2 de jan de 2011

IEMANJÁ E AS RELIGIÕES POPULARES

Eu fui na Praia do Janga
Pra ver a ciranda
E o seu cirandar.
O mar estava tão belo
E um peixe amarelo
Eu vi navegar...
Não era peixe, não era
Era Iemanjá, a rainha.
Dançando a ciranda, ciranda...
No meio do mar...

Hoje saí catarolando o frevo-ciranda de Capiba, estiquei a caminhada e fui até a imagem de Iemanjá em Paulista. A praia do Janga tem história de briga, pois assistiu à primeira batalha entre holandeses e portugueses por Pernambuco. Na enseadinha, abriga ainda uma vila de pescadores e a fama também de um importante ponto de encontro de grupos de cultura popular, da concórdia das cirandas e maracatus. Hoje o mar avança junto com a especulação imobiliária e a praia é poluída e imprópria. Mas a antiga e inclusiva devoção a Iemanjá é preservada por uma imponente e bela imagem fincada mar adentro. A Rainha do Mar da religião afro-brasileira, do xangô e da umbanda, também tem muitos devotos de outras religiões e é sincretizada entre nós com a Conceição católica que dá nome a um Morro do Recife. É festejada junto com esta no 8 de dezembro, mas reverenciada igualmente na virada do ano, com muitas oferendas de flores e bebidas nas praias da região.


Mesmo sendo domingo, dia 2 de janeiro, muitos grupos de pessoas ainda chegavam a todo momento para rezar junto de Iemanjá. Sentei num cantinho e fiquei escutando as preces, que invariavelmente incluiam alguma ave-maria de mãos dadas (muita gente que vai ao Morro lembra de Iemanjá, muita gente que vem aqui lembra da Conceição!). Confesso que fui transportado em alguns momentos para o lugar onde se esconde o meu coração de menino confiante, diante da Mãe, ao ouvir as orações daquelas pessoas que agradeciam a proteção da santa e do seu Manto no ano passado, que pediam forças pra enfrentar as adversidades do ano novo. E fui arrebatado por um sentimento oceânico, diante do Mar, quando um senhor disse que só pedia uma coisa à santa: "poder ver a realidade das coisas, enxergar melhor os outros que tão longe, e que são meus Irmãos"!

Não sei de onde vem o costume de mergulhar no mar no começo do ano, que aqui foi associado com as oferendas para Iemanjá. Deve vir de antigos ritos de iniciação (nas águas frias de janeiro no hemisfério norte), além do que a água é símbolo de vida e de passagem entre mundos, e as ondas do mar simbolizam os ciclos da vida - e do ano. Talvez subsista aí também uma rivalidade entre as antigas divindades do tempo cíclico da natureza, Moiras, e o novo deus do tempo linear da cultura, Cronos (cronológico!). O nosso 1º de janeiro foi estabelecido como o primeiro dia do ano com o calendário cristão-gregoriano, em 1582. Mas é o começo do ano apenas para um terço da população do planeta - apesar de escolhido pelas Nações Unidas como dia da Confraternização Mundial.

De todo modo, é efeméride com essa ideia de tempo que se projeta, prospectivo e planejador, para o futuro (cristãos são messiânicos, celestiais!); quando a natureza nos pede “tempo” para o ciclo, para enraizar e amadurecer, para aguardar - donde, quem sabe, o ritual telúrico de esperar o ano novo no mar, com uma divindade das águas, Iemanjá. Aliás, vale lembrar que, mesmo em nosso calendário, o primeiro mês do ano é janeiro, em homenagem ao deus romano Jano, porteiro dos céus, sempre representado com duas cabeças, uma olhando para frente, o futuro, outra olhando para trás, o passado. Que os deuses nos ajudem, então, a criar tempo para uma vida mais devagar, que Iemanjá nos ensine a curtir o tempo em espiral: “Nada do que foi será; De novo, do jeito que já foi um dia; Tudo passa, tudo sempre passará; A vida vem em ondas, como o mar”...
Saí cantarolando, em prece... A cabeça em maresia com tantas voltas que as ideias davam, voltei pra casa tocado mesmo por aquela experiência de um anseio extraordinário e grandioso, que as pessoas faziam com muita espontaneidade bem ali, confessando alto os seus desejos e dificuldades, tecendo um balanço da vida, em meio à sujeira corriqueira da praia do Janga e dos seus pescadores - que "mais se encantam com a rede, do que com o mar". Os limites do ambiente, porém, não impediam o fascínio daquela gente, com uma religiosidade popular que sacraliza por imagens intercambiáveis e sincréticas a nostalgia maternal de culturas que se arrumam em torno da mãe (posto que os pais "foram pro mundo"). As pessoas eram "transportadas" por Iemanjá, um orixá africano, do povo Egbá, do rio Níger, para um como que "umbigo do mundo". O nome Iemanjá deriva da expressão iorubá "Yèyé omo ejá" ("Mãe cujos filhos são peixes"). Iemanjá é dona das águas, senhora do mar, mãe dos orixás - também neste começo de 2011, do lado de cá do Atlântico, pois o mito-rito suspende e reorienta o espaço-tempo.

A bênção, minha Mãe! Viva o povo brasileiro, como disse o sábio Darcy Ribeiro, povo capaz de conceber uma deusa dessa e recriar a relação até com o Deus mais oficial:

"O acontecimento mais importante e mais belo da cultura brasileira nas últimas décadas foi a criação do culto à nova Iemanjá das praias. Ela era uma deusazinha de rios e riachos, também dos pescadores, cultuada em São Paulo a 2 de março, e na Bahia, a 2 de fevereiro. Transfigurada, Iemanjá se fez maior, muito maior que a Semana de Arte Moderna dos paulistas. Maior até do que tudo que nossa cultura erudita produziu. Tão grandioso que se inscreve no calendário para colorir a vida de todos os brasileiros. Iemanjá surge como um culto de multidões que se espalhou logo por todas as praias do Brasil. Um eminente ministro da Cultura da França, convidado por mim para apreciar o culto, pediu que eu o transferisse para o Natal. Ignorante. O crioléu do Rio foi que, na sua genialidade, arrastou o culto a Iemanjá para 31 de dezembro. Aposentou, assim, esse Papai Noel nórdico que viaja sobre o gelo num trenó puxado por viadões para pôr presentes pros meninos das casas que tem chaminé. É um culto alienado, bobão, que nos dias de maior sol de verão, em que contamos com tantas frutas maduras: manga, abacaxi, caju, abiu, jabuticaba, pinha, jaca, banana, graviola etc., obriga os tolos a importar frutas meio ardidas para comemorar o nascimento do menino Deus e o ano-novo. Nosso Jesuscristinho brasileiro certamente não gostava disso. Queria era uma festa como essa, que agora os negros do Rio e de todo Brasil lhe dão, cultuando Iemanjá juntamente com a imensa brancalhada, que aderiu logo à nova deusa" (RIBEIRO, Darcy. Crônicas Brasileiras. Rio de Janeiro: Desiderata, 2009, p. 169).

- o -

E aproveitei pra pensar na quinta enquete do nosso blog aqui, que foi encerrada no último dia 31. Trata justamente das Religiões Populares, a propósito do Simpósio Internacional que realizamos na UNICAP em setembro passado, sobre "Religiosidades populares e multiculturalismo: intolerâncias, diálogos, interpretações". Então, 35 pessoas participaram e, segundo a opinião abalizada desses nossos leitores, as Religiões Populares (como o catolicismo popular, as religiões afro-brasileiras, o pentecostalismo de primeira geração) foram consideradas assim: 
  • São mais abertas ao diálogo porque reconhecem, entre e além, um Princípio Criador – 8%
  • São fundamentalistas e discriminam as outras, porque não conhecem a história das religiões da humanidade – 42%
  • São abertas ao diálogo porque misturam e sincretizam Santos intermediários na relação com o Sagrado – 45%
  • São sectárias porque precisam criar fronteiras de identidade, já que todas vivenciam o transe dos Espíritos – 5%

Ou seja, uma pequena margem para maior (53%) avalia que o povo tem uma religiosidade aberta ao diálogo com crenças diferentes, porque sincretiza facilmente santos intermediários (e reconhece sempre um Criador comum); enquanto 47% pensam que as religiões do povo tendem a ser fundamentalistas porque não têm conhecimento da história mais ampla (e precisam reforçar identidades). Claro que, apesar da humilhação histórica à religiosidade dos pobres e das tentativas de instrumentalização das suas devoções, voltando agorinha da experiência bonita desse sincretismo com Iemanjá, tendo a corroborar os resultados da pesquisa rápida do blog: a religiosidade popular é ambígua com respeito ao diálogo inter-religioso, mas suas potencialidades de abertura e relação dependem da capacidade com que os seus guias e animadores conseguem captar as lufadas do Espírito e reinterpretar os signos das suas tradições frente às demais - que se tornam próximas e imbrincadas em nossas sociedades multiculturais.

Mesmo se ficamos apenas com a vertente católica ou cristã da questão (como resenhei aqui e aqui, respectivamente), encontramo-nos diante de um pluralismo bem complexo. E as disputas pelo sincretismo no campo afro e pelo sentido da possessão no pentecostalismo tornam o campo minado e aberto a pesquisas abrangentes. Nos próximos dias será lançado o livro com as conferências e mesas de debates do nosso Simpósio, o que certamente vai provocar mais reflexão e aprofundamento do tema.

Gilbraz.

3 comentários:

  1. Gil, que 2011 seja infinitamente melhor do que 2010 para todos nós... Parabéns pelo blog e pelo sucesso que o mesmo faz...
    Um grande abraço e um merecido descanso ao lado de todos os santos...

    Carlos Vieira

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  2. Gil,
    Feliz 2011, que Deus continue guiando seu caminho.
    Boas férias!
    Adriana

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  3. Karina O. Bezerra10 janeiro, 2011

    O hemisfério sul, copia e cola as tradições do norte, deixando-as vazias de seus belos significados. Quase todos os mitos e símbolos têm seus significados locais e naturais. Talvez se as pessoas tivessem o cuidado de adaptá-los em seus contextos, não seguiram os mesmos cegamente, sem significado objetivo aparente. E talvez até os mais céticos compreenderiam a dança cósmica da natureza.

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