2 de jul de 2010

LIEVE TROCH ENTRE NÓS

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Hoje o Brasil saiu da copa do mundo de futebol porque perdeu um jogo, para os holandeses. Mas, na Holanda, uma pessoa estava torcendo pelo Brasil. Minutos antes da partida nós conversamos pela internet e ela confirmou a sua participação no III Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP, em setembro - além de confessar que iria torcer por nós. Trata-se de Lieve Troch (Godelieve Mathilda Felicita Troch), que a gente conheceu em Congresso no Rio, mas nasceu na Bélgica (em 1949), viajou pela Ásia e pela América e, ao longo do seu trabalho como intelectual, vem se dedicando a temas como teologia intercultural e inter-religiosa. Lieve é católica, mas virá sob auspícios das Igrejas Protestantes holandesas: um bom sinal dos tempos, justamente quando o nosso Simpósio vai tratar de multiculturalismo e diálogo inter-religioso.

Troch estudou ciências da religião e criminologia em Louvânia (Bélgica). Fez doutorado na área da teologia sistemática em Tilburg (Holanda) e publicou sua tese sob o título Resistência é o segredo da alegria: uma discussão de temas da teologia fundamental no âmbito da teologia feminista. Ensina no Departamento de Teologia Sistemática e Teorias de Cultura e Religião na Katholieke Universiteit em Nijmegen (Holanda). Desde 1998 é também professora de estudos feministas na Pós-graduação em Ciências da Religião na UMESP (Universidade Metodista de São Paulo) e professora visitante em vários países da Ásia. Organizou livros e publicou muitos artigos na área da hermenêutica e da teologia intercultural e interreligiosa (veja aqui o seu currículo Lattes).

Lieve fará a única - e magna - conferência do nosso Simpósio na UNICAP, sobre “Alternativas populares para o diálogo entre religiões”. Ela se credencia para tal porque é uma das escritoras contemporâneas que tem realizado uma crítica ao pensamento teológico tradicional, ao lado de escritoras como Ivone Gebara, Mary Judith Ress, Elisabeth Schüssler Fiorenza, entre outras. São mulheres que tecem um discurso feminino, alternativo, sobre o Sagrado, olhando por entre os cânones religiosos e aproximando as teologias das diversas religiões ao cotidiano das pessoas. Como elas, Lieve está em sintonia com os movimentos populares e feministas dos anos sessenta do século passado, mas avança em questões contemporâneas como identidades e (des)territorialidades.

No pensamento de Troch o tema das fronteiras - e suas ambiguidades - é nodular: “Fronteiras fazem parte da vida, no nível pessoal e estrutural. Fronteiras constroem identidades de sujeitos, de povos, de instituições, de religiões e de pensamentos. Parece necessário viver com fronteiras para conservar a identidade pessoal e estrutural. A violação das fronteiras corporais, espirituais e culturais de mulheres e homens, de povos indígenas destruiu sua integridade e sobrevivência”, argumenta.

A fronteira, no pensamento da teóloga, é um signo central e sistêmico, capaz de produzir inúmeras variantes. Não é à toa que o livro Teologias com Sabor de Mangostão, em sua homenagem, conta com a colaboração de autoras e autores de diferentes continentes e de distintas práticas religiosas, o que permite contribuições teóricas importantes para o entendimento de que a teologia contemporânea acontece especialmente marcada pela mobilidade dos sujeitos. Em português, Lieve organizou também o livro Passos com paixão: uma teologia do dia-a-dia e o dvd Teologia feminista, estudos feministas: religião e ciências sociais. Além disso, participou da coleção Pelos muitos caminhos de Deus, da Associação de Teólogos do Terceiro Mundo.

Enfim, apesar de perdermos o jogo, este é um dia de contentamento para nós no Mestrado, porque nos certificamos da presença de uma grande parceira para o Simpósio de setembro, quando esperamos aprofundar a pesquisa sobre as religiões realizada na UNICAP e, assim, colaborar para a reflexão mundial sobre o tema da pluralidade religiosa e diálogo entre crenças. O nosso III Simpósio Internacional quer discutir, especialmente, o conceito de religiosidade popular e suas expressões culturais, dentro da complexidade do mundo globalizado; quer refletir sobre processos hermenêuticos e religiões populares, bem como fazer um balanço epistemológico das teologias das religiões e teorias sobre o diálogo inter-religioso. Além da vinda também confirmada da biblista portuguesa Luísa Maria Almendra, das Mesas de Debates com professores de Programas amigos, acabamos de aprovar mais de 140 comunicações científicas nos Grupos de Trabalho do evento. Seja bem-vinda, pois, ao mutirão, caríssima Lieve!
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