9 de fev de 2009

CELEBRAÇÃO DO CENTENÁRIO DE DOM HELDER


Dom Helder
Por Tiago Cisneiros, no Boletim UNICAP:

“Uma saudade tão grande”, sussurrou uma anônima, na tarde do último sábado (7), durante a comemoração do centenário de Dom Helder Câmara. No pátio da Igreja das Fronteiras, localizada no bairro da Boa Vista, foi celebrada missa solene, em homenagem ao religioso. Na ocasião, houve, ainda, lançamentos de selo comemorativo e de CD musical, além de apresentação do Bloco da Saudade. A Universidade Católica de Pernambuco foi uma das entidades organizadoras do evento.

O dia 7 de fevereiro de 2009 foi marcado por celebrações ao aniversário de 100 anos de Dom Helder Câmara. As igrejas de Olinda e do Recife repicaram seus sinos às 6h, 12h e 18h. Em Itamaracá, a manhã foi marcada por rufar de tambores e ato ecumênico, além de café da manhã comunitário. A programação na ilha foi realizada no espaço cultural “Pedra que canta”, agora renomeado, oficialmente, para “Estúdio Dom Helder Câmara”.

Às 15h, no largo da Igreja das Fronteiras, o movimento já se intensificava, apesar do sol forte. Os fiéis começavam a ocupar as cadeiras disponibilizadas pela organização da missa, marcada para as 16h. Voluntários distribuíam lenços brancos, nos quais estavam impressas as letras dos cânticos a serem executados durante a cerimônia.

A restauradora especialista em obras de arte Débora Assis Mendes, 51, responsável pela reforma da Igreja das Fronteiras, estava presente à celebração. “A realização da missa no pátio externo foi uma boa ideia, já que o processo de restauração não está concluído. Em março, entregaremos a decoração interna (altares e púlpito). A parte arquitetônica será concluída, provavelmente, em setembro”, explicou.

Entre os primeiros espectadores, estava o “Grupo da Alegria”, composto por 21 holandeses. Após conhecerem cidades do interior nordestino, como Campina Grande e Garanhuns, eles voltaram ao Recife, para assistir à missa em homenagem a Dom Helder. Embora o retorno para a Europa esteja marcado para esta terça-feira (10), os holandeses puderam conhecer um dos principais elementos do carnaval pernambucano. Às 15h10, os aplausos anunciaram a chegada do boneco gigante do Dom da Paz ao largo da igreja.

Às 15h15, foi entoado, pela primeira vez, o Hino do Centenário, composto especialmente para a homenagem a Dom Helder. Em seguida, aconteceu a leitura da biografia do religioso, nos seus mais diversos campos de atuação e vivência: família, Igreja, política e sociedade. Movimentos populares começavam a aparecer, trazendo faixas e cartazes. Um agrupamento de mulheres, por exemplo, aproveitou a oportunidade para divulgar o seu propósito de combate ao desemprego feminino. A segurança do evento foi garantida pela Polícia Militar de Pernambuco, agentes do Detran (Departamento de Trânsito) e enfermeiros do Samu.

No pátio interno da Igreja das Fronteiras, a partir das 15h15, foi iniciada a cerimônia de lançamento do selo comemorativo ao centenário de Dom Helder. O estampilho, idealizado por Silvânia Branco – vencedora de concurso promovido pelos Correios -, traz a imagem do Dom da Paz, junto a pessoas que representam as etnias branca, indígena e negra. O fundo da imagem é azul alaranjado, simbolizando a “esperança de um novo amanhecer”. No evento, autoridades civis e religiosas produziram nove obliterações. Entre os participantes, estavam o deputado federal Maurício Rands; o prefeito do Recife, João da Costa; o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho; a presidente do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC), Maria Lúcia Moreira; a coordenadora executiva do Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (CENDHEC), Valéria Nepomuceno; e o diretor regional dos Correios, Pedro Mota Soares. Uma das obliterações, assinada pelas autoridades, está disponível, agora, no acervo do Diretório Regional dos Correios. A partir de hoje, o selo pode ser encontrado em todas as agências postais do Brasil, no valor unitário de R$ 1,00. Foram impressas um milhão e vinte mil unidades, como tiragem especial.

Ainda no lançamento do selo comemorativo, o prefeito do Recife, João da Costa, agradeceu, em nome da cidade, “à dedicação, à obra e ao testemunho de Dom Helder”. Parabenizou, ainda, a iniciativa dos Correios e do IDHeC, e salientou a importância de manter ativa a memória do líder religioso. O Padre Antônio Mota, coordenador da Pastoral da Universidade Católica de Pernambuco, elogiou a cerimônia: “É o reconhecimento da grandeza da obra pastoral de Dom Helder, defensor da dignidade, da justiça e dos direitos humanos. Nada mais justo do que isso. É importante divulgar os seus ensinamentos, no intuito de promover a paz”.

Valéria Nepomuceno, coordenadora executiva do CENDHEC, adiantou, em entrevista, a próxima iniciativa do Centro. “Estamos planejando um seminário, a fim de discutir e disseminar as propostas e o discurso de Dom Helder, no tocante à organização comunitária. Isso tende a mostrar o quanto ele, ainda, inspira o nosso trabalho, o quanto ele continua presente”, revela.

A presidente do IDHeC, Maria Lúcia Moreira, define Dom Helder, como o “pastor da paz, do amor e da solidariedade”. Sua expectativa é que a imagem do religioso seja divulgada em todos os cantos do Brasil, por se tratar da personalidade do ano de 2009. Sobre as próximas realizações do Instituto, Maria Lúcia declara: “Pretendemos inaugurar, em agosto, o Memorial Dom Helder. Ele será composto pela Igreja das Fronteiras, a Casa-Museu (onde o ex-arcebispo de Olinda e Recife morou, por 31 anos) e o Centro de Documentação Dom Helder Câmara. No primeiro pavimento da Igreja, serão abrigados vários objetos da vida e obra do Dom, como diplomas, projetos e artigos”. E completa: “Em 10 ou 11 de março, faremos o lançamento das Obras Completas de Dom Helder. Serão seis volumes (três das Circulares Conciliares, e três das Circulares Inter-Conciliares), editados pela CEPE (Companhia Editora de Pernambuco), com o patrocínio do Governo do Estado”.

O prefeito João da Costa, em entrevista, afirmou que a Prefeitura do Recife tem projetos de seminários, com o objetivo de “difundir as ideias de liberdade e de cultura de base, propagadas por Dom Helder”. O seu antecessor, João Paulo, se declara inspirado por um homem que “amou, acima de tudo, o ser humano, sobretudo as classes mais baixas”. Quanto à atuação do religioso no período militar, opinou: “Ele exerceu um papel crucial, porque combateu a ditadura com amor. Trabalhou pelos mais pobres, sem, jamais, praticar discriminação contra qualquer ideologia ou classe social”. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, destacou o exemplo de Dom Helder: “A vida dele é muito bonita. É preciso que as novas gerações a conheçam melhor, para que se firme o seu discurso de paz social e solidariedade”. Eduardo, ainda, apontou o líder como uma inspiração para obras sociais, principalmente nos campos de segurança, educação, saúde e moradia. Sobre a festividade, comentou: “Considero muito bom que tantas pessoas estejam homenageando, aqui, um defensor dos direitos humanos e da justiça”.

De acordo com o Capitão Aldo, do 16º. Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, cinco mil pessoas acompanharam a cerimônia especial pelo centenário de Dom Helder. A plateia, inclusive, superou o espaço em torno do pátio. Ao lado da igreja, o terraço da Casa Provincial Nossa Senhora das Graças estava repleto de freiras, que acompanhavam, do alto, a celebração. Apesar de a organização do evento ter disponibilizado milhares de cadeiras para o público, muita gente precisou assistir à missa em pé. Aparentemente, ninguém se incomodou. Os presentes animaram-se, ao som dos cânticos entoados pelos bispos celebrantes e pelo grupo de música da Capela de São Francisco, da Paróquia da Torre. A cada canção, viam-se centenas de bandeiras e lenços brancos erguidos, simbolizando o desejo de paz social. O próprio Dom Helder costumava comentar que uma música valia muito mais do que vários de seus sermões.

A CNBB inovou, ao inserir pessoas pobres na procissão que levou oferendas e placas comemorativas ao altar da cerimônia. A iniciativa decorre da grande proximidade de Dom Helder com as classes menos abastadas da sociedade. Na própria Igreja das Fronteiras, o religioso instituiu o costume de distribuir sopa, diariamente, para os necessitados. Até hoje, a prática é mantida pela Irmã Catarina Damasceno.

O Padre José Freitas Campos, da Arquidiocese de Natal (Rio Grande do Norte), define Dom Helder como “o grande profeta da paz”. Segundo ele, o ex-arcebispo atingiu o equilíbrio necessário aos profetas: “Sem esquecer de anunciar o Evangelho, ele denunciou, com as palavras e a vida, tudo aquilo que contradiz esse Evangelho. Nessa celebração do seu centenário, a figura de Dom Helder surge, para nós, como um verdadeiro paradigma”. O Padre José Freitas é o compositor do Hino do Centenário, a canção mais executada na cerimônia desse sábado.

Assim como o Padre José Freitas, muitos sacerdotes e fiéis vieram de outros estados do Brasil, especialmente, para a missa. Foram anunciados bispos e padres de Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará, São Paulo e Paraíba. Faixas revelavam, também, a presença de admiradores de Dom Helder oriundos dos mais diversos locais do Nordeste. O próprio presidente da CNBB e celebrante da cerimônia, Dom Geraldo Lyrio Rocha, veio de Mariana, em Minas Gerais.

O Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, deu início à missa solene às 16h, no largo da Igreja das Fronteiras. A princípio, agradeceu a presença das autoridades e deu as boas- vindas ao público. “Estamos aqui, principalmente, para relembrar o amor de Dom Helder pelos pobres. Vamos, portanto, manter essa preocupação que a Igreja possui desde o seu primórdio”, declarou. Dom José apontou, ainda, a gravidade das desigualdades sociais no Brasil, e completou: “Dom Helder fez tudo o que podia para combater este problema. Nós, agora, vamos continuar essa obra”.

O celebrante da missa, Dom Geraldo Lyrio, leu, novamente, a biografia de Dom Helder Câmara. A cada passagem de sua vida - ora no sacerdócio, ora na militância político-social -, o público aplaudia, entusiasmado pelos feitos e ideias do religioso. Entre os momentos mais ovacionados, esteve a fala de Dom Geraldo sobre o registro, outrora, feito por Dom Helder: “Quem é despertado para as injustiças geradas pela má distribuição da riqueza, se tiver grandeza de alma, captará os protestos silenciosos ou violentos dos pobres. E o protesto dos pobres é a voz de Deus”.

O MOVPAZ (Movimento Internacional pela Paz), responsável pela já tradicional Caminhada pela Paz, estava representado por alguns de seus membros. Além de assistir à celebração, eles pretendiam divulgar a campanha pelo desarmamento. Jairo Nunes, assessor de coordenação, explicou a atuação do grupo: “Somos uma ONG que trabalha com cultura de paz e de não violência ativa”. O MOVPAZ foi responsável, também, pelo Dia Municipal da Paz (último domingo de novembro) e pela fundação da Casa da Paz (Rua Marquês do Paraná, 243, Espinheiro). Sobre a presença dos integrantes na missa, ele explica: “Nós elencamos 24 representantes da cultura de paz. Entre eles, está Dom Helder Câmara. Por isso, estamos aqui”.

Às 18h20, o Coral Recife em Canto, do grupo Fé e Alegria, idealizado pela Unicap, encerrou a missa solene pelo centenário de Dom Helder. Os cantores foram acompanhados – e muito aplaudidos - pelo público, na canção “Como é grande o meu amor por você”. O maestro Josué Silva encarou a oportunidade como um privilégio: “Um evento como esse é, totalmente, especial. Cantar aqui seria um prazer para qualquer coro”.

Após a apresentação do coral, foi lida uma mensagem enviada pelo Papa Bento XVI. Em seguida, foi inaugurada a escultura do Dom-Poeta, produzida por Demétrio Albuquerque, a pedido da Prefeitura do Recife. Padres, freiras, autoridades e fiéis cercaram a imagem, que mede 1,20m e é feita de cimento. Não raramente, se viam fiéis abraçados à escultura; talvez, uma demonstração da saudade e do carinho que Dom Helder, ainda, cultiva. A obra passa a integrar o Circuito dos Poetas, projeto criado pela Prefeitura do Recife.

Na ocasião, foi, também, lançado o CD “O Dom da Paz”. O álbum traz canções que homenageiam Dom Helder, compostas por artistas diversos. O preço unitário do CD é R$ 5,00. As unidades disponibilizadas para a missa esgotaram-se em poucos minutos. Durante esta semana, novos exemplares podem ser adquiridos na Igreja das Fronteiras. Camisas, broches e álbuns com gravações de palestras de Dom Helder estão à venda no IDHeC, localizado em espaço próximo à igreja.

A cerimônia marcou, ainda, o início da campanha “Eu também me chamo Helder”, promovida pelo Instituto Dom Helder Câmara. O intuito do projeto é cadastrar pessoas homônimas ao líder religioso, assim como conhecer as suas histórias de vida. “Uma saudade tão grande”. O sussurro de uma anônima, talvez, seja a melhor definição para o que sentem milhares de corações, igualmente anônimos. Ao menos, a saudade tem nome: Dom Helder Câmara.

Às 18h45, o público cantou, em coro, o “Parabéns para você”, em homenagem a Dom Helder Câmara. Cinco minutos depois, o Bloco da Saudade iniciou a sua apresentação, que pôs fim ao dia de celebração. Liderado por Getúlio Cavalcanti, o bloco entoou clássicos do carnaval pernambucano, como “Valores do Passado”, “A dor de uma saudade” e “Madeira que Cupim não rói” (uma das favoritas de Dom Helder). Foi executada, também, em primeira mão, a canção “100 Anos de Amor”, composta por Getúlio, especialmente, para o Dom. O cansaço de uma tarde inteira de comemorações não abateu os presentes. Até freiras e padres caíram no frevo. Às 19h30, o Bloco da Saudade fechou sua participação, ao som de “O Último Regresso”. O público coroou o show, ao cantar, o verso mais conhecido da canção: “Dizendo bem que o Recife tem o carnaval melhor do meu Brasil!”.

Getúlio Cavalcanti, visivelmente, entusiasmado com a apresentação, declarou: “É muito bom, muito especial estar aqui. Este é um momento histórico: uma homenagem a uma das maiores figuras do século 20”.
O frevo, aliás, não foi exclusividade do Bloco da Saudade. Antes da missa, o bloco “Brinque na Paz” desfilou pelos arredores da Igreja das Fronteiras. Uma das participantes, Josefa Machado David, de 66 anos, elogiou a cerimônia: “Foi muito bonita. Gosto de participar de missas, e esta é especial, por ser o aniversário de 100 anos de Dom Helder”.

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