2 de set de 2011

JESUS CRISTO E/OU HARRY POTTER



Nosso moleque já saiu de bruxo no carnaval de Olinda e joga muito Xbox no mundo mágico do Castelo de Hogwarts - já que a gente não colaborou para o seu sonho de virar estudante interno naquela prestigiosa escola de bruxaria, há, há! Arthur assistiu (mais de uma vez!) a todos os filmes de Harry Potter. Eles começaram em 2001 e só terminaram há pouco, com a segunda parte de As relíquias da morte, depois de mais de mil minutos apresentando nas telas as aventuras de um bruxinho que derrotou as forças do mal, comandadas pelo Lord Voldemort. Nosso filho também está terminando a leitura da série original de sete livros (e toda noite resmunga que as histórias aí são muito melhores do que nos filmes): eles começaram a ser lançados em 2007 e, na versão brasileira, somam mais de três mil páginas, onde a escritora britânica Joanne K. Rowling cria aventuras fantásticas para mostrar o desenvolvimento de Harry e seus amigos, aprendizes de feiticeiro, frente às responsabilidades morais com os outros e à complexidade da vida.
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A ficção dos romances de Harry Potter, que vendeu mais de 450 milhões de livros em 67 línguas (até junho deste ano!), gerou polêmica mundo afora, tendo sido acusada, pelas religiões abraâmicas, de conter textos "subliminares" (?!) de ocultismo e satanismo (veja aqui uma resenha dos debates religiosos sobre a série). Representantes do Vaticano consideraram o bruxinho inglês um modelo errado de herói e o próprio papa Bento, então cardeal, escreveu carta criticando os livros por conterem seduções que podem corromper os jovens cristãos. O frei Gabriele Amorth, exorcista em Roma, declarou que os livros fazem uma falsa distinção entre magia negra e magia branca, "porque magia é sempre voltada para o diabo". Mas também teve cardeal que virou fã de Harry e, lá na Inglaterra, a Igreja Anglicana aproveitou o sucesso da série e lançou um guia para potterianos, o Mixing it up with Harry Potter (veja trechos do livro aqui), onde aproveita aspectos da trama para debater temas cristãos. A autora, aliás, se confessa cristã praticante!

Mas a surpresa nas análises, também acadêmicas, sobre as questões religiosas envolvidas no sucesso publicitário da literatura de Rowling, veio com uma dissertação de mestrado do americano Derek Murphy (formado em teologia e agora doutorando em literatura comparada), que foi publicada em livro: Jesus Potter, Harry Christ. Ele estudou a "influência mística" na literatura bíblica e nas aventuras de Harry e disse ter encontrado paralelos entre o bruxo e Jesus Cristo: ambos são construções literárias baseadas nas mesmas fontes pré-cristãs. Há muitas supostas semelhanças: a ressurreição após uma morte por sacrifício, o nascimento miraculoso previsto em profecia, a sua simbolização por um leão (e a do inimigo por uma serpente), etc, etc. Bom, avaliações históricas e hermenêuticas mais profundas à parte, uma questão aflora imediatamente para nós: que razões tem a garotada para se envolver com uma nova mitologia "sincrética" e "ficcional", quando há tantos caminhos tradicionais e catequéticos para se iniciar nas narrativas da nossa matriz cultural judaico-cristã? Pelo menos, eu já tenho argumentos para, quem sabe, apaziguar a minha sogra, cautelosa com os "livros feios" que a gente deixa Arthur ler...

Gilbraz.

Você pode visualizar Jesus Potter, Harry Christ aqui,
 em inglês, no google books;
e pode também acessar o site audiovisual da publicação aqui.

Um comentário:

  1. Eu também li todos os livros em ingles logo quando saiam, e vi todos os filmes e acho os livros mais interessantes como sempre. Que eu saiba o Vaticano até louvou o último filme! Pessoalmente o que me chamou atenção é que aparecem várias vezes creio alusão aos feriados de Natal, onde vai no feriado, o que vai fazer, etc., mas nunca vi alusão ao que seria o Natal ou aos símbolos de presépios, e outras festas. Nestes sentido é muito pós-cristão, mas é evidente a alusão à ressurreição na morte re-vida de Harry Potter no final do livro...
    Abraço
    Jaime.

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