10 de mar de 2013

HEGEL E MARX, ZIZEK ENTRE E ALÉM




Conferência  
De Hegel a Marx… E de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise
Com Slavoj Žižek (filósofo e psicanalista esloveno)
Teatro da UFPE, Cidade Universitária, Recife
15 de março de 2013, às 19h30

Está circulando pelo Brasil, por conta do Seminário Internacional "Marx, a criação destruidora", um filósofo que merece ser escutado e estudado. Slavoj Žižek (que aparece acima no trailer de documentário sobre ele) tornou-se uma figura carimbada no álbum acadêmico e político de nossa aldeia global. Nascido em 49, é pesquisador da Universidade de Liubliana na terra dele, a Eslovênia, e professor visitante de diversas universidades do mundo. Pensador transdisciplinar, transita por diversas áreas do conhecimento e mistura principalmente Karl Marx e Jacques Lacan para criticar, em seus muitos livros e palestras, a pós-modernidade capitalista, sua cultura e política globalizadas pelas comunicações e mercados. A lógica das suas colocações não busca escolhas entre duas ou mais coordenadas, mas a mudança do próprio conjunto de coordenadas. Por isso Žižek é um intelectual adotado pelas novas esquerdas, ou talvez porque participe dos protestos de rua dos "indignados", apareça muito na tv - e paquere a Lady Gaga.

Enfim, um filósofo que desceu da "torre cinzenta" da teoria e passeia pela natureza verdejante das coisas. E não deixa de refletir sério caminho afora: virá ao Recife pela primeira vez, no próximo dia 15, para fazer uma palestra sobre "a tradição dialética em tempos de crise", organizada pela revista ArtFliporto. Vai traçar Hegel à luz de Marx e de Lacan, e aproveitar para lançar "Menos que nada - Hegel e a sombra do materialismo dialético", o seu novo livrinho, de 900 páginas, editado pela Boitempo. Aí ele defende uma volta a Hegel “para repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser mais hegeliano que o mestre em si”. O que esperar de uma palestra desse esloveno de 63 anos que se veste com roupas surradas e fala pelos cotovelos, num misto de tiradas engraçadas e erudição filosófica?

Ainda não li esse derradeiro livro, mas a julgar pelos últimos, a conversa deve nos interessar. Em "Vivendo no fim dos tempos", também pela Boitempo, 2012, Žižek defende que "o sistema capitalista global aproxima-se de um ponto zero apocalíptico. Seus quatro cavaleiros do Apocalipse são a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desequilíbrios do próprio sistema (problemas de propriedade intelectual, a luta vindoura por matéria-prima, comida e água) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais". Sua argumentação (que lembra muito a de Dufour, outro lacaniano que a gente andou estudando por aqui) invoca categorias do imaginário ("a perversidade espiritual do céu" é o título da introdução) para criticar profundamente a ideologia política liberal e recuperar as utopias - e "espiritualidade" - para o nosso tempo. O livro termina assim, fazendo uma hermenêutica profana (?!) do símbolo ternário cristão:

"... O Deus que temos aqui é mais como o Deus da piada bolchevique sobre um talentoso propagandista comunista que, depois da morte, vai para o Inferno, onde rapidamente convence os guardas a deixá-lo ir para o Céu. Quando o Diabo nota sua ausência, corre fazer uma visita a Deus e exige que o propagandista seja devolvido ao Inferno. No entanto, assim que o Diabo começa a falar com Deus, 'Meu Senhor...', Deus o interrompe: 'Em primeiro lugar, não sou seu senhor, sou um camarada. Em segundo lugar, você é maluco para falar com uma ficção? Eu não existo! Em terceiro lugar, seja rápido, senão perco a reunião da minha célula do partido!'. Esse é o Deus que a esquerda radical precisa hoje: um Deus que se 'tornou homem', um camarada entre nós, crucificado com dois excluídos e que, além de 'não existir', sabe disso e aceita seu próprio apagamento, passando inteiramente para o amor que une os membros do 'Espírito Santo', isto é, o partido e outras formas de coletivo emancipador" (p. 289s).

Em "O amor impiedoso - ou Sobre a crença", Editora Autêntica, 2012, o filósofo, ateu e filho de ateus, trata de fenômenos religiosos e do estatuto da crença em geral, mostrando que ela é fortemente disseminada em práticas e modos de pensar aparentemente neutros de nosso tempo: "Ninguém realmente escapa à crença (...). Quer dizer, em nossa cultura secular, pós-tradicional, hedonística e oficialmente ateia, na qual ninguém está pronto a confessar publicamente sua crença, a estrutura subjacente à crença é tanto mais disseminada - todos nós, secretamente, cremos". Nesse livro, o capítulo em que Žižek se pergunta "por que Cristo morreu na cruz?" traz uma meditação sobre o sacrifício que bota muito teólogo por aí no bolso: "... Cristo redime a humanidade não pagando o preço por nossos pecados, mas demonstrando que podemos nos libertar do ciclo vicioso de pecado e pagamento. Em vez de pagar por nossos pecados, Cristo, literalmente, apaga-os, retroativamente os 'desfaz' através do amor" (p. 34s). Isso mostra que os caminhos interdisciplinares (e as dialéticas que incluem, em outro nível de realidade que seja, a abertura para um Terceiro) fazem muito bem aos estudos (também desde dentro) da religião.

2 comentários:

  1. “A abordagem de Žižek vai contra a corrente dominante da teologia cristã, em que a doutrina da Trindade tem permitido aos teólogos afirmar que apenas uma das pessoas divinas se submeteu à provação da encarnação — isolando, portanto, o impacto da encarnação na vida divina”, pondera Adam Kotsko na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. “A abordagem hegeliana que Žižek adota também difere da cristologia tradicional, que sustenta que Deus ressuscitou Cristo dos mortos pessoal e individualmente. Na interpretação hegeliana, ao contrário, o poder divino de Cristo é ‘ressuscitado’ como a nova forma de comunidade conhecida como o ‘Espírito Santo’”, destaca.

    Kotsko afirma que o projeto de Žižek fornece suporte para outras tentativas radicais de repensar a tradição cristã, em especial nas diversas teologias da libertação. “Isso não quer dizer que esses teólogos ‘precisem’ de Žižek, mas sim que a obra de Žižek poderia direcionar os teólogos da linha principal em direção a um trabalho mais criativo e radical do que o que está sendo feito.”...
    http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/iek-e-a-tentativa-radical-de-repensar-a-tradicao-crista-entrevista-especial-com-adam-kotsko/525092-iek-e-a-tentativa-radical-de-repensar-a-tradicao-crista-entrevista-especial-com-adam-kotsko

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  2. Muito bom! Quando o cristianismo parece em crise pelos seus próprios (supostos) intérpretes, vem um hermeneuta do fim do mundo pra mostrar que os símbolos cristãos ainda podem gerar humanização!

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