing, Espetáculo e Ciberespaço na Bola de Neve Church”: "Eduardo Meinberg Maranhão, 40 anos, o Du, foi fiel da igreja entre 2005 e 2006. Já ex-'bolado', defendeu em 2010 uma dissertação de mestrado em história, na Universidade do Estado de Santa Catarina, sobre a instituição. O trabalho acadêmico virou livro, que logo virou dor de cabeça para seu autor. No último 30 de outubro, durante o lançamento da obra na USP, Du foi interpelado por um advogado da Bola. 'Ele tentou me persuadir, dizendo que eu teria problemas caso lançasse o livro'...” (leia a notícia por aqui). Segundo advogada da igreja o livro usa indevidamente "a marca" da instituição, mas para o juiz do caso "o trabalho é acadêmico, e a igreja, apesar de ser pessoa jurídica de direito privado, congrega interesses públicos". Seria uma tentativa de retomar civilmente a inquisição, agora para defender sagrados interesses de marcas e negócios?! (aliás, pense mais sobre religião e economia por aqui).

Essas informações bastam pra gente perceber a importância dos estudos da religião para o nosso país. Nossos filhos precisam de uma educação que ajude a comparar criticamente e a interpretar o sentido dos fatos - também religiosos - nos seus contextos históricos. Nosso espaço público necessita, cada vez mais, de hermeneutas e mediadores dos conflitos que decorrem do pluralismo religioso e cultural. Na primeira notícia a gente se alegra com certo ecumenismo, ainda que pragmático, mas na segunda deplora o anacronismo belicoso da conversão tradicional e, na terceira, fica espantado com a falta de diálogo religioso com a ciência moderna. Quem não quiser ouvir os conselhos do cantor (“O nome de Deus pode ser Oxalá, Jeová, Tupã, Jesus, Maomé (...) e tantos mais. Sons diferentes, sim, para sonhos iguais”, como diz Gilberto Gil em Guerra Santa), deveria analisar ao menos a ciência do doutor: Peter Berger verifica que as burocracias religiosas, a despeito das suas tradições diferenciadas, têm produzido um tipo sociopsicológico de lideranças muito semelhante. É ativista e pragmático, alheio a qualquer reflexão administrativamente irrelevante, hábil em relações interpessoais, dinâmico e conservador ao mesmo tempo. (É tanto, que cada vez que o padre Marcelo Rossi aparece na TV lá de casa, cantando "Ergueeei as mãos e daaai glória a Deus", a nossa empregada, que é pentecostal, corre alvoroçada e reverente e animada para a sala).

Os indivíduos que se conformam a esse tipo, nas diferentes instituições religiosas modernas, falam a mesma língua e deixam de ver os rivais religiosos como “o inimigo”: são companheiros com problemas semelhantes. Aí assentam-se as bases dos acordos mútuos, do ecumenismo “amplo, geral e irrestrito” que corresponde à modernidade pluralista: “... A livre competição entre as diferentes agências de mercado, sem nenhuma restrição imposta de fora ou com a qual as próprias agências concordem, torna-se irracional até o ponto em que o custo dessa competição começa a comprometer os ganhos a serem obtidos dela. Esse custo pode, em primeiro lugar, ser político ou de ‘prestígio público’. Assim, pode ser mais fácil obter favores de um governo neutro se as diferentes Igrejas agirem em conjunto do que se elas tentarem uma concorrência desleal. Também uma competição muito selvagem pela adesão do consumidor pode ser autodestrutiva, na medida em que pode ter o efeito de afastar em conjunto várias classes de ‘fregueses’ potenciais do mercado religioso. Mas, uma competição sem entraves também tende a se tornar irracional, isto é, muito cara, em termos puramente econômicos” (Berger P. O dossel sagrado. Paulinas, 1985: 153).

Para Berger, portanto, é muito provável que algo como o atual movimento ecumênico e de diálogo religioso surgisse da situação pluralista, mesmo que não ocorressem os desenvolvimentos teológicos específicos, que se usam para legitimá-lo. E mais, a situação pluralista moderna impõe a dinâmica da preferência do consumidor na reorientação dos conteúdos religiosos, o que explicaria a prevalência das “questões subjetivas” sobre as sociais, nos novos movimentos religiosos - inclusive católicos -, e até mesmo a “era do laicato”, enquanto valorização dos consumidores religiosos por parte das Igrejas mais atualizadas. Será [meu Deus!?] que a “valorização do leigo” em nossas Igrejas e a sua abertura para, através do “diálogo ecumênico e inter-religioso”, somar forças no “serviço ao mundo” - quer dizer, os pontos da pauta exata de uma eclesiogênese libertadora, que a muitos de nós seduz - são então processos determinados pelos mecanismos da situação de mercado?! Se for assim, o divino escreve mesmo certo por linhas tortas, serve-se até de satanás - e “bendito seja”, então, o danado do mercado! Alguém, por favor, avise isso aos capitalistas "selvagens" e atrasados das últimas notícias acima, que ainda não perceberam o mercado moderno, como Gil: "Eu até compreendo os salvadores profissionais, sua feira de ilusões. Só que o bom barraqueiro, que quer vender seu peixe em paz, deixa o outro vender limões...".

Gilbraz.