30 de abr de 2010

MEIO-AMBIENTE E ESPIRITUALIDADES

Por Emanuele Carvalho, para o Boletim UNICAP.

O Ciclo de Debates Budismo e Diálogos Religiosos, que teve início na última segunda-feira (26) realizando palestras em alguns lugares do Recife, chegou à Universidade Católica de Pernambuco, nesta quarta-feira (28), com o tema “O encontro do meio-ambiente com a espiritualidade”. O debate foi promovido pelo Mestrado de Ciências da Religião da Unicap em parceria com o Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB). Na ocasião, estiveram presentes, para conduzir o debate, o permaculturista Thomas Enlazador, o pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Gustavo Lima e o professor e pesquisador da Católica Lúcio Flávio.

O debate visa proporcionar uma discussão acerca da falta de espiritualidade das pessoas para com a natureza. O tema diz respeito ao conceito “eco-teologia”, que surgiu nos últimos 30 anos, a partir da preocupação de alguns teólogos com o esgotamento dos recursos naturais, por conta do mau uso humano desses recursos. O convite dos três palestrantes não foi por acaso. Eles são especialistas na área ambiental, mas seguem religiões diferentes; um budista, um cristão e o outro que participa de vários cultos diferentes e acredita nos deuses da natureza.

Quem deu início à exposição foi o estudioso da prática budista Gustavo Lima, que fez um paralelo entre a crise ambiental, instalada no mundo desde o ano de 2008, e a prática budista, de tradição milenar. Essa crise tem referência, em sua opinião, do ponto de vista político, com uma democracia meramente representativa para uma democracia onde a sociedade tem voz e vez. Segundo ele, a visão que se tem da crise ambiental é de “um processo reducionista, um problema técnico, diminuindo a magnitude do problema”. Afirmou ainda que o diagnóstico da crise ambiental é muito semelhante ao diagnóstico que o budismo faz da condição e da confusão humana, nos sentidos de que não há uma convivência pacífica entre o ser humano e o meio, há sim uma necessidade de dominação. Isso resulta da falta de ética do ser humano em relação à natureza. “A ética é vista como anormalidade”, ressalta.

O teólogo cristão Lúcio Flávio deu continuidade abordando a perspectiva de dialogar com a ecologia e a religiosidade cristã. Ele relatou algumas passagens bíblicas que evidenciam a aparição de elementos da natureza, como árvores, com o significado de abrigo, segurança e acolhida, além de servir como alimento. “O sagrado na natureza vai além das culturas e das tradições religiosas. Há algo em comum, há algo que está intrinsecamente ligado à necessidade do ser humano em se relacionar com a natureza e encontrar nela uma relação com o sagrado”, afirma. Esse sagrado, na perspectiva cristã é a criação, ou seja, todos são frutos da ação amorosa e livre do criador. “É preciso silenciar esse barulho que ecoa, como o da Revolução Industrial e de todas as outras, para que a gente possa encontrar a natureza em nós mesmos e vice-versa. A crise ecológica foi uma sineta para mostrar que algo de errado está acontecendo”, finaliza.

O educador e ambientalista Thomas Enalazador, fundador do Centro Ecopedagógico Bicho do Mato, localizado na Zona Rural do Recife, na BR-101, encarou a palestra como um desafio espiritual, como sendo uma espiritualidade primata, direcionada para o visceral. A espiritualidade para ele está ligada à natureza, às forças que atuam sobre o ser humano. “Trabalhamos uma espiritualidade paganista, onde o deus é o louvor à lua, à terra e aos animais”, completou ressaltando a importância dos animais para o processo de espiritualização do ser humano, considerando uma chacina o consumo da sua carne. Relacionou a isso o fato de a população passar a consumir produtos que sejam reaproveitáveis e orgânicos. Destacou ainda a importância da busca da coerência do ser humano, que são seres ecológicos e espiritualizados, para com isso praticar uma cultura mais saudável e naturalista. Essa cultura, ele denomina como a práxis altermundista, que é a prática de um mundo alternativo, que reside em casas construídas através das bioconstruções, que são construções sustentáveis; fazem partos humanizados e vivem dedicados à natureza.

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