30 de mai de 2013

AS HISTÓRIAS DO DIABO




A história do Diabo (The History of the Devil) é um documentário dirigido por Greg Moodie e narrado por David Robb, dentro de uma série de história cultural. Foi produzido em 2007 pela SBS TV Australia e distribuído como material educativo. Nesses tempos em que o inferno está na moda (veja aqui), em que ficções e práticas de exorcismos povoam espetacularmente as nossas culturas em crise (basta ligar nos canais religiosos), faz bem aproveitar o bom roteiro do filme e pensar um pouco sobre esse personagem mitológico que supostamente possui as pessoas e as conduz ao submundo, e que ganhou até nome próprio na tradição judaico-cristã: Satanás.

Ele já aparece no Antigo Testamento como espírito (e, portanto, criação divina,) adversário ou acusador, que faz mal mas sempre a serviço de Deus, de quem se torna opositor nas reflexões intertestamentárias (1 Enoc, Jubileus, Testamento dos Doze Patriarcas e Vida de Adão). Aí, sob influência da angeologia persa e da mitologia grega, também com os nomes de Belial e Asasel, se diz que esse príncipe dos anjos e seus súditos teriam se negado a reverenciar Adão, criatura favorita de Deus, e por isso foram expulsos do paraíso, passando a tentar as pessoas com o mal e até a possuir os seus corpos, criando um "reinado" contra o de Javé. Satã agora personifica o mal, como um anti-Deus.

Diabos mitológicos (lembrem que "mito é a religião dos outros"!), mais ou menos semelhantes a Satanás, são encontrados na maioria das religiões, sobretudo no contexto do monoteísmo, onde geralmente tornam-se representantes (e explicações) do mal - que contraria o bem criado pelo Divino em seu jardim primordial. Nas religiões indígenas e em nosso Xangô, por exemplo, não há "o diabo", porque todos os espíritos ("daimones") da natureza são ambivalentes; no espiritismo, então, os diabos são na verdade espíritos que estão se aperfeiçoando - outras variações interpretativas em torno do mesmo mistério.

Mas no budismo, Mara é a encarnação da sede que provoca desgraça; no zoroastrismo, Arimã é o espírito do princípio, que optou pelo mal; no islamismo, que adotou concepções bíblicas, Satanás é antes de tudo o tentador (veja mais descrições do Diabo aqui e um resuminho da sua história por aqui). Todos temos consciência da presença misteriosa do mal na vida e no mundo, embora sua representação simbólica como um anjo ou espírito apartado e divisor, tomando teatralmente os corpos dos pecadores, corresponda a uma cosmovisão pré-moderna e pré-científica, em que se concebia objetivamente esferas sobrenaturais separadas, acima e abaixo do mundo, povoadas por espíritos - que nos envolveriam nas suas disputas cósmicas. Em ambientes de cultura rural, onde essa mentalidade sobrevive, os missionários de todos os estandartes ainda têm muito trabalho para libertar as pessoas com água benta - ou água ungida.

Representação personificada do mal, "Inimigo", entre nós, Satanás foi "ganhando os chifres" dos deuses dos outros em sua iconografia e se tornando historicamente explicação, pelas igrejas e pelos estados cristãos, para o aventado mal dos seus hereges e inimigos - por causa dele torturados e eliminados. Depois, porém, Satã foi se degradando folcloricamente a um diabinho travesso pela publicidade moderna. Ganhou relativo destaque na contracultura satanista e talvez esse revival de diabos extemporâneos que se apresentam agora nos cinemas e/ou igrejas carismático/pentecostais das periferias "pós-modernas" sirva mais para tentar esconder o "diabólico" verdadeiramente significativo. Por mais que as cenas sejam dramáticas, não passam de entretenimento induzido pelas sociedades do espetáculo, que mascaram a morte e disfarçam o mal que divide a gente em nossas ambiguidades comezinhas e sobretudo através das estruturas perversas e pessoas pervertidas (apesar de belas e até santificadas, que nem o Mefisto de Fausto!).

A suposta possessão por espíritos é um fenômeno ainda presente em muitos lugares, mesmo que hoje a medicina e a antropologia compreendam a ação dessas “entidades” como dramatização de um “transtorno dissociativo de identidade”, resultante de experiências psicológicas traumáticas. Claro que o mistério do mal está também presente nas doenças, das pessoas como da sociedade, nessas enfermidades estranhas e psicossomáticas mas também na desnutrição infantil que resulta da merenda subtraída às escolas. Um "exorcismo" salutar e salvífico agora deveria então unir, à oração da comunidade pelos que sofrem diminuição da consciência e toda sorte de "divisões", o cuidado envolvente de serviços de saúde e assistência social, a pastoral de fé e política e a ação das comissões de justiça e paz - que ajudam igualmente a afastar "o divisor", o "cão tinhoso" ou "coisa-ruim" - que não há (posto que é "ausência do bem"), mas está aí à espreita.

Gilbraz.

Para saber mais:
- A história do diabo, de Flusser;
- Historia del diablo, de Muchembled;
- Histoires du mal en Occident, de Faucheux;

5 comentários:

  1. mas então como é que vocês explicam o exorcismo que o papa acabou de fazer no Vaticano, heim? vejam aí as imagens: são inconfundíveis...
    http://youtu.be/3dCYcL2D3kU

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    1. Nos sanatórios existe muitos psiquiatras fazendo exorcismo também... E aí como você explica?

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  2. Ui, ui, Eu não posso nem comentar este post, porque falar ou escrever o nome do Bicho, pode atraí-lo...

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  3. Algumas crenças religiosas, usam a figura de um espírito maligno(satanás) para amedrontar e até mesmo "arrecadar" mais fiéis. Eu sinceramente não tenho uma opinião "formada" para esse assunto, mas observe: Vejo tantas pessoas usando os outros, passando por cima de tudo e de todos para conseguir o que querem; pessoas que vivem da morte dos outros, que promovem a pobreza e a miséria para terem seus bolsos cheios, que matam nações de sede para ter recursos naturais em seus países, que "criam" ou sustentam a ideia de doenças para vender remédios e manter o negócio dos laboratórios girando, que usam de falácia para invadir países e fazer um povo de escravo, que usa o nome de "deus" para matar e para justificar suas crueldades... Bom...para mim, isso é diabólico, isso é oposição a DEUS isso é não ser "humano". Isso é a "manifestação" do diabo...
    (Primavera Rosariense)

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  4. Os acontecimentos se precipitam de forma intensa e perfazem um cenário muito interessante. Muita gente comentou sobre a renúncia do Papa, e dias antes, sobre a entrevista do Malafaia com uma das melhores entrevistadoras da TV Brasileira, Marília Gabriela. Todo mundo dando pitaco em tudo. Jornalistas de economia comentaram sobre Bento XVI e psicólogos brandaram pela cassação do registro profissional em psicologia do líder evangélico conservador. Esse é um brado justo, muito justo. Alguns poucos comentaram sobre uma mulher, moradora de Vitória, capital do Espírito Santo. Esta afirmou em um jornal impresso: "o Diabo me levou para o Motel". Será que existe uma relação entre esses três assuntos mencionados? Talvez sim. Ou talvez não. Que se vá por partes, para não engasgar.
    As narrativas sobre o mundo, o homem e suas relações parecem estar em curto-circuito. Não todas, mas algumas. Quais? As narrativas que ou o encantam, ou o desencantam, de forma absoluta; as que o acantonam num conservadorismo de uma cor só, ou as que o deixam em estado fragmentariamente vermelho. E uma sucessão de opiniões que não acertam o alvo são proferidas. Há diversos conservadorismos em ação, e eles precisam ser entendidos em contextos e situações específicas...
    leia mais em
    http://arcanaestudosdereligiao.blogspot.com.br/2013/02/bento-xvi-malafaia-e-o-diabo.html?spref=fb

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