6 de jan de 2013

INTERPRETANDO AS EXPERIÊNCIAS DE DEUS

26º Congresso Internacional da Soter
PUC Minas, 08 a 11 de julho de 2013

Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
 
Deus na Sociedade Plural

Após ter se empenhado em discutir o papel da religião em nossa sociedade em seus últimos congressos – Religiões e Paz (congresso 2010), Religião, Educação e Cidadania (congresso 2011), Mobilidade Social e Religiosa (congresso 2012), a SOTER volta-se no 26º Congresso Internacional para a fonte mesma da experiência religiosa e de sua interpretação pela Teologia, Ciências da Religião e Áreas Afins: Deus. Por que este retorno a Deus ou de Deus no próximo congresso anual organizado pela SOTER? O que, na atual situação das religiões em geral e das diferentes confissões cristãs em particular, justifica esse interesse e essa atenção pela questão de Deus em nosso país?

Uma primeira aproximação ao mapa religioso do Brasil, como a do último Censo do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –, mostra que Deus – a fé, os símbolos e as narrativas que engendra –, os deuses, o sagrado e/ou o divino – as crenças, ritos e relatos de que são objeto –, são onipresentes no imaginário nacional. O aumento dos sem religião, por exemplo, não necessariamente é sinônimo de ateísmo ou agnosticismo, mas colocam uma clara fronteira entre experiência religiosa e experiência institucional. A pluralização do campo religioso e a explosão de novas espiritualidades e religiosidades apontam para outras formas de experiências do divino, algumas ressemantizando a compreensão do Deus do cristianismo, outras resgatando as divindades dos povos originários e afrodescendentes, outras enfim valorizando o Deus do judaísmo, do islã e das religiões orientais. Esta constatação parece confirmar a opinião segundo a qual o processo de secularização, que em muitos países ocidentais levou ao indiferentismo e à negação de Deus, não teve o mesmo impacto entre nós.

Uma análise mais aprofundada do atual pluralismo religioso, das imagens, símbolos e narrativas do divino que veicula ou revisita, levanta, porém, uma série de questões. Quem é o Deus desta nossa sociedade plural? É a fonte e o horizonte do sentido ou um dos muitos “ídolos” fabricados pelo indivíduo pós ou hipermoderno? Ele oferece razões para crer, esperar e amar ou é um simples “consolo” face ao absurdo de uma existência feita de violência, solidão e injustiças, na qual o indivíduo é apenas “número” ou mero consumidor? Até quando o imaginário pré-moderno do divino, tão presente nas inúmeras recomposições do religioso em nosso país, poderá competir com o imaginário tecnológico-instrumental, para o qual Deus não é necessário para explicar o mundo? Até que ponto a variedade de imagens, símbolos e narrativas do divino não são mera projeção do processo de diversificação das individualidades nas sociedades complexas?

Os “filósofos da suspeita” – Feuerbach, Nietzsche, Marx e Freud – produziram no séc. XIX e XX críticas contundentes à religião, que foram também críticas ao estatuto ocupado por Deus no seio da razão ocidental. Assim, para Feuerbach, Deus deveria ceder o lugar ao humano e a teologia transformar-se em antropologia. Nietzsche anuncia a morte de Deus e suas consequências para a cultura, enquanto Marx e Freud afirmam respectivamente que Ele é fonte de alienação e enfermidade, e a religião ópio do povo e neurose universal. Heidegger, num outro tipo de leitura, verá no recurso da filosofia a Deus enquanto causa e fundamento do Ser, a origem do esquecimento da diferença que existe entre ser e ente, acusando o pensamento filosófico do Ocidente de ontoteológico.

As críticas dos “filósofos da suspeita” e a crítica à ontoteologia determinam grande parte da reflexão sobre a religião e Deus feitas no último século. De fato, as Ciências da Religião (sociologia, psicologia, fenomenologia, história, antropologia e filosofia religiosas) surgiram e se firmaram a partir do séc. XIX num esforço de compreender e fundamentar os diferentes aspectos do fenômeno religioso e do lugar que nele ocupa a divindade. A Teologia, por sua vez, apesar de ter-se firmado como ciência já nos primeiros séculos do cristianismo e ter adquirido o estatuto de ciência nas universidades medievais, viu-se obrigada a responder às questões levantadas por essas críticas. Além disso, após as duas grandes guerras mundiais, ela foi questionada sobre as fontes de tanto horror e vio lência, interrogando-se sobre como falar de Deus após o holocausto.

A reflexão sobre Deus feita na América Latina e no Brasil nas últimas décadas foi profundamente marcada pela pergunta: como falar de Deus a partir do sofrimento do inocente? Para responder a tal pergunta, nossos/as teólogos/as inspiraram-se sobretudo no Deus de Jesus Cristo e sua capacidade de “kenosis” – humildade e solidariedade –, propondo uma releitura original do dogma trinitário, que alimentou a espiritualidade e a práxis dos/as que se comprometeram em “tirar da cruz os povos crucificados”. Nos últimos anos, porém, a essa leitura somam-se as das novas tendências que emergiram no seio da teologia da libertação: as das críticas ao patriarcalismo (teologias de gênero), à destruição do meio ambiente (ecoteologia), à idolatria do mercado (teologia e economia), à supremacia do Deus cristão (interculturalidade e diálogo inter-religioso); e a da proposta de uma teologia pública, que discute sobre temáticas que afetam os processos democráticos das nações e sua relação com o pensar teológico na sociedade.

Por outro lado, à reflexão latino-americana e brasileira sobre Deus feita pela Teologia nas últimas décadas deve-se também acrescentar a das Ciências da Religião. De fato, boa parte da produção filosófica elaborada entre nós retomou as críticas dos filósofos da suspeita e de Heidegger, num esforço de pensar o niilismo, o agnosticismo e o ateísmo em nosso meio. A sociologia, a psicologia, a história, a fenomenologia e a antropologia da religião ofereceram por sua vez chaves de interpretação importantes para entender a especificidade das religiosidades autóctones e das religiões afrodescendentes, além de ajudarem a compreender o fenômeno pentecostal, tão importante atualmente no país.

Ao propor para 2013 o tema Deus na Sociedade Plural. Fé – Símbolos - Narrativas, o 26ºCongresso da SOTER aborda um tema relevante de nossa contemporaneidade, que necessita ser interpretado por cientistas sociais, teólogos/as, filósofos/as e cientistas da religião, oferecendo assim novas chaves de leitura para pensar Deus no momento atual.
 
Agenda:
01 de dezembro de 2012 a 15 de janeiro de 2013: chamada para formação de Grupos de Trabalho(GTs) e de Fóruns Temáticos (FTs). Tais grupos devem sem compostos por dois doutores/as de 2 IES distintas, descrevendo numa ementa não maior de 250 palavras sua proposta para realizar o callpaper/chamada de apresentação de Comunicações.
15 de janeiro a 10 de fevereiro de 2013: análise das propostas de GTs e de FTs pelo Comitê Científico do 26º Congresso da SOTER.
11 de fevereiro de 2013: Comunicação dos GTs e dos FTs aprovados.
01 março a 10 de maio de 2013: inscrições para comunicações nos GTs e nos FTs Temáticos, a serem feitas através da página de eventos do site da SOTER. Cada comunicação deverá conter o título proposto pelo/a autor/a e uma ementa de no máximo 250 palavras que suscintamente explicite o teor acadêmico da mesma, indicando a metodologia e as questões a serem abordadas na apresentação da comunicação.
15 de abril de 2013: início das inscrições on-line na página de eventos do site da SOTER como participante.
10-20 de maio de 2013: estudo e aprovação das propostas de comunicações pelos/as Coordenadores/as de GTs e de FTs.
24 de maio de 2013: divulgação na página do evento das Comunicações aprovadas.
07 de junho de 2013: último prazo para pagamento dos proponentes que tiveram comunicações aprovadas. O não pagamento implicará na não apresentação da comunicação.
30 de junho de 2013: encerramento das inscrições on-line como participante (mediante disponibilidade de vagas).
08 a 11 de julho de 2013: realização do 26º Congresso.
31 de agosto de 2013: data final de envio de textos integrais dos trabalhos aprovados para publicação em forma digital dos Anais dos textos completos.

Baixe por aqui os Anais dos últimos Congressos.
Veja aqui nossa participação no Congresso 2012.
As propostas de FTs/GTs podem ser enviadas por aqui.

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