15 de dez de 2010

PAPAI NOEL E RELIGIÃO

Lembro que, num Natal dos anos 80, em Olinda, o prefeito encomendou um presépio para a praça do Carmo, praquele coreto de ferro. Os artistas da cidade, acostumados aos bonecos do carnaval, fizeram uma Sagrada Família bem colorida e - pior das heresias - uma Nossa Senhora amamentando o Menino Jesus! Onde já se viu: a Criança Eterna deve ter recebido latas de leite celestial, nunca mamou mesmo na Santa Mãe, com toda certeza! Terços contritos numa mão, tochas acesas na outra, beatas desceram devotamente as ladeiras da cidade para incendiar a arte sacra - considerada como profanação! Nós últimos anos a cidade abriga "o maior presépio do mundo" na mesma praça, mas as figuras são mais comportadas.

Todavia o nosso Menino Jesus não foi o único a sofrer atentado por aí. Um concorrente simbólico dele, justamente, o Papai Noel, também foi vítima das tochas: na véspera de Natal de 1951, o Bom Velhinho foi queimado numa fogueira por fiéis católicos no átrio da Catedral de Dijon, na França. O grupo de linchadores religiosos acreditava que incendiar Papai Noel era um gesto de afirmação religiosa, pois o personagem natalino não passava de um deus pagão e, portanto, anticristão. Poucas horas depois, porém, na mesma cidade, Papai Noel "ressuscitou" na festa promovida pela prefeitura para animar as crianças.

Com efeito, a figura de Papai Noel resultou da combinação de várias lendas e tradições. Certamente existe relação entre o Velho Noel e os Julenisse da Dinamarca e Noruega e os Tomte da Suécia, duendezinhos vestidos de vermelho com gorros pontiagudos e longas barbas brancas, que distribuem presentes montados em renas enfeitadas com sinos e laços. Essas figuras míticas dos indígenas de lá juntaram-se com São Nicolau, bispo de Mira, região ao sudoeste da Ásia (Turquia), no século III, que tinha especial cuidado com os meninos e necessitados. Sua fama estendeu-se e foi convertido em patrono de muitas cidades européias, sobretudo da Alemanha e Holanda. Os holandeses introduziram a tradição nos EUA e o fizeram patrono de Nova York, no século XVIII.  

Aí São Nicolau trocou a mitra episcopal pelo gorro vermelho e o novo rito foi transportado dos Estados Unidos para a Europa. Ainda era novidade em 1951 na França, quando houve aquele linchamento. E o episódio desse sacrifício e "ressurreição" serviu ao etnólogo francês Claude Lévi-Strauss como provocação para escrever no ano seguinte um ensaio sobre as razões do culto a Papai Noel. O resultado é o livrinho O Suplício de Papai Noel, 56 páginas, lançado em 2008 no Brasil pela Editora CosacNaify, com tradução de Denise Bottmann, por ocasião do centenário do autor (esgotado, você pode comprar o livro aqui no sebo ou baixar aqui uma versão digital).

O Suplício de Papai Noel oferece uma leitura instigante. Ao mesmo tempo que tomamos contato com o método estruturalista do antropólogo-etnólogo francês, podemos entrar nessa discussão que volta sempre através da meninada: você acredita em Papai Noel? Mas em caso positivo, deveríamos então acrescentar: você se considera um pagão?! Pois seria uma pergunta consequente com o estudo que Lévi-Strauss fez do surgimento desse novo rito, que já nos parece até antigo (Papai Noel é divulgado no Brasil depois de 1930). Normalmente, o Velhinho parece mais ligado à religiosidade "comercial" dos Estados Unidos do que às tradições natalinas ibéricas das procissões luminosas ou do presépio franciscano divulgado pelos jesuítas, às quais somos mais afeitos.

Lévi-strauss mostra, contudo, que não se trata apenas de uma importação cultural, e sim de uma manifestação legítima de religiosidade que se espalhou pelo mundo. O seu ensaio compara Papai Noel com outras crenças e percorre a história ocidental para demonstrar que o próprio Natal é uma comemoração adaptada das Saturnais romanas - festas que aconteciam entre 17 e 24 de dezembro, nas quais as crianças também eram presenteadas...

Para Lévi-Strauss, Papai Noel é uma "reencarnação" de Saturno e dos ritos de aproximação entre vivos e mortos - aproximação que é sinalizada pela jovialidade das crianças. A conclusão do estudioso surpreende: ao sacrificar Papai Noel como se fosse uma heresia, os fiéis de Dijon restabeleceram um rito pagão, o do sacrifício do deus Saturno no final das saturnais. "A Igreja não está errada quando denuncia na crença em Papai Noel o bastião mais sólido e um dos campos mais ativos do paganismo do homem moderno", escreve Lévi-Strauss, e acrescenta: "Resta saber se o homem moderno não pode também defender seus direitos de ser pagão".

Ele diz que há um longo caminho entre as Saturnais e o nosso Papai Noel. Durante essa trajetória, perdeu-se o clímax que era o sacrifício de Saturno (ou Papai Noel), depois de muitos excessos rituais. Mas a história dá voltas: "Graças ao auto-de-fé de Dijon, eis o herói reconstituído em todas as suas características, e não deixa de ser um dos grandes paradoxos desse curioso episódio que, pretendendo acabar com Papai Noel, os eclesiásticos de Dijon não tenham feito mais do que restaurar, em sua plenitude, após um eclipse de alguns milênios, uma figura ritual cuja perenidade, a pretexto de destruí-la, coube justamente a eles demonstrar".
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Gilbraz Aragão.

Mas então, o que você pensa:
Papai Noel é um concorrente ou um agregado ao Natal cristão?
O "bom velhinho" usa os esquemas publicitários do comércio para reviver uma divindade pagã e/ou é usado pelo comércio para simplesmente vender mais brinquedos?!
O que é mesmo sagrado em nossas vidas?! Digaí...

5 comentários:

  1. Karina O. Bezerra15 dezembro, 2010

    O que será que vai acontecer quando as pessoas souberem que grande parte da simbologia natalina – papai noel, renas, duendes, presentes, arvore, pinheiro, estrela, lua, guirlanda, nascimento do Deus, sol, mãe, festa - são pagãs? Que Jesus (do ponto de vista que o considera histórico) não nasceu no dia 25 de dezembro? Acho que a coca-cola não deixaria né ?
    O que eu observo é que os fundamentalistas estão já Satãnizando (novo verbo) este dia. E as pessoas “comuns” nem se lembram que o Natal é o nascimento de cristo, mas, nunca se esqueceram de comprar roupa nova, presentes e muita comida. E é bom lembrar que ficam devendo até março, não pagando o dizimo. :P

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  2. O calendário dos humanos é recheado de festas, comemorações, celebrações, rituais e danças, tudo gira em torno do imaginário religioso e cultural dos povos. O natal não foge desse clima, porém existe uma apropriação na qual o ocidente é especialista em adequação sobre a união dos símbolos e ritos ao ato de consumo. A publicidade é mãe do negócio. Natal entre outras e variadas opções de olhares é o nascimento, natalidade, celebração, vida. Nesse contexto simbolizando o real significado o ausente da brincadeira é o Cristo e Papai Noel é inserido para hibridizar a festa e elevar os índices de compras. Mesmo assim, tentando fugir do imposto, é um momento que devemos parar e pensar! Será que papai noel existe?

    Silvério Pessoa

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  3. Pelo menos para mim o que está em jogo nesse período é a reflexão sobre o que fiz e deixei de fazer pelo próximo. Pois, como diz os cristãos que o homem é a imagem e semelhança de Deus, não há nada mais sagrado do pensarmos no próximo.
    Uma coisa é certa, os "templos" pós-modernos (shopings centers) adotam o "bom velhinho" como sacerdote, para daí, usurparem dos seus fiéis muito mais do que os dez por cento do que se dá nos templos cristãos.
    Que fique claro, não sou contra o mito do "bom velhinho" mais do que se faz em nome dele...

    Um grande beijo no coração de todos e que em 2011 tenhamos um mundo mais justo e igualitário.

    Carlos Vieira, pai de Matheus que pede a Papai Noel um binquedinho...

    16 Dezembro, 2010

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  4. Papai Noel sob mira

    A cena se passa em São Luís do Maranhão, por volta de 1890. Ao fim da ceia de Natal, os parentes e convidados de uma família se reúnem na sala para trocar presentes, cantar hinos e dar umas cachimbadas. Ao longe, bimbalham sinos. De repente, um homem gordo, de barbas brancas, roupa e gorro vermelho com barras também brancas, botas e cinto pretos e um grande saco às costas irrompe sem aviso pela janela.
    Pânico, pavor, palpitações. Num átimo, os homens se põem de pé, sacam os trabucos e os apontam para o intruso, rendendo-o num canto da sala. Mas uma das mulheres se põe corajosamente entre ele e as armas, dizendo: "Não o matem! É o Papai Noel! Eu o contratei!".
    A mulher é a jovem professora Maria Barbara de Andrade, dona de um colégio local e filha de nada menos que o discutido poeta maranhense Sousândrade -Joaquim de Sousa Andrade-, autor de "O Inferno de Wall Street". Com o Papai Noel sob mira, Maria Barbara explica que, tendo sido criada em Nova York, quando seu pai foi morar lá, em 1871, habituara-se a ver o velhinho na versão do ilustrador e caricaturista Thomas Nast, no tabloide "Harper's Weekly".
    Até 1863, Papai Noel era alto, magro, ranzinza e se vestia de bispo católico. Nast, que era rechonchudo e anticlerical, redesenhou-o à sua imagem e acrescentou-lhe a roupa vermelha e o bom humor. Daquele ano até 1890, inundou "Harper's" e outras publicações com seu simpático Papai Noel e fixou aquela imagem no coração de milhares de crianças dos EUA, inclusive a brasileira Maria Barbara.
    Os homens abaixam as armas, abraçam o Papai Noel e lhe servem vinho. Donde Maria Barbara pode ter sido a introdutora do moderno Papai Noel no Brasil. Mas sua façanha nunca ficou estabelecida, e é natural que, 120 anos depois, muita gente acredite sinceramente que quem fez isso foi a Coca-Cola.

    RUY CASTRO
    Folha de São Paulo, sábado, 25 de dezembro de 2010

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  5. Enfeitar uma árvore, iluminar as casas e as ruas, trocar presentes, reunir a família e os amigos ao redor de uma farta ceia: são apenas algumas características do Natal herdadas de tradições pagãs muito mais antigas do que o próprio Cristo; leia reportagem especial de Luis Pellegrini, editor da revista Oásis sobre as origens da celebração...

    http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/124989/Natal-Festa-pag%C3%A3-que-se-tornou-crist%C3%A3.htm

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