23 de jun de 2013

OS ESCOTEIROS ESTÃO DISPENSANDO DEUS?!




Participei por uns treze anos do Movimento Escoteiro, tendo sido decisiva pra formação de algum caráter que eu tenha aquela convivência com o Chefe Leandro e com os muitos companheiros do 2º Grupo de Pernambuco, lá no alto das serras de Taquaritinga. O escotismo, fundado pelo inglês Baden-Powell, em 1907, é hoje um movimento de educação voluntário e extra-escolar espalhado pelo mundo, que propõe o desenvolvimento do jovem por meio de um sistema de valores que prioriza a honra e o altruísmo, baseado na Promessa e na Lei dos escoteiros, e através da prática do trabalho em equipe e da vida ao ar livre, incluindo jogos e desafios progressivos.

Há duas grandes articulações do movimento, a Organização Mundial do Movimento Escoteiro e a Associação Mundial de Bandeirantes: elas remontam ao tempo em que os grupos segregavam meninos e meninas, embora atualmente todos pratiquem a educação mista. No Brasil, como resquício dessa modelização, os escoteiros e bandeirantes, como se chamavam as primeiras versões femininas da agremiação, abrigam-se na União dos Escoteiros do Brasil e na Federação das Bandeirantes do Brasil - a diferença agora, como me disse um coronel do exército uma vez, é que "as meninas se juntaram aos padres de passeata e passaram a falar de educação libertadora, dessas besteiras". 

Na verdade, fugindo de certa instrumentalização do movimento pela Direita e pelos militares do Golpe de 64, também a UEB tem buscado uma fundamentação mais pedagógica e emancipadora da sua metodologia - o que gerou inclusive dissidências institucionais tradicionalistas. Prova desse novo tempo é o vídeo abaixo, produzido no XIX Congresso Escoteiro Nacional, ocorrido aqui no Recife em fins de abril passado, com mais de 300 representantes das regiões do país (a UEB congrega quase 80 mil membros), onde se fez o lançamento do novo vestuário escoteiro, como parte de uma estratégia de renovação da imagem do movimento. Ele se quer uma rede de clubes educativos alegres, relacionados ao serviço social e à defesa da ecologia, em aliança com Organizações Não-Governamentais da área.

Pois bem, além dessa pecha de militarização, o movimento escoteiro também já sofreu acusações pelo mundo de não aceitar homossexuais (ainda que tenha entrado em crise em alguns lugares pela acusação inversa, de abrigar homossexuais e até pedófilos), ou então de representar o liberalismo político europeu (e por isso foi impedido e substituído por versões ideológicas do escotismo, em países fascistas e comunistas). Outra acusação feita ao movimento é que ele rejeita ateus em suas fileiras (mesmo que certas religiões o achem muito aberto em termos de espiritualidade e criem suas versões eclesiais e fechadas do escotismo, como os Desbravadores). 

Quero começar a aprofundar aqui a rejeição ao ateísmo nesse movimento de educação juvenil, diante de um fato novo que praticamente inverte a questão. A política religiosa dos escoteiros normalmente defende que todos os membros do Movimento são incentivados a fazer todos os esforços para progredir na compreensão e vivência da Promessa de fazer o melhor para cumprir o seu dever para com Deus, pertencer a algum grupo religioso e realizar na prática diária o que ele professa. O 10º artigo da Lei, nessa linha, diz que "O escoteiro é limpo de corpo e alma". A Organização Mundial do Movimento Escoteiro define como Princípios do Escotismo: dever para com Deus (crença e vivência de uma fé, independentemente de qual seja); dever para com os outros (participação na sociedade, boa ação, serviço ao próximo); e dever para consigo próprio (crescimento saudável e auto desenvolvimento).

Entre nós, então, até agora, pelo menos, o movimento está visceralmente relacionado à religiosidade, os grupos aceitam capelania de todas as crenças e, no caso católico tupiniquim, por exemplo, até o Padre Zezinho já lançou disco de músicas escoteiras e tanto escoteiros (veja aqui) quanto bandeirantes (veja aqui) vão acampar e participar agora da Jornada Mundial da Juventude com o Papa Francisco no Rio.

Em documento oficial dos Escoteiros do Brasil (veja aqui a ficha técnica da UEB) sobre "Escotismo e Crença em Deus", afirma-se que "não há nenhuma dúvida de que a crença em Deus é parte essencial do Movimento Escoteiro, admitindo-se, porém, que esta concepção seja totalmente pessoal, de acordo com as interpretações e forma de relacionamento de cada um". Segue-se, assim, uma posição da OMME, de compreensão ampla da adesão à religiosidade como "aderência a princípios espirituais, lealdade à religião que os expressa e a aceitação dos deveres que dela decorrem", de forma a abranger também as religiões não monoteístas e as religiões que não reconhecem Deus na concepção judaica, cristã ou islâmica.

Porém, no Reino Unido, justamente onde nasceu o movimento, a The Scout Association lançou, em dezembro de 2012, uma consulta (veja no vídeo acima, em inglês) sobre o acolhimento de ateus como membros - o que incluiria ao menos uma versão alternativa da Lei e da Promessa dos escoteiros, para acomodar os jovens e adultos ou formadores que não têm fé. Argumenta-se que os regimentos e protocolos originais do escotismo já foram modificados para inclusão das mulheres e também de portadores de necessidades especiais, e que poderiam se atualizar agora em respeito a uma nova consciência das atitudes espirituais da humanidade. Enquanto a consulta transcorre, as Guias ou Escoteiras da Grã-Bretanha (parte do Reino Unido) avançaram e, segundo informa o Vatican Insider, desde o último dia 21 de junho de 2013 elas cancelaram inteiramente a referência a Deus na sua Promessa, o compromisso que pronunciam publicamente quando entram em um grupo.

Tal decisão tem provocado discussões mesmo por lá, com toda a secularização europeia, visto que a referência a Deus aparece no texto original da Promessa escrita por Baden Powell e onde inclusive São Jorge até era (ainda é?!) considerado padroeiro universal dos escoteiros. A partir de agora, uma menina que leva a flor de lis (símbolo do escotismo) na Grã-Bretanha (onde há 540 mil membros no movimento!) prometerá fazer o melhor para "ser sincera comigo mesma e fazer crescer minhas convicções, servir à rainha e à minha comunidade, ajudar aos demais e observar a lei das Guias". A proposta, então, é de ajudar no cultivo de convicções pessoais e da própria visão ética, com suporte ou não de uma religião formalmente definida. E ao que tudo indica, a associação dos meninos escoteiros caminha para a mesma decisão, levando em conta os rumos da bendita consulta. 

Fica lançada a pergunta: os escoteiros abraçaram o "modernismo liberal" e estão começando a dispensar Deus ou estão traduzindo a relação com o divino em termos modernos? Trata-se de um afastamento dos princípios ou de uma recriação dos fundamentos, em consonância com o espírito do nosso tempo?! Talvez a expertise dos cientistas da religião no campo da hermenêutica e da compreensão do fenômeno religioso possa ajudar essa molecada a encontrar novos rumos para sua educação - mormente num país onde os jovens são o presente e, em grande parte, vagam perplexos pelas ruas!

Sempre Alerta para Servir!
Gilbraz.



Saiba mais no blog:
Caminhos da espiritualidade
Espiritualidade militante
Espiritualidade além das religiões
Inteligência espiritual

8 comentários:

  1. Meu São Jorge! Até os escoteiros tão se afastando da religião! Pra onde vamos?

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  2. mas o mundo não vai se acabar porque eles não falam mais em deuses... o que importa é se eles fazem coisas divinas com suas atividades, né não?
    Manu.

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  3. Os Escoteiros Florestais continuam tendo Deus na promessa e Jesus Cristo como patrono!
    Sempre Alerta!!!!!!
    Luiz Fidelis

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  4. Gilbraz, lembro com saudades dos nossos acampamentos e da nossa camaradagem... Uma vez escoteiro, sempre escoteiro! Acho que as escolas deveriam promover atividades escoteiras ou patrocinar e abrigar grupos de escoteiros, de modo que mais meninas e meninos pudessem desfrutar do ar livre e aprendessem a conviver em grupo, a discutir e vivenciar regras de ética e etiqueta! Quanto a essa questão da referência a Deus, acho que é um problema mais da Europa, porque no Brasil mesmo quem se declara sem religião (que é um grupo crescente, segundo o Censo e pela observação de jovens) continua porém com alguma devoção espiritual, alguma abertura pro sagrado. Talvez fosse suficiente uma mudança de nome, porque falar de deus no singular não corresponde à pluralidade espiritual de hoje... Alerta! Silvestre.

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  5. Em primeiro lugar nós Ateus NÃO QUEREMOS tirar deus/deuses do escotismo, queremos apenas ser aceitos e respeitados por quem somos assim como respeitamos os teístas no movimento escoteiro. Já que estamos nele há anos escondidos e com medo de ser expulsos.

    escoteiroateu.wordpress.com

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  6. Nada impede que um ATEU possa ingressar no M.E. Mas aí querer fazer a Promessa é bem diferente...

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  7. Importante o escotismo atentar-se à diversidade. Crer em Deus é uma opção, não uma obrigação. Cada um deve decidir as suas crenças. Mesmo estando na promessa escoteira, devemos fazer uma reflexão. Quando foi escrito existia um contexto da época. Hoje o mundo sofreu muitas mudanças, os princípios éticos defendidos pelo escotismo não serão modificados, caso um ateu adentre-se no movimento escoteiro e não pronuncie Deus em sua promessa, pois o escotismo não está estabelecido em dogmas religiosos, mas em princípios éticos, que, dentro do que a ética estabelece, ela se adequa às mudanças do ambiente. Neste momento é necessário que o movimento escoteiro reconheça que ser ateu não é ser diferente no que se refere à ética. Vamos dar oportunidade a todos de conhecerem este movimento maravilhoso que é o movimento escoteiro.

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  8. Que texto interessante! Lanço a seguinte reflexão. O movimento escoteiro permite a pluralidade religiosa pq entende ser este um processo de integração social. Uma família, como muitas, cujos pais seguem diferentes credos pode possivelmente ter crianças que ainda não escolheram sua religião. Eu mesmo o fiz aos 38 anos de idade, sendo ateu até então. Não seria a proibição de ateus uma motivação à intolerância religiosa? Ou somente filhos de casais que tem a mesma religião são bem vindos ao movimento? Ponto para as Bandeirantes, antes tarde do que nunca...

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