25 de abr de 2013

PADRE DANIEL: UM MÍSTICO? UM PROFETA? UM TEÓLOGO?!

Vocês sabiam que quando o padre Antônio Henrique foi torturado, castrado e assassinado, em 1969, pelo Comando de Caça aos Comunistas no Recife, havia em seu bolso uma lista de nomes de gente marcada para morrer? O primeiro era o do padre Daniel Lima, que dom Helder chamava de “meu padre meio doido e meio gênio”. Daniel escapou por pouco e faz somente um ano agora que nos deixou, aos quase 96 anos, por causa de uma pneumonia. Recebia os amigos em seu humilde apartamento na Torre, sempre acompanhado das amigas Célia e Luzilá (esta foi quem o "traiu" e fez publicar seu primeiro livro, de poesias, o Poemas, que foi prefaciado pelo nosso amigo professor da UNICAP, Zeferino Rocha, e ganhou o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor de 2011 no gênero... Mas Daniel escreveu vinte e sete livros, a maioria de filosofia, que emprestava aos amigos mas não publicava).

Porém, não eram apenas as suas poesias e escritos secretos, misto de metafísica e anarquia, entremeadas com teologia da boa, que desafiavam os déspotas de quaisquer instituições e incomodavam aos radicais da direita pernambucana. Padre Daniel era famoso por soltar pássaros de viveiros, criticava os militares nas suas aulas (de psicologia e filosofia) na Federal, escondia estudantes perseguidos pela ditadura e jogava bolinhas de gude na rua pra derrubar os cavalos dos soldados. Gostava de uísque e detestava beatas, era cultor de Drummond, Mann e Cervantes. Abominava intelectuais posudos, gostava de respirar, de viver... O que significava dar aulas, ler muito, encontrar os amigos, escrever, recolher-se à solidão. Como ele mesmo descreveu em um aniversário:

"Essa solidão, como área privilegiada de comunicação, essa solidão, pausa na música, intervalo e ao mesmo tempo ponte entre o silêncio e o gesto, em ter a minha unidade e o ser processional que sou, essa solidão assim entendida é outra das ocupações a que me venho dedicando, faz justamente uns treze anos. Administrar isto exige sutileza, flexibilidade, uma consciência ética segura de que seja capaz de ir àquele perigoso ponto fronteiriço em que mais um passo, um pequeno descuido, um erro de gramática e se cai na mentira, na hipocrisia, no disfarce, na falta de caráter. Os amigos podem perceber isto. Creio que tenho me saído bem nesse jogo de relações em que, para me achar melhor, me perco sempre. Ainda não cheguei aonde quero, ainda tenho receio de radicalizar e me tornar um isolado rabugento. Sei, no entanto, que ainda posso diminuir o tamanho de minha cela, restringir o número de fichas de visitantes ao meu modo pessoal, rarear-me um pouco mais, para querer bem com melhor qualidade".

Leia por aqui (na Revista Continente) um depoimento do padre Daniel,
e por aqui (na Revista Piauí) um depoimento sobre ele.

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