11 de jul de 2013

A BOCA DE DEUS


Fotos dos Protestos no Recife (Junho 2013, by Gilbraz)

No próximo semestre o Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP terá uma disciplina nova, que será ministrada pelo Prof. Dr. Cláudio Vianney Malzoni (formado pela École Biblique et Archéologique Française de Jerusalém), que vem atender aos interessados em se aproximar da tradição judaico-cristã pelo viés literário, em estudar os aspectos literários da Bíblia e a influência da Bíblia na literatura. O curso acontecerá nas sextas à tarde, com o título, justamente, de "Hermenêutica, Bíblia e Literatura". Como indício de que a temática (do texto religioso como construtor de civilização) desperta interesse público, vejam que Continente, a revista de cultura de Pernambuco, traz neste mês de julho um artigo do médico e escritor (autor do Baile do Menino DeusRonaldo Correia de Brito, que é intitulado "A boca de Deus" e parte de obra clássica na área para oferecer um aperitivo desse campo de estudos das interfaces de escrituras sagradas e literaturas. Curtam o artigo e se matriculem logo no curso (de 16 a 19 de julho teremos inscrições para alunos especiais nas disciplinas do Mestrado)...


Qual é o papel da arte literária na conformação da narrativa bíblica? Um papel crucial, garante o professor de literatura hebraica e comparada da Universidade da Califórnia em Berkeley, Robert Alter (A arte da narrativa bíblica, Companhia das Letras, 2007). Um papel finamente modulado a cada momento, quase sempre determinante na escolha exata de palavras e detalhes, no ritmo da narração, nos pequenos movimentos dos diálogos e em toda uma teia de relações que se ramificam pelo texto.

Alter propõe a leitura da Bíblia como um livro de narrativas de forte poder estético e imaginativo – obra de vários autores escrita em tempos diferentes –, sem reduzi-la a um amontoado de textos da tradição oral, compilados ao longo da história do povo hebreu. Segundo ele, a poesia, o uso exato dos verbos, as dramatizações e os diálogos precisos resultam claramente não de um mecanismo automático de intercalação de materiais tradicionais, mas da cuidadosa combinação de fontes à mão de um escritor brilhante.

Ao se conceder a um poeta ou escritor a autoria de cada um dos livros da Bíblia hebraica, mesmo reconhecendo-se as inúmeras alterações sofridas ao longo dos anos, surge a questão sobre o papel de Deus nessa empresa. Em todas as ortodoxias judaico-cristãs, acreditou-se num livro de inspiração divina, ou até mesmo soprado do alto e impresso a fogo como as tábuas dos mandamentos. Fazendo-se a leitura da Bíblia pelo caminho da arte narrativa, poetas e escritores adquirem status de videntes e profetas, um papel que quase sempre lhes foi atribuído ao longo da história.

Segundo Alter, o laconismo hermético da narrativa bíblica é uma expressão profunda de arte e não de primitivismo. Seriam as profecias sobre a queda de Israel, o advento do Messias e o cativeiro da Babilônia especulações de poetas? O dom artístico se confundiria com o dom divinatório? Esses homens que se autodenominavam “a boca de Deus” fizeram profecias obscuras e cheias de mistérios, expostas através de símbolos audazes e alta poesia, que resultaram na mais potente e magnífica arte.

Talvez o sofrimento e as humilhações tenham moldado poetas videntes como Isaías, Ezequiel, Daniel e Jeremias. Guardiões da palavra, eles interpretavam os castigos infligidos ao povo hebreu como consequência do pecado por terem se afastado de Deus e de suas leis. O exílio, a guerra, a ruína e as lembranças de um passado glorioso são o tema dos seus cantos, quase sempre lamentações e exortações...

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