3 de jun de 2012

TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

Em 2011 os bispos americanos condenaram o livro Quest for the Living God (Em busca do Deus vivo), escrito pela irmã Elizabeth Johnson, uma ilustre professora de teologia da universidade jesuíta Fordham, de Nova York. A última Revista Concilium (nº 2 de 2012) é dedicada às velhas e novas tensões entre teólogos e bispos e, no seu editorial, escrito por Susan Ross (professora de teologia da Loyola University, nos EUA, presidente da Catholic Theological Society of America), e Felix Wilfred (ex-professor da Universidade de Madras, na Índia, e diretor-fundador da Asian Centre for Cross-Cultural Studies), parte desse caso e contextualiza as divergências entre os magistérios acadêmico e hierárquico na Igreja católica. Transcrevemos aqui um trecho da mensagem, cuja tradução foi-nos brindada pelo IHU:

“... Esse, decisivamente, não foi o primeiro processo a envolver a Comissão de Doutrina norte-americana na crítica a um teólogo. No outono de 2010, a mesma Comissão havia emitido um comunicado que expressava duras críticas sobre o trabalho de dois teólogos norte-americanos, Todd A. Salzman e Michael Lawler, pelo seu livro The Sexual Person [A pessoa sexual]. E é preciso assinalar também a notificação de 2004 da Congregação para a Doutrina da Fé: naquele ano, o dicastério vaticano anunciava que havia encontrado sérios problemas no trabalho do teólogo norte-americano Roger Haight, em particular no seu livro Jesus, Símbolo de Deus. A mesma Congregação afirmava que a divulgação desse texto era um "grave dano aos fiéis". Quatro anos mais tarde, a Congregação para a Doutrina da Fé proibiu o jesuíta Haight de ensinar teologia e de publicar.

Essa tensão nas relações entre bispos e teólogos, contudo, não se refere apenas aos EUA. Em fevereiro de 2011, um grupo de teólogos alemães publicou um memorando intitulado Igreja 2011: um reinício necessário. Esses teólogos, cujo número hoje supera os 270, defendem que a Igreja tem uma desesperada necessidade de "reformas profundas e radicais" e convocam a Igreja institucional a desenvolver "a coragem da autocrítica". A declaração, diferentemente das norte-americanas, não se refere especificamente a uma questão teológica ou a uma pessoa particular. Ao contrário, os autores da carta invocam uma visão mais ampla de reforma na Igreja, citando a necessidade de maiores "estruturas de participação", de liberdade de consciência e mais atenção à necessidade de um ministério renovado.

Um observador norte-americano observou que o bispo auxiliar Hans-Jochen Jaschke, de Hamburgo, "se expressou claramente contra toda tentativa de fazer pressão sobre a Igreja católica fora das suas estruturas". No seu diário online, Lisa Fullam, professora de teologia da Escola de Teologia e do ministério dos jesuítas da Universidade de Santa Clara, Califórnia, se pergunta: "Os teólogos católicos estão realmente 'fora' das estruturas da Igreja?". 

Do outro lado do leque de possibilidades ideológicas, a revista mensal norte-americana First Things, que reflete geralmente um ponto de vista conservador, defende que os teólogos alemães querem que "o catolicismo […] se transforme em uma outra seita protestante liberal". Respondendo a essa afirmação, o jesuíta Hans Langendörfer, secretário da Conferência dos Bispos da Alemanha, escreveu o que se segue: "Em uma série de questões, o memorando está em tensão com as convicções teológicas e as exigências religiosas de alto compromisso". Continuando, disse: "As questões relevantes requerem urgentes esclarecimentos posteriores". 

Outro exemplo de um teólogo que enfrenta as críticas dos bispos é encontrado na Espanha, onde foi banido um best-seller sobre a vida de Jesus no outono de 2010, por causa da ameaça que ele representaria para a piedade católica tradicional. Escrito por José Antonio Pagola, Jesus: aproximação histórica, um livro que sublinha a compaixão de Deus ao invés de seu poder, foi inicialmente elogiado pelo Pontifício Conselho para a Cultura. Porém, ao que parece, após pressões, ele foi indicado à Congregação para a Doutrina da Fé pela Conferência dos Bispos da Espanha, e as cópias dos livro foram retiradas das livrarias (mesmo que as cópias digitais estejam disponíveis online). Pagola é basco de nascimento, uma região que é descrita como "perigoso foco de libertinismo". Trinta teólogos espanhóis expressaram publicamente a sua opinião em apoio a Pagola. 

Em todo o mundo, houve outros episódios de tensão ou conflito entre bispos e teólogos. Os leitores provavelmente se lembram do caso de Ivone Gebara, a religiosa brasileira que, em 1995, foi silenciada e obrigada a ir para a Europa para uma "reeducação" de dois anos. Tendo voltado ao Brasil depois do "exílio", Gebara continuou publicando escritos. Com relação ao trabalho de Jon Sobrino, jesuíta espanhol que há décadas vive em El Salvador (San Salvador) e é autor de inúmeras obras de teologia da libertação, a Congregação para a Doutrina da Fé, em 2007, sentenciou que, das suas ideias "errôneas ou perigosas" pode "derivar um grave dano aos fiéis".

Ao longo dos últimos 30 anos, alguns teólogos foram excomungados (Tissa Balasuriya), removidos das suas posições (Hans Küng, Charles Curran, Roger Haight), foi-lhes ordenado o silêncio e/ou a reeducação (Ivone Gebara), foram objeto de investigação por parte do Vaticano (Edward Schillebeeckx), e, como se observou anteriormente, o seu trabalho foi submetido a uma censura oficial. Muito frequentemente, essas ações foram empreendidas a fim de "proteger os fiéis" daquelas que alguns bispos consideram como ideias perigosas e desviantes.

Este fascículo da Concilium busca explorar e aprofundar a análise dessa relação atormentada, como foi feito em números anteriores da revista. Há apenas 50 anos, a teologia católica era uma disciplina em grande parte fechada, ensinada por sacerdotes-professores em seminários controlados por ordens religiosas masculinas ou pelas dioceses. Os teólogos eram formados nas universidades pontifícias e faziam parte das mesmas comunidades clericais dos seus bispos. Mas o Vaticano II abriu as fileiras da teologia aos leigos. As universidades começaram a ensinar a teologia como disciplina acadêmica, os teólogos não buscaram mais o imprimatur para o seu trabalho, e um laicato cada vez mais instruído tentou explorar as conceitualidades teológicas (que uma vez estavam bem além do seu alcance).

Esses desdobramentos não foram universalmente bem acolhidos por parte do Vaticano ou de vários bispos. As respostas dos leigos não teólogos foram as mais díspares: uma olhada rápida no blog online em resposta ao "caso Johnson" mostra, de um lado, alguns extremistas que defendem os bispos contra a "congregação de bruxas" que se afirma que Elizabeth Johnson lidera; os comentários mais moderados sugerem que o papel dos fiéis é simplesmente o de obedecer aos seus bispos; de outra parte, um certo número de usuários discute como o trabalho de Johnson foi para eles fonte de transformação, e muitos sublinham também como é importante que os teólogos explorem novos territórios.

Certamente, as tensões entre os bispos e os teólogos não são uma novidade, mas remontam aos primeiros anos da Igreja. Lembremos os problemas que o gnosticismo e o arianismo puseram ao ensino eclesial. Essas posições teológicas ironicamente serviram para alcançar o importante objetivo de obrigar os bispos da Igreja a esclarecer o que a fé cristã verdadeiramente era.

Mas também devemos lembrar que alguns teólogos como Orígenes, que, no início, foi condenado pelas suas ideias, encontraram um certo grau de afirmação nos anos posteriores. Algumas das proposições de São Tomás de Aquino foram condenadas logo depois da sua morte em 1274, e Santa Teresa d'Ávila foi chamada a comparecer perante a Inquisição. Mas, hoje, ambos são venerados com o mais alto título dado a um teólogo: o de doutor da Igreja.

Pouco mais de 100 anos atrás, a condenação do modernismo levou muitos teólogos a perder os seus cargos acadêmicos. Algumas das opiniões expressadas por esses teólogos seriam, em seguida, oficialmente aceitas pelo magistério romano no Vaticano II. Henri de Lubac, Yves Congar e John Courtney Murray foram silenciados nos anos anteriores ao Vaticano II, embora Murray, mais tarde, tenha se tornado o principal artífice da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa (Dignitatis humanae, do dia 7 de dezembro de 1965).

Os documentos vaticanos dos últimos 25 anos discutiram a importância da relação entre bispos e teólogos. Na instrução Donum veritatis (1990) se lê: "Ainda quando a colaboração se desenvolve nas mais propícias condições, não é impossível que nasçam entre o teólogo e o Magistério certas tensões. O significado que a elas é dado e o espírito com que são encaradas não são indiferentes: se as tensões não nascem de um sentimento de hostilidade e de oposição, podem representar um fator de dinamismo e um estímulo que impele o Magistério e os teólogos a cumprir as suas respectivas funções praticando o diálogo. No diálogo deve dominar uma dupla regra: quando está em questão a comunhão de fé vale o princípio da 'unitas veritatis'; quando persistem eventuais divergências que não põem em risco esta comunhão, salvaguardar-se-á a 'unitas caritatis'"..."
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Veja aqui (em espanhol)
 o índice e editorial completo da Concilium.
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