12 de jun de 2009

FÓRUM INTER-RELIGIOSO

Fórum Inter-religioso encerra o semestre com encontro sobre os Xucuru
Por Tiago Cisneiros no Boletim UNICAP
O Fórum Inter-religioso da Católica apresentou, segunda-feira (8), as características e histórias da tribo Xucuru de Pesqueira, no Agreste de Pernambuco. O encontro, realizado no auditório do Centro de Teologia e Ciências Humanas, no primeiro andar do bloco B, contou com a presença da mãe do cacique Marcos, dona Zenilda, e da índia Lia, que falaram sobre as crenças, lutas e dificuldades da população.
Dona Zenilda contou a história de disputa entre os índios Xucuru e 281 posseiros na região da Serra do Ororubá, em Pesqueira. “Eles invadiram, mataram nosso povo e nossa terra. Depois, ao começarmos a ocupar os nossos terrenos, nós fomos chamados de ladrões”, afirmou. Segundo ela, a tribo busca resistir à perseguição através da religião, marcada pelo culto à natureza (águas, matas, pedras...). Ela falou, também, sobre o marido, o cacique Chicão, assassinado durante os conflitos: “Ele tinha o dom de libertação do povo. Quando o mataram, parecia que iríamos parar a luta. Mas nos fortalecemos com o meu filho Marcos, que, também, nasceu com o dom da liderança”.
De acordo com Zenilda, a estratégia da Polícia Federal é prender os índios, após os conduzir para o Recife sob o pretexto de que irão prestar depoimento. Ela denunciou, também, a emboscada montada pelos posseiros contra o cacique Marcos, que terminou com as mortes de dois jovens indígenas. “Agora, o judiciário inverteu a situação e 35 pessoas do nosso povo estão sendo indiciadas criminalmente”, afirmou, ressaltando buscar forças de resistência na religião: “Nós acreditamos que a justiça de Deus é maior do que a da Terra e corrige os erros, aqui, praticados”.
O cacique Marcos, ao ser condenado a dez anos de prisão, teria perguntando a dona Zenilda: “E o meu povo?”. Durante a apresentação desta segunda-feira, ela contou que pediu para que o filho mantivesse a calma e a fé nos Encantos e não deixasse a luta cessar. “Se Deus quiser, venceremos. E nós nascemos para morrer lutando, não vamos morrer de braços cruzados”.
A índia xucuru Lia falou, brevemente, sobre a importância da natureza para o grupo indígena. A princípio, pediu licença aos Encantados e às matas para explicar as crenças da tribo. “Temos muita fé nas coisas naturais. Abraçamos e preservamos as matas, as águas, as pedras... A natureza, através dos Encantos, nos dá as curas e as informações de que precisamos. Se não fosse ela, talvez não tivéssemos o espírito vivo que temos hoje”, disse.
Em seguida, o coordenador do Mestrado em Ciências da Religião, professor Gilbraz Aragão, deu início ao momento de debate, questionando as convidadas sobre a relação entre a pajelança e o catolicismo, religiões dos Xucuru de Pesqueira. Segundo dona Zenilda, o Tupã indígena representa Deus, assim como a entidade Tamaim, protetora da etnia Xucuru, que corresponde a Nossa Senhora das Montanhas.
Ela, também, falou sobre os rituais e mistérios da pajelança xucuru, como a Pedra D’Água, lugar de orações dos indígenas e onde está enterrado o corpo do cacique Chicão. Acredita-se que o Rei de Ororubá, “o Encanto mais poderoso” na crença tribal, também vive no local. Sobre o culto à Jurema Sagrada, dona Zenilda explicou: “Nós a usamos como bebida nos nossos momentos religiosos. Só algumas pessoas puras e consagradas podem prepará-la”. Ela disse, ainda, que a conhecida dança Toré não deve ser vista como um ritual dos índios Xucuru, porque é praticada em qualquer lugar, público ou não. “Nossos rituais são reservados, acontecem nas matas, quando procuramos a força dos nossos Encantos para iluminar os caminhos”, explicou.
Durante o evento, foi distribuída uma carta em defesa dos Xucuru contra as ações do Ministério Público Federal em Pernambuco e da Justiça Federal que denunciaram e condenaram à prisão mais de 30 índios, devido aos atos de revolta após a emboscada sofrida pelo cacique Marcos, em fevereiro de 2003. No final do encontro, os interessados puderam preencher um abaixo-assinado de apoio à causa indígena.

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