21 de jan de 2013

DIA DE COMBATE À INTOLERÂNCIA

A data, 21 de janeiro, foi escolhida em homenagem à Yalorixá Gildásia Santos, a “Mãe Gilda”. Dirigente de um Terreiro de Candomblé em Salvador (Ylê Axé Abassá de Ogum), Mãe Gilda faleceu após ter sua foto exibida e seu nome citado numa reportagem intitulada “Macumbeiros charlatães lesam a vida e o bolso dos clientes”, publicada em 1999 pelo jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Na época, o Terreiro dirigido por Mãe Gilda foi invadido e depredado por um grupo de evangélicos ligados à Universal. A Yalorixá passou por sérios problemas de saúde depois do episódio, e morreu em 21 de janeiro de 2000, um dia após ter assinado a procuração para abertura de ação judicial contra a IURD.

Quando a gente começa a pensar sobre um fato como esse, que teve recentemente versões similares em Pernambuco (veja aqui notícias de violências envolvendo nossos Terreiros), é confrontado por outro fato: para além das fronteiras religiosas, entre novos cientistas e pensadores, cresce a consciência de que deveríamos nos reconhecer como comunidade humana, geneticamente ligada com todos os seres vivos, evoluindo junto com a totalidade do cosmos. Nossa existência deve ser concebida como interdependência a todos os níveis. Todos os povos e a terra inteira estamos ligados, de sorte que juntos é que devemos encarar nossa comum missão de salvar a vida.

Sendo assim, não dá para entender que um só povo ou religião ou Igreja, um só sexo ou raça ou classe sejam a luz do mundo. Todos somos luz e treva, em comunitária evolução. Nenhum triunfalismo, religioso ou de qualquer espécie, pode ter lugar neste “novo” paradigma de universo e de conhecimento, onde se procura permitir a vida a todos. Diante dessa aventura ecológica e ecumênica que o Espírito está convocando no mundo, então, as religiões ficam desafiadas seriamente.

Para continuar o aprofundamento do (e o engajamento com o) tema, este ano somos brindados com a nova edição do livro "O Espírito sopra onde quer...", da Rede Ecumênica da Juventude, um espaço que busca favorecer a construção de redes regionais ecumênicas das juventudes, para a promoção dos direitos juvenis e o diálogo contra a intolerância. O livro traz artigos sobre o diálogo entre religiões e também, como o movimento dos seguidores de Jesus é majoritário no Brasil, traz círculos bíblicos para motivar uma releitura teológica das fontes cristãs sobre as outras tradições de fé.

Baixe o livro por aqui.
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Veja também a prece de Voltaire pela Tolerância::
 


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2 comentários:

  1. Núcleos católicos, infelizmente, também cerram fileiras na linha da intolerância religiosa, como segmentos da Canção Nova. Sempre impactou-me negativamente o livro de pe. Jonas Abib, Sim, sim! Não! Não, publicado pela Editora Canção Nova e já com várias edições. O alvo predileto do livro vem defino como a “cultura espírita” e as práticas a ela relacionadas. E quando o autor fala em espiritismo ele enquadra tanto o espiritismo kardecista como o que denomina “espiritismo de terreiro”, envolvendo a umbanda, o candomblé e outras ramificações da tradição afro. A linguagem do livro é bem beligerante e anti-dialogal. Na visão de Abib, são “espíritos malignos” que acabam conduzindo as pessoas ali no espiritismo, daí a importância – segundo ele – de combater tal “epidemia” e desterrá-lo da vida dos católicos. Adverte que “não é possível ser católico e guardar resquícios de uma mentalidade e cultura espírita. É preciso limpar tudo!” Estamos diante de uma linguagem que impressiona... Não só o espiritismo é objeto da crítica belicosa do livro, mas também as “doutrinas e filosofias pagãs que vieram do Oriente”. Na visão do pe. Jonas, os cristãos acabam-se deixando levar pelas “migalhas da verdade” presentes em tais doutrinas e abandonando a verdade anunciada por Jesus. Suscita então um alerta para a igreja católica, no sentido de “resgatar” os “irmãos que ainda estão nessas religiões orientais”. Para nós que dedicamos nosso trabalho e vida ao diálogo entre as religiões, não há como deixar de reagir a obras problemáticas como essa, que acabam provocando atitudes beligerantes contra os outros, quando não práticas precisas de violência contra a alteridade. Nada mais essencial do que respeitar o sagrado direito da diversidade e da dignidade da diferença.

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  2. Alex Rodrigues
    Repórter Agência Brasil
    Brasília – A quantidade de denúncias de intolerância religiosa recebidas pelo Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República cresceu mais de sete vezes em 2012, quando comparada com a estatística de 2011. Embora signifique um aumento de 626%, a própria secretaria destaca que o salto de 15 para 109 casos registrados no período não representa a real dimensão do problema.
    O resultado foi divulgado a pedido da Agência Brasil, devido ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado hoje (21).
    Os dados do Disque 100 para a intolerância religiosa podem estar subestimados, de um lado, porque o serviço telefônico gratuito da secretaria não possui um módulo específico para receber esse tipo de queixa, de forma que nem todos casos chegam ao conhecimento do Poder Público.
    Além disso, a maior parte das denúncias é apresentada às polícias ou órgãos estaduais de proteção dos direitos humanos e não há nenhuma instituição responsável por contabilizar os dados nacionais.
    A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) também não possui dados específicos sobre violações ao direito de livre crença religiosa, mas seu ouvidor, Carlos Alberto de Souza e Silva Junior, compartilha da impressão de que o problema tem crescido nos últimos anos.
    Segundo o ouvidor, o número de denúncias de atos violentos contra povos tradicionais – módulo que envolve todo o tipo de violação aos direitos de comunidades ciganas, quilombolas, indígenas e os professantes das religiões e cultos de matriz africana relatadas à Seppir - também cresceu entre 2011 e 2012.
    “Apesar dos avanços das políticas sociais e raciais, é perceptível uma reação intolerante, preconceituosa, discriminatória e racista e eu já percebo um certo recrudescimento de alguns direitos”, declarou o ouvidor da Seppir à Agência Brasil, citando, como exemplo, o aumento do número de denúncias envolvendo crimes raciais na internet.
    Segundo a associação Safer Net, em 2012, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos (CND) recebeu 494 denúncias de intolerância religiosa praticadas em perfis hospedados no Facebook.
    “Não consigo avaliar o porquê de tanta intolerância, mas um dos indicativos que ainda precisamos verificar com cautela [é a atuação de] algumas igrejas neopentecostais, que vem pregando o ódio, inclusive na internet. Há ao menos um caso denunciado à ouvidoria de uma igreja cujo líder espiritual vem revelando esse ódio contra as religiões de matriz africana, associando-as à coisas do diabo. Sabemos que esse tipo de pregação, feita por um líder religioso, afeta [influencia] a muitos de seus seguidores”, acrescenta o ouvidor.
    O integrante da Seppir aponta também as práticas discriminatórias vindas até mesmo de agentes públicos, como o promotor de Justiça de Santa Catarina que, em 2011, proibiu uma casa de umbanda de Florianópolis de realizar cultos e executar animais durante as cerimônias sem a autorização do Estado.
    “Isso é um absurdo já que não existe lei que obrigue a casa de umbanda a pedir essa autorização. E a Constituição estabelece que não se pode embaraçar o culto religioso”, disse o ouvidor.
    Carlos Alberto Júnior também expressa preocupação quanto aos projetos de lei que tentam criminalizar o abate de animais em sacrifícios religiosos - algo que muitos especialistas consideram inconstitucional, já que a Constituição Federal estabelece que a liberdade de crença é inviolável, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos.
    Além disso, o texto constitucional determina que os locais de culto e suas liturgias sejam protegidos por lei. Já a Lei 9.459, de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões.
    “Eu vejo tudo isso como um fenômeno umbilicalmente ligado ao racismo, algo que não pode ser desassociado da questão do preconceito racial. Tanto que, na Seppir, não recebemos nenhuma denúncia dando conta de que outras religiões, além daquelas de matriz africana, sejam alvo de discriminação”, concluiu Júnior.

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