1 de set de 2009

PALESTRA SOBRE EVOLUÇÃO E CRIAÇÃO


Por Rebeca Kramer, para o Boletim UNICAP.

“Neste II Simpósio de Ciências Biológicas da Universidade, vamos levantar questões principalmente sobre a vida e as relações que os seres-humanos vêm mantendo entre si com o curso da evolução. Isso porque este ano, além de comemorarmos os 200 anos de Charles Darwin, também comemoraremos 30 anos de profissão regulamentada, próximo dia 3 de setembro”. Definindo assim o objetivo do Simpósio (SimcBio), a coordenadora do curso de Ciências Biológicas, professora Goretti Sônia, compôs a mesa de abertura do evento junto ao Reitor da Católica, Padre Pedro Rubens; ao diretor do Centro de Ciências Biológicas e Saúde, professor Aranildo Rodrigues, e à professora Bereneuza Brasileiro, uma das coordenadoras do simpósio.

Em seguida, foi a vez do coordenador do Mestrado em Ciências da Religião da Unicap, professor Gilbraz Aragão, ministrar a palestra intitulada: “Evolução rima com criação”. O evento aconteceu na noite desta segunda–feira (31), no auditório G1 da Universidade. Depois da apresentação, todos foram convidados para um coquetel no salão receptivo, localizado no primeiro andar do bloco G. Segundo o diretor do Centro de Ciências Biológicas e Saúde, professor Aranildo Rodrigues, o Simpósio também constitui uma forma de interação bastante justa entre alunos da Unicap e discentes de outras instituições. “Darwin foi um gênio da ciência que revolucionou com a teoria da seleção natural. Era um naturalista apaixonado pela biologia, que amava a natureza e ler sobre ela. Dos seis filhos de um pai médico, Darwin foi o único que enveredou pelo caminho das ciências”, afirmou.

O Reitor da Católica, Padre Pedro Rubens, em sua fala inicial, parabenizou a todos os biólogos pela sua missão quase impossível e de grande responsabilidade: a de cuidar da vida e tudo que ela representa. “Cada profissional tem uma responsabilidade pontual. O biólogo tem a consciência de que a intervenção dele na sociedade pode contribuir para melhorar a vida no planeta”, salientou. Na ocasião, Padre Pedro homenageou também o cientista Charles Darwin, frisando que um gênio, anônimo por tanto tempo, mexeu no curso da história. O Reitor citou algumas situações: “Não consigo me convencer de que um Deus caridoso e onipotente teria propositalmente criado vespas parasitas com a intenção expressa de alimentá-las dentro de corpos vivos de lagartas”. Ou, ainda, “que somos apenas um elo perdido no processo evolutivo”.

O Reitor também levantou o questionamento: “Como um Padre falar de Darwin?”. Segundo Padre Pedro, as descobertas do cientista não tiveram, na época, a intenção proposital de negar a Bíblia, mas, obrigou a sociedade a rever a épica escrita no livro sagrado cristão. “Ele nos obrigou a procurar uma profundidade maior das tradições religiosas”, expôs. E indagou, mais uma vez: “A pergunta não é nem como começou o mundo, mas qual o seu sentido? Nem a Bíblia podia responder esse questionamento”, relatou. “Por meio de Charles, passamos a ter as noções atuais de sustentabilidade”, salientou. Ao final, Padre Pedro, novamente, deixou para os estudantes uma nova pergunta: “Estamos realmente no topo da evolução? Caso estejamos, vamos dar conta de nossa inteligência?”, indagou. E finalizou: “O ser-humano não esgotaria sua capacidade de perguntar. Seria parar a história. Seria morrer”.

Em sua fala, o coordenador do Mestrado em Ciências da Religião, professor Gilbraz Aragão, ressaltou que a visão de um universo imutável pode ser modificada na medida em que novas propostas elucidativas surjam. E essas novas fórmulas de ver o universo podem mostrar-se tanto por meio do empirismo científico como pelo ponto de vista teológico-divino. Inicialmente, o professor colocou situações que foram rejustificadas ou reanalisadas pela ciência, mas que, por muito tempo e, em alguns casos, até hoje, ainda valem como lei sob o olhar bíblico. Inclusive, satirizando o contexto do livro sagrado. “O universo, bem como cada espécie viva, foram criados por Deus tais como são vistos hoje, e não passaram por nenhuma transformação notória. No começo de cada espécie animal, como no do homem, encontra-se um Adão e uma Eva recolhidos por Noé na arca - menos os peixes, obviamente”, relatou Gilbraz.

“Quanto aos insetos e aos pequenos animais, que poderiam escapar à vigilância de Noé, o problema não se punha, porque se acreditava firmemente na geração espontânea. Bastava um queijo velho e uma lixeira malcheirosa ou um charco para que aparecessem moscas, camundongos e mosquitos”, afirmou. “Além disso, as descobertas de fósseis marinhos das encostas do Himalaia, a 5000 metros de altitude e em muitos outros lugares, distantes milhares de quilômetros dos oceanos, confirmavam a realidade do dilúvio universal mencionado na Bíblia e nas narrações míticas da Índia e da Suméria”, prosseguiu.

E, então, diante desse contexto de certezas e afirmativas, a dúvida apresentou-se junto ao termo transformismo, ideia desenvolvida por Jean-Baptiste Lamarck, no século 19. A teoria, portanto, denotaria que as espécies vivas são resultantes da adaptação necessária ao meio ambiente. Lamarck acreditava, por exemplo, que a girafa tinha o pescoço curto, mas que teve que esticá-lo para alcançar as folhas das árvores mais altas e as próximas gerações já nasceriam, assim, com pescoço longo. Por sua vez, Darwin acreditava que essas diferenças já existiam e que o ambiente selecionava as características mais adaptadas ao local. Ou seja, existiam girafas com pescoço longo e outras com pescoço curto, mas as que conseguiram sobreviver foram as de pescoço longo uma vez que as outras não conseguiam se alimentar e morriam. Por fim, a teoria fixista teria sucumbido com a teoria do mutacionismo genético, de De Vries, cuja evolução procede por mutações no número e na qualidade dos genes.

“Assim, Louis Pasteur, ao provar que todo vivo vem de outro vivo, enterrou a crença ancestral da geração espontânea. Portanto, as moscas, os mosquitos e os ratos também teriam tido seus Adãos e Evas. Mas, de onde vêm esses seres, se Noé se esqueceu de levá-los para a arca?”, questionou. “No começo do século 20, Wegener desenvolveu a teoria geofísica da Deriva dos Continentes. Segundo ele, os continentes flutuam sobre o magma interno em fusão. Foi a colisão violenta dos continentes em movimento que provocou a emergência, acima do nível dos oceanos, das pregas montanhosas, como os maciços dos Alpes e do Himalaia. Isso explica a presença de inúmeros fósseis marinhos no interior das terras, sem nenhuma referência ao dilúvio da Bíblia”, disse.

Na ocasião, Gilbraz também colocou algumas respostas teológicas à evolução Darwiana. Nos textos de Santo Agostinho, de São Tomás e do Papa João Paulo II pareciam estar implícitas as ideias da evolução.
“Na semente, então, havia invisivelmente, tudo o que, com o tempo, se desenvolveria até tornar-se uma árvore. E, dessa mesma maneira, devemos imaginar o mundo, quando Deus fez todas as coisas juntas, como tendo tido todas as coisas que foram feitas nele e com ele quando o dia foi feito. Isso inclui não apenas o céu, com o sol, a lua e as estrelas... mas também os seres que a água e a terra produziram na potência e em suas causas antes de adentrarem no curso do tempo”, Santo Agostinho.
“Nesses primeiros dias, Deus criou todas as coisas nas suas origens ou causas e desse trabalho depois descansou. Contudo, depois, ao governar suas criaturas, na obra da propagação, ‘Ele trabalha até agora’”, Tomás de Aquino.
“Hoje, quase meio século após a publicação da Humani Generis, novos conhecimentos levaram a ser reconhecida como mais que uma hipótese a teoria da evolução. Na verdade, é notável que essa teoria tenha sido progressivamente aceita por pesquisadores, após uma série de descobertas em vários campos do conhecimento. A convergência, não buscada nem fabricada, dos resultados do trabalho que foi conduzido independentemente é, em si, um argumento significativo a favor dessa teoria”, João Paulo II.

Por fim, uma reflexão: “Usando uma comparação visível na natureza, não é ‘incrível, mas verdadeiro’ que um mesmo ramo de macieira produza uma folha e uma flor? Um mesmo ramo tanto traz seiva pra folha como pra flor... os macacos são folhas na árvore da evolução, tanto quanto nós, flores... a diferença é que, como flores, devemos ser abertos e livres, seres de cultura e consciência, capazes de transformar instinto em amor" - e de articular a linguagem descritiva da ciência com a linguagem finalística da religião.

Para continuar refletindo sobre evolução e criação, deixamos abaixo o documentário "A história do mundo", produzido pelo Canal History, que foi discutido no Simpósio:

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