2 de dez de 2013

IGREJAS COBRAM ENTRADA

Será que as igrejas históricas precisam cobrar entrada, como os museus, quando não há celebrações? O Diário de Pernambuco (01/12) traz matéria de Raphael Guerra (veja aqui) comentando que mais uma igreja, a do Carmo, está cobrando entrada em Olinda, para as "despesas de manutenção": "... Reitor da Igreja do Carmo, frei Luiz Nunes Pereira explica que a cobrança começou a ser realizada há cerca de quatro meses porque os custos de manutenção, segurança e limpeza do templo são muito altos. “A ideia surgiu dos frades carmelitas. Essa igreja só realiza missas duas vezes na semana, às quartas-feiras e aos domingos. O dinheiro arrecadado entre os fiéis não é suficiente, não dá para pagar nenhum funcionário”, relatou. Segundo o reitor, as principais despesas estão relacionadas ao pagamento de seguranças, em regime de rodízio 24 horas, como forma de evitar o roubo de imagens sacras valiosas e históricas. O religioso lembrou que a taxa cobrada deve se tornar, em breve, um hábito de outras igrejas católicas históricas porque elas vêm perdendo fiéis. “Ao longo dos anos, o povo está se afastando”, lamenta. O Convento de São Francisco, em Olinda, também cobra um valor simbólico para a entrada...".

A notícia parece contrastar com as recomendações recentes da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (veja por aqui), do papa Francisco, sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Atual: "... A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas que também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o Batismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa." (N. 47).

A questão, contudo, pode ser um pouco mais profunda. Há dez anos atrás, em número sobre Pastoral Urbana da Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP (veja por aqui), eu antevia o problema, do discernimento das igrejas necessárias e adequadas para uma nova concepção eclesial e o novo entendimento da missão cristã, num artigo sobre "A Igreja na cidade pós-moderna": "... Muitos templos, por exemplo, precisam ser vendidos aos clubes ou doados para a assistência social ou para o patrimônio histórico. Eles foram construídos em profusão, correspondendo ao esquema mental tradicional e dualista, que separava e privilegiava com ricos ornamentos os espaços para o sagrado, que entendia missão como “implantação da Igreja” através da construção de igrejas. Essas foram erguidas para enevoar a miséria humana, construídas em planos elevados para representar a distância hierárquica do divino – e guardar as imagens de um caminho penitencial para se o alcançar. Agora missão cristã é partilhar a vida e despertar, em torno da Palavra de Deus, comunidades solidárias. Essas podem reunir-se nas casas e nos salões comunitários, poucas igrejas são necessárias para as celebrações maiores: de preferência as que favoreçam a participação no banquete eucarístico pela arquitetura circular, as que facilitem uma experiência de Deus em nosso meio, em um clima de austeridade e beleza onde sobressaiam as pessoas – e daí se favoreça a sua transcendência...".

Seria o caso, então, dos cristãos se livrarem de certas igrejas dos centros históricos, para irem "reconstruir a Igreja", onde o povo está agora - ou onde se precisa mais dela, nas periferias sociais e existenciais?! Ainda no século passado fui com Henrique Cossart assessorar uma assembleia em Mossoró e ouvi de Dom José Freire, bispo então do lugar, que ele fora procurado por um grupo de empresários recém-chegados à região, com uma proposta de comprar a emissora de rádio da Diocese, ao que logo retrucou: "... Se quiserem, vendo a catedral, onde só encontro algumas senhoras na missa de domingo bem cedo. Mas pela rádio fazemos educação de base e evangelização, eu me comunico sempre com milhares de católicos: vendemos não!". A tirada dele era, certamente, metafórica, mas dava uma ideia da mudança de mentalidade, hoje ainda mais necessária, sobre o que é mesmo sagrado - ou do que é preciso para socializar bem uma santa notícia...

6 comentários:

  1. O Capitalismo no âmbito do sagrado!?!?!?
    Cláudia.

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  2. Professor, essas igrejas antigas não são mais Igrejas, no sentido de comunidades vivas da fé cristã. Bandos de turistas chegam apenas pra fotografar, como se fosse num museu mesmo, ou então praticam devoções pagãs, como entrar com pé direito e pedir coisas pros santos, sem nenhum senso de fazer parte do Povo de Deus, de compromisso com os outros, segundo a nossa fé. Nas poucas missas que tem nelas, dá vergonha a falta de vergonha e fineza dos turistas, que entram fotografando o templo e também fotografando as pessoas rezando, como se fossem seres estranhos, do passado...
    Manuela.

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  3. As aves que aqui gorjeiam também gorjeiam como lá...
    Lembro-me de ter visitado no ano passado a "The Crystal Cathedral" na California. Como o próprio nome diz, é uma catedral imensa toda de cristal que foi construída pelo televangelista Roberto Schuller. Esse mega templo tinha acabado de ser vendido para uma diocese católica daquela cidade para que o pastor pudesse pagar parte de suas dívidas com as emissoras de televisão. Aqui no Brasil muitas igrejas neopentecostais continuam cometendo o mesmo erro, para tanto fazem campanhas acintosas, inclusive pedindo aos membros que doem as suas próprias alianças de casamento para poderem construir os seus mega templos, esse é o caso da cópia do templo de Salomão que está sendo construído pela Universal na cidade de São Paulo. Nestas coisas a roda continua girando, aqui e lá, e sempre voltamos ao mesmo lugar, ou seja, à estaca zero. Deus tenha piedade de nós... ou deles.
    Paulo César

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  4. Breve acho também vai ser assim aqui na nossa Paroquia, pois o Pe. precisa comprar um carro, e as comunidades são pobres e carentes...
    Dilma.

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  5. Um dos meus amigos quando de passagem pelas 'zoropa' quis visitar a Catedral de Westminster...
    mas custava 16 euros, que não é lá um valor simbólico...

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  6. Grande mestre, isso é bom sinal: tamos virando primeiro mundo! Duvida? Olhe aí:
    . Antigas catedrais abrigam hotéis, livrarias e até discotecas na Europa: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/09/antigas-catedrais-abrigam-hoteis-livrarias-e-ate-discotecas-na-europa.html
    . Cada vez mais igrejas na Europa são vendidas a outras religiões ou interessados do mercado privado. Também na Suíça a prática está se tornando cada vez mais comum:
    http://www.swissinfo.ch/por/Capa/Archive/Venda_de_igrejas_aquece_mercado_imobiliario.html?cid=5815986
    . Igrejas Evangélicas e Católicas são vendidas na Alemanha por êxodo de fieis – Confira:
    http://blogs.odiario.com/inforgospel/2013/03/30/igrejas-evangelicas-e-catolicas-sao-vendidas-na-alemanha-por-exodo-de-fieis-confira/
    Seu admirador, Edson.

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