24 de nov de 2012

MISSA DOS QUILOMBOS EM PORTUGAL




"Em nome de um Deus supostamente branco e colonizador , que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vêm sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e à morte. No Brasil, na América, na África-mãe, no mundo. Deportados como 'peças' da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barata os canaviais e as minas e encheram as senzalas de indivíduos desaculturados, clandestinos, inviáveis. (Enchem ainda de sub-gente – para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos – as cozinhas, os cais, os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes).

Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinai Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, 'em nome do Deus de todos os nomes', 'que faz toda a carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue'. Vindos ‘do fundo da terra’, ‘da carne do açoite’, ‘do exílio da vida’, os Negros resolveram forçar ‘os novos Albores’ e reconquistar Palmares e voltar à Aruanda. E estão aí, de pé, quebrando muitos grilhões – em casa, na rua, no trabalho na igreja, fulgurantemente negros ao sol da Luta e da Esperança.

Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa, diante de Deus e da História, esta máxima culpa cristã. Na música do negro Milton [Nascimento] e de seus cantores e tocadores oferece ao único Senhor 'o trabalho, as lutas, o martírio do Povo Negro de todos os tempos e de todos os lugares'. E garante ao Povo Negro a Paz conquistada da Libertação. Pelos rios de sangue negro, derramado no mundo. Pelo sangue do Homem 'sem figura humana', sacrificado pelos poderes do Império e do Templo, mas ressuscitado da Ignomínia e da Morte pelo Espírito de Deus, seu Pai.

Como toda a verdadeira Missa, a Missa dos Quilombos é pascal: celebra a Morte e a Ressurreição do Povo Negro, na Morte e Ressurreição do Cristo. Pedro Tierra e eu já emprestamos nossa palavra, iradamente fraterna, à Causa dos Povos Indígenas, com a ‘Missa da Terra sem males’; emprestamos agora a mesma palavra à Causa do Povo Negro, com esta Missa dos Quilombos. Está na hora de cantar o Quilombo que vem vindo: está na hora de celebrar a Missa os Quilombos, em rebelde esperança, com todos 'os Negros da África, os Afros da América, os Negros do Mundo, na Aliança com todos os Pobres da Terra'".

Este é o texto de apresentação que o bispo católico espanhol Pedro Casaldáliga escreveu para a “Missa dos Quilombos”, de que é autor, juntamente com Pedro Tierra (letra) e Milton Nascimento (música). O disco original termina com a “Invocação a Mariama”, escrita e lida por D. Helder Câmara. Proibida de ser realizada nas igrejas, a Missa tem sido representada em teatros do mundo. Neste mês de novembro, um elenco de 21 atores e oito músicos deu corpo no Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, em Portugal, à Missa dos Quilombos, estreada em 1981 e revisitada na última década pela Companhia Ensaio Aberto, do Rio de Janeiro (no vídeo acima).

"Missa dos Quilombos instala-nos numa central elétrica com várias dezenas de máquinas diferentes, de um singelo moinho a uma turbina de avião, trazendo para a linha da frente a história dos negros no Brasil", cantando "uma história de opressão, mas também uma esperança indômita e um desejo imenso de liberdade". "Adotando a estrutura padrão de uma missa, o espetáculo cruza o ritual católico e expressões da cultura afro-brasileira, numa sinestésica fusão de sons, cores, danças e ritmos", descreve o site do TNSJ.

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