5 de jan de 2014

PASTORIL E REISADO

foto da amiga Ádria de Souza / Pref. Olinda
A queima da lapinha é um ritual tradicional que marca o encerramento do ciclo natalino e a chegada do carnaval e acontece, geralmente, no dia 6 de janeiro, o Dia de Reis, da visitação dos misteriosos Magos ao Menino Jesus. A tradição é realizada juntamente com o cortejo de grupos de pastoril e de reisados. Em Olinda, o Pastoril Estrela de Belém realizará a queima da lapinha na próxima segunda-feira (6), às 19h30, em frente à Igreja do Carmo, seguindo-se um cortejo dançante pela cidade.

No Recife, a cerimônia acontece no mesmo dia, no Pátio de São Pedro, no Centro, e no Sítio Trindade, em Casa Amarela. Na Zona Norte, os pastoris e bandas natalinas se concentram às 18h, em frente da Igreja da Harmonia, na Estrada do Arraial, de onde seguem cantando suas jornadas para o Sítio Trindade. No Centro, a concentração dos pastoris e reisados começa às 19h, no pátio da Igreja do Carmo, de onde desfilam em cortejo para o Pátio de São Pedro. A festa no Bairro de São José segue até às 23h, com pastoris como o Estrela Brilhante e Luz do Amanhecer.

O Pastoril integra o ciclo das festas natalinas do Nordeste brasileiro. Em Pernambuco, o primeiro Pastoril ou Presépio animado surgiu nos fins do século XVI, em cerimônia realizada no Convento de São Francisco em Olinda, com as pastorinhas cantando loas sobre o nascimento de Cristo. Tempos depois, com a folclorização da religião, surgiu também nas periferias o Pastoril profano, que se caracteriza por certa licenciosidade.

Reisado é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja sobretudo a véspera e o Dia de Reis. O primeiro Reisado de que se tem notícia, ainda no período colonial, instalou-se em Sergipe. O Reisado pode ser dançado de 24 de dezembro a 6 de janeiro, quando um grupo formado por músicos, cantores e dançarinos vai de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passa e dança. O Reisado também é muito conhecido como Folia de Reis.

Dia desses (veja aqui) tivemos o prazer de ir com a família assistir ao espetáculo Agora é tempo, onde a cultura do pastoril é encenada e resgatada pela família da nossa ex-aluna Giselle Tigre: uma beleza. Na Continente, revista de cultura de Pernambuco, encontramos agora neste mês de janeiro um artigo bonito do médico e escritor (autor do Baile do Menino Deus) Ronaldo Correia de Brito, sobre o reisado. O texto, intitulado "A metafísica da porta", reflete sobre a lógica popular-subversiva dos "Mateus", invertendo a ordem profano-sagrada do mundo e abrindo a porta para a festa do Menino, onde se dramatiza a morte e ressurreição do "Boi" - que sincretiza motivos simbólicos egípcios, gregos e mesopotâmicos, tomados de empréstimo pela mitologia do povo cristão nessa dança de visitação natalina...

"Os brincantes se aproximam da casa que os receberá para a festa. Escutam-se longe o tropel de passos, o canto a duas vozes das marchas de estrada, as crianças respondendo num tom agudo, acima do vozeirão adulto. São homens, rapazes e meninos, embora usem vestidos pregueados, anáguas de renda, fitas e espelhos. As roupas imitam as cotas de malha dos cavaleiros andantes. Um capacete confeccionado com papelão, vidrilhos e areia prateada – do qual pendem fitas das mais diversas cores –, e uma espada de aço na mão direita completam o figurino medieval. O campo de batalha a que se dirigem é a porta de uma casa e o terreiro em frente. Irão representar um auto de reisados, que dura a noite toda, à mercê dos improvisos e da cachaça que os anfitriões oferecem.

O número de cantos de um reisado, antes dos brincantes chegarem à casa onde acontecerá a festa, depende do repertório do mestre, contramestre e violeiro. O valor do brinquedo se mede pelos entremezes que ele representa, pelos improvisos do mestre, pela graça dos Mateus, pelas coreografias e afinação das vozes nos cordões de figuras. E por muitas habilidades, como a destreza em jogar as espadas simulando uma batalha, a imitação de mulheres nos papéis femininos, a dança com ritmo e cadência.

Mas não é sobre esses valores que desejo escrever. Dividido em cinco partes – marcha de estrada, abrição da porta, divino, chamada das figuras e despedida – o reisado me interessa pela metafísica do segundo entremez. Quando os brincantes chegam à casa para celebrar a festa, encontram todas as portas e janelas fechadas, num ato de interdição à festa. Entristecidos e surpresos, eles cantam:

Abra a porta gente
que eu venho ferido
pela falsidade tão grande
dos meus inimigos.

Se tu vens ferido
chega pra dentro
sangue do meu peito jorrando
serve de alimento..."

Continue lendo o texto por aqui.

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