4 de abr de 2013

SÃO JORGE, DA CAPADÓCIA À UMBANDA



O Fórum Inter-Religioso da UNICAP é organizado desde 2007 pelo Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife. São encontros mensais de animadores das tradições espirituais da região, para conhecimento mútuo e exercício de tolerância cultural, para ensaios de uma veneração pluralista do sagrado. Depois de uma fase de re-conhecimento de quase trinta grupos religiosos mais presentes em Pernambuco, o Fórum começou a trabalhar questões transversais às tradições espirituais, como "Religiosidade e educação nas escolas", "Sacrifício e comparações religiosas", "Tempos pós-modernos, espaços pós-religiosos?!" e, neste semestre, estamos desenvolvendo uma série de encontros sobre "Devoções religiosas comparadas".

Na segunda 8 de abril, das 17 às 18h30, no auditório do CTCH (1º andar do bloco B da UNICAP), a série será aberta com a participação do Frei Tito Medeiros, que acabou de chegar de uma expedição à terra de São Jorge e vai conversar sobre a trajetória desse santo, da Capadócia turca à Umbanda brasileira: uma verdadeira novela transcultural! Lendário protetor dos cristãos perseguidos na Capadócia, São Jorge é hoje sincretizado com santos muçulmanos na Turquia e, no Brasil, com o orixá Ogum (e Oxóssi, na Bahia). É um santo muito popular entre nós, tanto nos meios católicos como nos afro-brasileiros.

Frei Tito, carmelita, doutor em antropologia pelo Museu Nacional - UFRJ e professor da UFPE, é sócio efetivo da Associação Brasileira de Antropologia. Participou de diferentes projetos de pesquisa na área de Patrimônio Material. É professor convidado da Universidade Urbaniana de Roma. Em 2011 foi eleito membro da Comissão Setorial de Patrimônio da Secretaria de Cultura/Fundarpe do Governo do Estado de Pernambuco.

Convidamos, então, para essa palestra e debate sobre São Jorge, com o Frei Tito, todos os interessados nos Estudos de Religião. E como dica, para quem deseja se preparar, pode-se ler por aqui o livro "Antropologia, religiões e valores cristãos" e por aqui o artigo "São Jorge é pop: análise comparativa de duas festas". Depois, para quem quiser saber mais, aventurar-se por outros tempos e espaços e aprofundar, através da história comparada, o desenvolvimento e os significados das religiões e do religioso, apontamos as seguintes leituras:


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2 comentários:

  1. Sabemos que a figura do dragão é um tema recorrente em várias culturas, com significados até opostos. Assm no Ocidente é negativo: representa o mal e o mundo ameaçador ds sombras. No Oriente é positivo: é símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade. Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), expressão de sua identidade cultural. Não raro os pobres entre nós dizem: “para me manter, tenho que matar um dragão por dia”, pois assim o exige a dureza da vida.
    Muitos antropólogos e psicólogos que trabalham sobre o tema dos arquétipos, como Carlos Gustavo Jung, afirmam que o dragão representa uma das figuras transcultuais mais ancestrais da história humana. É a percepção de que a nossa identidade profunda, o nosso eu, não nos é dado simplesmente pelo fato de sermos humanos. Ele tem que ser conquistado numa luta diuturna, marcada por ameaças e lutas.
    Esta situação é representada pelo dragão, nosso inimigo principal. Ele quer devorar o eu ou impedir que se liberte e faça o seu caminho de autonomia e de liberdade. Só assim seríamos plenamente humanos.
    Por isso, junto com o dragão sempre vem o cavaleiro São Jorge que com ele se confronta numa luta renhida. Qual é o signficado do dragão e de São Jorge? À luz dos estudiosos referidos acima, tanto um como o outro são partes de nossa realidade humana. Cada um de nós carrega um dragão e um São Jorge dentro de si.
    Isso é assim porque a nossa vida é sempre feita de luz e de sombras, do dia-bólico (aquilo que separa) e do sim-bólico (aquilo que une). Quem vai triunfar São Jorge ou o dragão? A luz ou a sombra? A nossa melhor parte ou a nossa parte pior? Ambas coexistem e sentimos a sua presença em cada momento: às vezes na forma e raiva ou de amor ou de violência ou de bondade e assim por diante.
    É aqui que entra a importância de uma identidade forte, de um eu vigoroso, um São Jorge, que possa enfrentar as nossas sombras e maldades, o dragão, e fazer triunfar nossa parte melhor.
    Sabemos que o caminho da evolução leva a humanidade do insconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo para a emergência da autonomia do eu livre e forte. Essa passagem é sempre dramática, tem que ser levada avante ao largo de toda a vida, porque os mecanismos que querem manter cativo eu e impeder a emergência de nossa identidade permanentemente estão ativos. E é preciso esforço e coragem para libertar o eu e conquistar a própria identidade e também a liberdade pessoal.
    São Jorge é o que nos mostra como, nessa luta, podemos ser guerreiros e vencedores. Ele enfrentou o dragão: mostra a força do eu, da própria identidade, garantindo a vitória.
    Mas esta vitória não se conquista uma vez por todas. Ela tem que ser renovada a cada momento, na medida em que as amarras vão surgindo. Dai a importância uma ligação com São Jorge, como uma fonte de energia e de força, capaz de nos assistir na luta até alcançar a vitória.
    Há, contudo, um drama do qual não nos podemos furtar. Não se trata de um defeito de construção. Mas é uma marca da nossa existência no espaço e no tempo. Por mais que lutemos e vençamos, o dragão está sempre aí nos espreitando. Ele nos acompanha. Mas ainda: é uma parte de nós mesmos, de nosso lado obscuro, mesquinho, menor que nos impede de sermos plenamente humanos. Mas também somos acompanhados por São Jorge que nos assiste na luta.
    Por esta razão, nas muitas lendas existentes sobre São Jorge ele não mata o dragão, mas o vence mantendo-o domesticado, amarrado e submetido aos imperativos do eu e da indentidade pessoal. Ele não pode ser negado e eliminado, apenas integrado de tal forma que perca seu lado ameaçador e destruidor. Pode até nos ajudar a sermos humildes e evitarmos a demasiada autoconfiança. Dai a vigilância e a referência a São Jorge que não só compensa a nossa falta de energia, mas nos pode valer poderosamente...

    http://leonardoboff.wordpress.com

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  2. ... Os da minha idade, nascidos nos anos seguintes à guerra Segunda do século XX, cresceram quando os usos os objetos diminuíam rapidamente a dependência que os humanos sempre tiveram da natureza e, cada vez mais tornavam-se senhores dos segredos da vida, desde as visíveis até às invisíveis. Há mais coisa entre o céu e a terra que não se vê e, portanto não as podes compreender com a tua vã filosofia, dissera um poeta no início do mundo moderno e racional que ele intuía. É certo que o mundo do poeta ainda estava carregado da sacralidade cultivada desde os tempos mais antigos. Desde então mundo vem sendo compreendido de maneira mais ampla que a dualidade que sempre orientou as relações dos seres humanos com o meio que de seu pertencimento. Desde o tempo do poeta, os homens vem se tornando estranho em seu lar. É isso que me sugere os fogos em homenagem a São Jorge, santo de devoção de muitos povos gerados no pensamento religioso cristão que ensinava ser a crença o pressuposto da existência. Mesmo alguns dos povos que inventaram o mundo que dá primazia à experiência para se alcançar o conhecimento, mantiveram a tradição de cultuar o herói que em seu cavalo salvou populações de males terríveis. Outros povos que vieram a tropeçar ou serem tropeçados pelos europeus, atualizaram as suas tradições e, o guerreiro matador de dragões passou a ser o defensor pessoal contra as forças que irrompem nos mais profundos recônditos lugares.

    Os fogos que me acordaram esta manhã, lembram-me que, no afã de aggiornar-se ao mundo das técnicas racionais, o catolicismo romano, nos anos imediatamente após o Concílio Vaticano II, definiu que Jorge não mais poderia estar nos altares. Ele e muitos outros. A razão parecia ter chegado aos altares por caminhos diferentes daquele imaginado na França dos Robespierre e Danton. Os de minha geração, no Brasil, podiam fazer o paralelo entre a ação dos militares que chegaram ao poder no golpe de sessenta e quatro em cassar os direitos políticos de muitos brasileiros com a racionalidade melancólica de Paulo VI retirando dos altares os santos cuja existência não puderam ser provadas cientificamente pela pesquisa histórica. Os batuques que hoje serão ouvidos em muitos lugares da América Católica parece nos indicar que o saudável desejo de teólogos e líderes católicos em aproximar-se do mundo moderno, em alguns aspectos foi realizado com muita sofreguidão e, em alguns casos, como um serviçal desatento, jogou a água suja,sem perceber que a criança ainda estava na bacia.

    Quando se apressa muito o caminhão da mudança corre-se o risco de esquecer no lugar de onde se sai algo muito querido. A perda provocada por esse esquecimento pode ser irreversível. Mas na parede da memória o perdido ficará, nos lembra outro poeta...

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