1 de out de 2013

SEMENTE QUE FRUTIFICA

Foto: Veva na aldeia Tapirapé, Projeto Pedalando com Índios

No próximo dia 21 de outubro, das 17 às 18h30, no auditório do CTCH (1º andar do bloco B), vamos ter mais uma sessão do Fórum Inter-Religioso da UNICAP, em torno do tema "Religiosidades e Causa Indígena". Com a presença de Francisco Bispo, Saulo Gomes e Edson Silva, os companheiros do Conselho Indigenista Missionário vão discutir a mudança do conceito religioso de missão: ao invés de converter o mundo e implantar a minha Igreja, ajudar na disponibilização das mensagens de todas as tradições espirituais, para quem delas necessite em seu processo de educação (e transcendência) humana e humanizante, favorecendo assim a compreensão e a paz entre os povos. Pelo diálogo de tradições de fé que se segue, então, o outro é que decide, se for o caso, o que precisa mudar na sua religiosidade, bem como na sua ciência e arte, na sua economia e política - e isso vale para todos os envolvidos!

No caso cristão, essa evangelização inculturada já vem sendo ensaiada e nesses dias lembramos de um testemunho marcante dessa nova história da religião em nossas terras. Morreu na semana passada, na tarde de 24 de setembro, no município de Confresa, Mato Grosso, com 90 anos, a Irmã Genoveva. Há 60 anos vivendo a missão junto ao povo Tapirapé, a missionária não converteu ninguém, mas ajudou a salvar o povo com a sua comunidade de Irmãzinhas: eram 59 índios quando elas chegaram e hoje são quase 1.000. Genoveva plantou roças e se fez parteira daquela gente, seguindo o exemplo do inspirador das Irmâzinhas, Charles de Foucauld, que no início do século XX foi viver e morrer com os muçulmanos no deserto da Algéria - não pra anunciar mas para conviver com eles, acolher e servir à sua cultura e religião.

Três Irmãzinhas chegaram ao Brasil no dia 24 de junho de 1952, com o objetivo de morar junto com os Tapirapé, numa casa como a dos indígenas, passando a ter a mesma alimentação de mandioca e o seu mesmo estilo de vida. “Ir aos esquecidos, aos desprezados, pelos quais ninguém se interessa”, são as palavras de Madalena, fundadora da Fraternidade. As Irmãs Genoveva, Clara e Denise, quando chegaram à aldeia, encontraram um grupo de sobreviventes. Hoje, em sua maioria crianças e jovens, vivem nas aldeias Majtyritãwa, Tapiitãwa, Wiriaotãwa, Akara´ytãwa e Xapi´ikeatãwa, na área indígena Urubu Branco, próxima da cidade de Confresa.

O respeito às crenças, ao estilo de vida e aos costumes dos Tapirapé foi o que fez das Irmãzinhas as principais aliadas desse povo durante todos esses anos. As lutas foram muitas e a determinação dessas mulheres ainda maior. “Queríamos viver no meio deles o amor de Deus que não deseja outra coisa senão que vivam e cresçam como Tapirapé”, afirmava a Irmãzinha Genoveva. Logo na chegada, deram atenção especial à saúde, pois os indígenas estavam muito expostos ao contágio de doenças levadas pelos não-índios. Os Tapirapé, que pareciam estar próximos da extinção, conseguiram se recompor.

O quase extermínio dos Tapirapé se deu a partir de 1909, quando a população de aproximadamente 2000 índios foi exposta às doenças trazidas pelos não-índios. Epidemias de gripe, varíola e febre amarela acabaram com duas aldeias. Outro agravante da diminuição e dispersão dos Tapirapé foram as disputas existentes com os Kayapó, que viviam na mesma região. Em 1935, já estavam reduzidos a 130 pessoas e, em 1947, estavam com apenas 59. Nesse ano ocorreu o grande ataque Kayapó: aproveitando a ausência dos homens que haviam saído para a caça, a aldeia Tampiitãwa foi praticamente destruída e várias mulheres e meninas raptadas. Com a chegada das Irmãzinhas, em 1952, a situação começou a ser controlada, elas conseguiram namoradas karajá para os índios, eles foram recuperando a estima e refazendo as famílias.

Genoveva, ou simplesmente Veva, nunca mais saiu de perto dos Tapirapé. Veva nasceu no dia 19 de agosto de 1923, em Valfraicourt, um lugarejo da França. De aparência frágil, cabelos brancos, há muitos anos acordava todos os dias antes do sol para cuidar da pequena roça que cultivava atrás das casas de taipa da aldeia Urubu Branco. O respeito que ela conseguiu atrair para a cultura e o processo histórico do povo fez com que os Tapirapé se salvassem e se multiplicassem, tornando-se um povo alegre e seguro. Atualmente, Veva morava numa casa simples, como as outras dos indígenas, em companhia das colegas Odila e Elizabette.

Os índios fizeram questão de sepultá-la segundo seus costumes (veja vídeo aqui), como se mais uma Apyãwa tivesse morrido. Os cantos fúnebres, ritmados com os passos, se prolongaram por muito tempo, durante a noite e o dia seguinte. Muitas lamentações e choros se ouviam. A cova foi aberta com todo o cuidado, acompanhado de cânticos rituais. A uma altura de uns 40 centímetro do chão foram colocadas duas travessas, uma em cada ponta da cova. Nestas travessas foi amarrada a rede que ficou na posição de uma rede estendida com quem está dormindo. Por sobre as travessas foram colocadas tábuas. Por sobre as tábuas é que foi colocada a terra. Toda a terra colocada foi peneirada pelas mulheres, como é a tradição. No dia seguinte essa terra foi molhada e moldada de tal forma que fica firme e espessa como a de chão batido. Na rede em que todos os dias dormia, Genoveva continua o sono eterno entre aqueles que escolheu para viver um sonho.

(Com textos e informações do CIMI/Paulo Suess).

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