17 de fev de 2013

DE VOLTA AOS TRÓPICOS


“Não se evangelizam pessoas, filhos e filhas de nosso tempo, apresentando um modelo medieval de Igreja, feito bastião de conservadorismo, de autoritarismo e de antifeminismo e sentindo-se uma fortaleza assediada pela modernidade, tida como a responsável por todo tipo de relativismo" (Leonardo Boff).

Caros professores, amigos e amigas do Mestrado, em especial da nossa 8ª turma!

Depois de alguns dias na Europa, entre um inverno pesado, uma boa taça de vinho e bons momentos de reflexão, estou de volta ao nosso tão pesado verão, realmente um dos mais pesados desses últimos anos. Como um vírus, o Mestrado parece nos "contaminar", pois não conseguimos mais olhar o mundo, os fatos, os momentos, sem que venha de imediato um "olhar" de pesquisador! Isso mesmo, foi assim desta vez, depois de tantos anos visitando a França: desta vez foi diferente. Explico: era praticamente automática a ligação que fazia entre o que via, discutia e participava, com tudo que lemos, estudamos e discutimos aqui no Mestrado.

Tudo começou com a grande discussão sobre a questão "MARIAGE POUR TOUS": em todos os jornais, revistas, documentários, associações, igrejas, se discutia a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Até aí tudo bem, o que me deixou de orelhas em pé foi ver a igreja católica ao lado da direita e da extrema-direita, na organização de uma grande manifestação em Paris! Seria esse o papel da igreja? 

Sobretudo quando a gente lembra dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II, que afirmou: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para comunica-la a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história" (Gaudium et Spes, 1). 

Não estaria a igreja católica esquecendo o seu papel de anunciar que "Deus é Amor "? Não poderia ajudar a sociedade a descobrir, antes do preconceito ou dos juízos de valores pré-estabelecidos, o respeito à pessoa humana, independente da sua vida ou condição sexual? São boas questões a serem refletidas.

Mas, o tempo vai passando e as férias também. Fui para o sul da França, Toulon, onde outra vez me surpreendi quando cheguei na igreja e encontrei, logo na porta, uma "lista de pecados". Confesso que li coisas que nem sabia que eram pecado! Ao lado dessa lista, uma advertência : "VOUS ETE DANS LA MAISON DE DIEU"... Cuidado com as roupas curtas, decotadas, e com o silêncio absoluto! Parece piada?! Infelizmente não! Fiquei realmente "quase que escandalizado". Mas o escândalo aconteceu quando uma amiga do conselho paroquial me dizia que a missa de natal tinha sido celebrada em latim... Isso, realmente, foi chocante, foi quase inacreditável! 

E depois, quando encontrei com padres de batina preta nas ruas de Toulon, aí realmente a coisa ficou feia (rsrsrsrsr). Pois ainda quis pensar que seria pelo frio, mas meus amigos me disseram que era normal, mesmo no verão escaldante do sul da França. Missas em latim, padres de batina preta em um país anticlerical, padres com saudades de celebrarem missa de costas para o povo, como acontece em uma das igrejas que visitei, realmente, não é questão de conservadorismo, é questão de integralismo, acho que é diferente.

Mas, temos esperança! Ainda bem! Participei e fiz uma pequena conferência, com o grupo de CCFD (Comité Catholique Contre la Faim et pour le Développement), que me deu um afago no coração, pois encontrei pessoas da África, da França, América Latina, que acreditam numa igreja mais missionária e mais presente na vida do povo, com uma visão do sagrado que se constrói nas relações de amor e serviço e não que se manifesta em rituais e vestimentas extraordinárias. O assunto era sobre a missão da igreja a partir do Vaticano II. Depois apresentei um pouco nosso mestrado, fiz com que eles conhecessem nosso blog e descobrissem que existem tantas e tantas pessoas que conseguem ainda acreditar na esperança de transformação dos corações e de construção de uma nova sociedade, a partir também das religiões. 

Dentro desse encontro estavam alguns padres operários que, já aposentados, ainda insistem na missão com os pobres e na construção de convivências mais justas e fraternas, através de uma presença eclesial que apenas anima a caminhada de humanização, sem impor ou determinar doutrinas, regras e normas! E todos eles testemunharam exemplos de como o divino se manifesta entre as pessoas que se tornam mais humanas.

Por fim, encontrei a Comunidade Shalon, comunidade fundada em Fortaleza, de base carismática, que se encontra em missão no sul da França. Conversei com os missionários, os padres, os seminaristas, que estão se doando na evangelização de paróquias da diocese de Toulon. Mas, espera aí, França, terra de Missão?! Depois de tantos séculos, agora eles precisam de brasileiros missionários? Verdade, são mais de 100 missionários brasileiros em missão na diocese de Toulon, todos de grupos que são chamados "Novas Comunidades", praticamente todas de cunho mais carismático, ou de tendência mais “intra ecclesia”. Acredito na boa vontade e na coragem desse pessoal. Não sei, porém, se diante de uma cultura tão pós-religiosa e de uma realidade social tão diferente da que temos aqui, se a coisa vai funcionar como esperam. 

Pois a realidade eclesial e social da França e as necessidades pastorais e a própria história da igreja francesa está longe de ser compreendida por esses missionários, que na sua boa vontade e coragem, tentam evangelizar agora quem um dia já nos evangelizou. Logo, surge a questão: querem eles ser evangelizados? Seria mesmo uma evangelização? Que evangelização realmente a França precisa? De batina preta? De missas em latim e de costas para o povo? De padres que não conseguem conviver com leigos em uma ação pastoral participativa? 

Mas, não nos esqueçamos que aqui bem pertinho de nós também vivemos realidades bem parecidas, seminaristas e padres que estão muito mais preocupados com suas "alfaias" do que com a missão de anunciar para o mundo as "maravilhas do reino", de forma atualizada e dialogal com os tempos modernos. Cristãos, novas comunidades, canais de tv e rádio, religiosos midiáticos, bispos, congregações e paróquias, que infelizmente parecem não lembrar, ou não querer lembrar, de que nós não somos mais o centro do mundo e que nossa missão é de caminhar AMANDO A HUMANIDADE COMO O MESTRE AMOU.

Sandro Lemos,
padre católico, mestrando em Ciências da Religião na UNICAP.

6 comentários:

  1. Entre alguns pequenos grupos da Igreja, as vestes religiosas barrocas estão voltando. Elas podem estar retornando não como sinais religiosos, mas como distrações da fé e do ministério. Como disse Henry David Thoreau, "cuidado com todos os empreendimentos que exijam roupas novas". O artigo do dominicano norte-americano Thomas O'Meara, foi publicado no sítio National Catholic Repórter...
    Leia a tradução por aqui:
    http://paulosuess.blogspot.com.br/2013/01/qual-e-mensagem-do-desfile-de-moda.html

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    1. Com certeza isso é um SINAL que desperta em nós pesquisadores várias questões, citando apenas uma poderíamos PERGUNTAR QUAL A REAL MOTIVAÇÃO PARA TANTA PREOCUPAÇÃO COM VESTES E ALFAIS ??? SERÁ QUE FREUD EXPLICA ?? RSRSRSR ABRAÇOS...

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  2. Quem é esse padre? Gostei dele. Bebe vinho com pecadores,anda com pobres,diz a
    sua verdade e não pede segredo, é, tá bem parecido com outro doido e corajoso, mas já o mataram, aconteceu lá pelas bandas e arredores de Jerusalém. Ah, sou da quinta turma...Parabéns.

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    1. A vida de todos aqueles que ACREDITAM NESSE DOIDO QUE MATARAM EM JERUSALÉM é de procurar simplesmente "BEBER VINHO" COM AQUELES QUE INFELIZMENTE PERDERAM A ALEGRIA DE SER UM SER HUMANO..
      ABRAÇOS ....

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  3. Estou maravilhada com o grau de maturidade humana e de sensibilidade espiritual das pessoas que estudam aí nesse curso: independente de qual igreja ou religião seja, sempre trazem debates sérios, que dão um trato nas bolas da gente. Quem sai ganhando é a humanidade e a consciência de todos nós. Pena que moro longe e não posso participar das atividades ou estudar aí, mas gostaria. Parabéns pra vocês! Josefa da Conceição. Professora de religião - Santa Isabel AM.

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  4. Josefa da conceição, fico muito feliz com seu comentário, VAMOS JUNTOS NESTA CAMINHADA NA LUTA POR UMA SOCIEDADE MAIS HUMANIZADA E FRATERNA.. FORTE ABRAÇO.

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