17 de ago de 2013

PESQUISADOR ANALISA FUTURO DAS RELIGIÕES

Por Daniel França, do Boletim UNICAP.

O futuro das religiões no Brasil será o tema principal do IV Congresso da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Tecnologia e Ciências da Religião (Anptecre), que será realizado entre os próximos dias 4 e 6 de setembro na Unicap. O Prof. Dr. da Universidade Federal de Juiz de Fora, Marcelo Camurça, vai abordar o assunto no segundo dia do evento. Membro do comitê avaliador da CAPES para os Programas de Pós-graduação em Teologia e Ciência da Religião (2004-2007); autor do livro Ciências Sociais e Ciências da Religião: polêmicas e interlocuções, publicado pela editora Paulinas em 2008, ele concedeu uma entrevista especial ao Boletim Unicap na qual analisa a relação entre política x religião e o panorama brasileiro da pesquisa nesta área do conhecimento.

Boletim Unicap – Nas últimas décadas, as denominações neopentecostais tiveram um avanço notório no Brasil diante do catolicismo. O senhor acha que a Igreja Católica poderá reverter tal panorama?

Marcelo Camurça – De fato, os números do último Censo IBGE de 2010 confirmaram a queda contínua do Catolicismo para 64,6% da população ao lado do avanço dos evangélicos para 22,2%. Pesquisadores apontaram que a estrutura pesada da paróquia católica não é competitiva diante das redes ágeis das míriades de igrejas evangélicas que surgem nos becos, ruelas das periferias e zonas de deslocamento das populações migrantes do país. Por outro lado as estratégias de comunicação das igrejas evangélicas que exercem um mimetismo com os estilos modernos e populares da vida cotidiana: bandas e cantores gospel, atletas de Cristo,marketing e consumo, tem logrado bastante êxito.

O Catolicismo passou recentemente a investir neste campo, com redes televisivas, padres-cantores, comunidades de vida para gêneros diferentes de participação, sobretudo entre os grupos carismáticos. Acrescido isto a uma atitude mais pro-ativa como parece estar se configurando neste novo pontificado do Papa Francisco, voltando-se para juventude, como foi testemunho eloquente estas últimas Jornadas Mundiais da Juventude no Rio de Janeiro, voltando-se para as urgências sociais e enfrentando com determinação a crise moral (corrupção e pedofilia) que foi gerada nas estruturas burocráticas da Igreja, parece ser um caminho de reversão desta crise.

No entanto, só o tempo dirá sobre a capacidade da Igreja Católica reverter o quadro e seguir tendo o papel preeminente que sempre exerceu na cultura e sociedade do “maior país católico do mundo”. É fato que a diversidade religiosa é uma tendência que se impõe no mundo moderno, acabando com as hegemonias e monopólios religiosos em países e culturas, mas isso não significa que as ex-religiões hegemônicas tenham que viver um ocaso e perder totalmente sua influência social, cultural e espiritual.

B.U – O Brasil é um estado laico, mas os segmentos religiosos, sobretudo os neopentecostais, estão cada vez mais elegendo parlamentares com bases nessas igrejas. Como o senhor avalia a influência política deste segmento no cenário nacional?

M.C – O problema é mais profundo que a influência evangélica no parlamento brasileiro e diz respeito ao papel que a religião, grupos religiosos devem exercer no espaço publico, democrático e republicano no país. De fato, não apenas evangélicos ou pentecostais, mas também católicos querem ter mais voz ativa nas questões políticas, jurídicas, científicas e de saúde pública no Brasil. As polêmicas que envolveram posições sobre as pesquisas científicas com células tronco no julgamento do STF, direitos jurídicos de casais homosexuais, permissão legal para realização do aborto vem estabelecendo clivagens na sociedade acerca do lugar da religião no espaço público. Estariam católicos e evangélicos ameaçando nossa laicidade e clamando por um Estado confessional? Ou estariam exercendo seu direito dentro da “liberdade religiosa” e de “expressão” garantida constitucionalmente?

A questão é complexa porque as religiões, à sua maneira, também reinvindicam-se respeitando os princípios democráticos/republicanos, porém gostariam de influir mais nas decisões estatais a partir dos seus valores morais, ainda porque julgam que o cidadão é também um fiel e partilha de suas concepções religiosas. Para a inteligentsia brasileira, a questão é medir quais os limites do discurso religioso dentro do espaço do “bem comum” para que ele não caia no “fundamentalismo”, lembrando que ele é apenas um dos discursos entre outros que compõem a sociedade. Haveria então, que se converter o discurso (moral/espiritual) religioso no discurso racional-legal universal do debate público? Ou não há como fugir que ele entre neste debate com suas características próprias? Por outro lado será a sociedade brasileira suficientemente secularizada no sentido que não aceita os valores e crenças religiosas na estruturação de sua dinâmica? Bom, este é um debate que vem polarizando os cientistas sociais e políticos, os cientistas da religião e todos os que se ocupam do exame do papel da religião na esfera pública.

B.U – O que podemos esperar do futuro das religiões no Brasil?

M.C – Bom, as religiões no Brasil são historicamente parte do nosso ethos e identidade. A partir dos seus símbolos e crenças, os brasileiros vieram ao longo dos séculos construindo as dinâmicas culturais e sociais que os estruturaram. Elas também souberam acompanhar e se adaptar consideravelmente – apesar das dificuldades mais em algumas que em outras – às transformações que a sociedade brasileira passou: modernização, secularização, mercado, individualização, mudança de valores, mudanças tecnológicas, etc. Podemos hoje dizer que as relações estabelecidas dentro do “campo religioso brasileiro” estão em equivalência com outros campos da sociedade brasileira.

Mesmo os conflitos que produzem entre si mesmas e com outros espaços nunca levaram às “guerras religiosas” como as que assistimos em outras sociedades, mas são reveladores dos interesses, posições, ideologias e imaginários pelos quais podemos compreender nossa formação social.Desta maneira, não há dúvida quanto a atualidade e pregnância social das religiões no Brasil, tanto no estabelecimento de consensos quanto de controvérsias, o que prova sua marcante relevância no tecido social e cultural do país. Penso, que não há como entender profundamente outros domínios da realidade do país: política, economia, moral, artes, etc. sem cruzá-los com o aspecto religioso.

B.U – Enquanto ciência, as religiões são um campo do conhecimento relativamente recente. Qual o panorama da pesquisa acadêmica nesta área no Brasil?

M.C – Do ponto de vista institucional, podemos computar avanços consideráveis e um crescente reconhecimento da nossa jovem área por parte de instituições de fomento à pesquisa e à pós-graduação como o CNPQ e a CAPES. No que tange a pós-graduação já somamos dez cursos, quatro com Mestrado e Doutorado (UMESP, UFJF, PUC-SP e PUC-GO) e seis com Mestrado (UNICAP, PUC-MG, UPM, UFPB, FUV e UEPA), afora os oito cursos da Teologia que integram conosco várias instâncias acadêmicas.

Junto com a Teologia estamos na iminência de obter nossa autonomia enquanto área de avaliação de pós-graduação na CAPES dentro da grande área das Ciências Humanas. No que tange a Tabela das Áreas de Conhecimento do CNPQ, viemos de conseguir que nossas áreas disciplinares passassem a figurar na sua relação com fisionomia própria dentro dos seguintes ítens: Epistemologia das Ciências da Religião, Ciência da Religião Aplicada, Ciências Empíricas da Religião e Ciências da Linguagem Religiosa.

No âmbito dos cursos de graduação em Ciências da Religião, vários de tipo Licenciatura já se encontram em funcionamento, como os da FURB (Blumenau), Univille (Joinville), Unochapecó (Chapecó), Unisul (Tubarão), UNC (Canoinhas), Unec (Caratinga) e a Faculdade São José (São José/SC). O mesmo ocorre em instituições de ensino públicas federais e estaduais, como a UFPB, UERN, UEPA, UEMA, Universidade Estadual do Vale do Acaraú (Uva) em Sobral/Ceará e na Universidade Estadual de Montes Claros/MG (Unimontes).

Por fim há que se registrar a criação, já há seis anos de nossa entidade maior no nível da pós-Graduação, a Anptecre, que também partilhamos com a Teologia. Esta entidade está consolidada e através do seu conselho diretor e de suas comissões vem articulando nossos cursos de pós-graduação para ações e decisões conjuntas que tem redundado em todas estas conquistas. Dentre elas, posso citar o nosso IV Congresso Nacional. Ele vai reunir dezenas de pesquisadores para apresentação de trabalhos e pesquisas acadêmicas em conferências, mesas redondas, GTs, minicursos etc. Tudo isto, demonstra, sem sombra de dúvida, uma vitalidade acadêmica na nossa área!

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