20 de set de 2013

PELA BIBLIOTECA DO DOM

A Revista Aurora, publicação de cultura do Diário de Pernambuco, neste domingo (22/09), traz a matéria "Uma incursão pela biblioteca de Dom Helder", que reproduzimos aqui para o nosso orgulho e como homenagem a Lucy e ao seu "objeto/sujeito" de estudo. A reportagem traz texto de Jailson da Paz e um álbum fotográfico de Maria Eduarda Bione, e trata da dissertação de Mestrado em Ciências da Religião pela UNICAP da historiadora Lucy Pina Neta. A pesquisadora (na foto ao lado, também apresentada na matéria), que já está se preparando para o doutorado, traçou um perfil do religioso a partir de seus livros, muitos deles anotados e grifados pelo antigo bispo do Recife. Anime-se com essa incursão e faça também uma visita do Memorial Dom Helder, onde está essa biblioteca e muito mais material para quem deseja conhecer e se envolver com um cristianismo despojado e servidor - mas estudioso e dialogal...

"Grifava trechos, escrevia às margens das páginas, quer fosse para análises pessoais ou para debates com amigos-leitores. Assim lia dom Helder Camara, ex-arcebispo de Olinda e Recife: deixando rastros. É o que revela a historiadora Lucy Pena, na dissertação Helder Pessoa Camara: Elementos de seu perfil intelectual a partir de suas bibliotecas, orientada pelo professor Luiz Carlos Luz Marques, do mestrado em Ciência da Religião, da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Entre os diálogos recuperados pela pesquisadora estão as leituras conjuntas de algumas obras, à distância, entre dom Helder e a literata Virgínia Cortês de Lacerda. Os dois se conheceram no Rio de Janeiro, cidade onde o sacerdote residiu entre 1936 e 1964. À literata, explica Lucy, deve-se o começo da mudança da formação intelectual do padre. Antes, ele era um leitor solitário e dedicado à burocracia educacional.

A recomposição dos diálogos entre os dois parte de publicações que integram as coleções das bibliotecas de dom Helder. Ele teve três. Da primeira, montada em Fortaleza (Ceará), onde nasceu, quase nada sobrou. Poucos exemplares dessa época foram recuperados, e o que se resgatou foi misturado à biblioteca estruturada no Rio de Janeiro. É em obras da coleção formada no Rio que se elucida o pensamento de ambos. Lucy Pina saca algumas conversas manuscritas de dom Helder e Virgínia de um exemplar de O Diário intimo de uma adolescente, escrito pelo ensaísta e psicólogo argentino Aníbal Ponce. Na época, os dois brasileiros haviam trabalhado juntos na Faculdade de Letras das Irmãs Ursulinas, experiência que os fazia ver com ressalvas as análises de alguns pensadores clássicos.

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, cai na teia das ressalvas, quando Helder e Virgínia avaliam a afirmação de Ponce de que o diário da pintora russa María Bashkirtseff seria falso. E que a carta de Freud, que prefacia o livro, representa a prova. Diante disso, dom Helder questiona na margem inferior do livro: “Possível, Freud?”. Virgínia responde: “Acho possível (juízo temerário)”. Ao que ele rebate: “Possível é. Mas não acha provável”. A conversa continua, tendo dom Helder, em um dos pontos, dito que Freud pareceu ser sincero, o que a literata retruca sem piedade: “Pareceu-me um maníaco”. Por fim, o diálogo, que deve ter durado dias para ser escrito, no vaivém do livro, termina com a observação do sacerdote de que “mania e sinceridade são dados compatíveis”. Detalhe: os dois tinham o diário de María e planejaram lê-lo para confrontar com Ponce. Queriam a prova dos nove.

As conversas manuscritas entre dom Helder e Virgínia dão tom da importância da literata para o amadurecimento intelectual do amigo. Ela sugere, numa das páginas do livro de Ponce, a leitura dos clássicos Ilíada e Odisseia. “Virgínia era de conhecimento excepcional. Lia esses clássicos no original. Em grego”, revela Lucy. Dominava bem a língua de Sófocles e Eurípides. Mas os dois clássicos de Homero, Helder e Virgínia leram em francês. O Diário intimo de uma adolescente, de Ponce, foi lido em espanhol.

O estudo conjunto dos dois era intenso. Dava-se nos livros e na troca constante de correspondências entre 1944 e 1952, quando Virgínia adotou o pseudônimo de Caecilia. Dom Helder, que optou por ser Padre Albertus nas cartas, enxergava uma inteligência privilegiada na companheira de estudo. Em determinados diálogos, há a impressão de divergências entre os dois, mas prevalecia a procura pelo amadurecimento mútuo. O sacerdote contribuía com o espiritual, fazendo Virgínia, como ele afirma, retornar à casa do Pai (Deus). Ela, por sua vez, levava-o a mundos diferentes dos até então conhecidos por dom Helder, centrado na área do ensino. “O que ele escreveu sobre ela, e o que juntos escreveram dão pistas de que ela, provavelmente, foi uma das maiores referências intelectuais com quem ele teve uma relação tão próxima”, salienta Lucy. Virgínia faleceu em 1959.

Com a morte da amiga, dom Helder entra em uma nova fase. Mergulha nas leituras sobre a história da igreja, ecumenismo e práticas religiosas influenciadas pelo anúncio, feito pelo papa João XXIII, da convocação do Concílio Vaticano II (1962-1965). A biblioteca do Rio de Janeiro se amplia em número de volumes. Quando ele chega ao Recife, em abril de 1964, uma nova começa a ser montada, somando aproximadamente 1,2 mil livros até 1985, ano em que dom Helder repassa o comando da Arquidiocese de Olinda e Recife para dom José Cardoso Sobrinho. Desses 1,2 mil livros, detalha a dissertação, mais de 200 possuem algum tipo de marcação ou anotação manuscrita por dom Helder. A biblioteca recifense tinha, em 1999, ano da morte do arcebispo, mais de dois mil livros publicados em cinco idiomas: português, francês, inglês, espanhol e italiano.

As obras deixadas na biblioteca do Recife ajudam a entender o amadurecimento intelectual do arcebispo. Como leitor, dom Helder ampliou o leque de questões estudadas, conectadas à visibilidade que ele ganhou a partir do Vaticano II e na luta pelos direitos humanos, o que lhe rendeu centenas de convites para palestras e seminários. No concílio, o arcebispo se destacou pela capacidade de articulação. E articular exigia poder de organizar. Isso dom Helder fazia bem ao adotar um esquema geralmente com a mesma estrutura, incluindo justificativa pela escolha do livro, comentário sobre o autor e a circunstância em que fez a leitura — as expressões mais comuns, pontua Lucy, são “nuns minutos vagos” ou “durante a vigília”. Tais frases apontam para disciplina do arcebispo, um homem que aproveitava horas das madrugadas para ler, refletir e escrever.

Em alguns desses momentos, dom Helder comentou Diálogos com Paulo VI, livro de memórias do pontífice. A leitura, em 1969, coincide com um dos momentos mais difíceis da vida do arcebispo, então perseguido por integrantes do regime militar, que metralharam duas vezes sua casa, no Derby, e sofrendo a perda do auxiliar para assuntos da juventude, padre Henrique Pereira Neto, encontrado morto com sinais de tortura. O objetivo era silenciar o arcebispo. Ele compreendia a mensagem, tanto que, em uma das páginas da obra escrita por Jean Guitton, destaca que “na arte dos sons, uma das notas é o silêncio”. O registro o leva, segundo a pesquisadora, a escrever a meditação De que não é capaz o silêncio:

“De que não és capaz, silêncio?
Que sentimento não consegues traduzir?
E com te fazes entender com muito menos risco de distorções que a palavra, tua irmã…
Quando mais me emocionas
É quando silencias de todo,
Silêncio, chegada a tua vez de adorar o senhor e escutar!…”

Na época, dom Helder também sabia do intuito de membros da Cúria Romana de reduzir o seu número de viagens e conferências internacionais. As exigências para limitá-lo ao Brasil eram sutis, com argumentos de cuidar das questões da igreja local. As páginas do livro Diálogos com Paulo VI, papa de quem se tornou amigo antes mesmo de ele assumir o pontificado, foram usadas para desabafos contra a imposição do silêncio. Daí, escrevendo verticalmente na página 25 do livro, o arcebispo reclama que “não há desvio senão nas inteligências magnânimas e generosas. Dizendo de outro modo, não se corrige senão os vivos e, quando se corrigem, admiram-se. E diria mesmo que às vezes se invejam.” A imposição da Igreja veio à tona com a denúncia do jornalista francês José de Broucker, na época. Agora, a análise cuidadosa dos manuscritos deixados em livros por dom Helder ajuda a aprofundar a compreensão não apenas da sua história, mas da Igreja e do Brasil."

5 comentários:

  1. agora fiquei com vontade de ler a dissertação: onde posso encontrar?

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    1. Olá, todas as dissertações do nosso Mestrado ficam disponíveis na internet, na medida em que os textos definitivos vão sendo depositados: http://www.unicap.br/tede/tde_busca/resultado-tdes-prog.php?ver=5&programa=5&ano_inicio=&mes_inicio=&mes_fim=&ano_fim=&grau=Todos

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  2. Fico feliz por ver as pessoas que fazem esse Mestrado em Ciências da Religião progredindo como profissionais, em suas igrejas e na sociedade. O Recife está de parabéns por um curso que abre as religiões para o diálogo entre elas e com as ciências. Jorge.

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  3. Feliz por Lucy, feliz por ter sido amigo de turma (mestrado da UNICAP,7ªturma)...É muito bom ver o resultado do seu esforço. Parabéns ao colegiado do mestrado da UNICAP, pois, tudo isso só é possível por causa de vcs. Valeu Lucy, valeu Gil...

    José Roberto

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  4. Muito obrigada pelos comentários! Não teria conseguido sem meus professores, meu orientador e co-orientador, meus amigos e amigas e sem a inestimável ajuda e compreensão do Instituto Dom Helder Camara

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