26 de set de 2013

POLÍTICA ENTRE (E DENTRO D) AS RELIGIÕES

Por Gilbraz.

Já lamentamos aqui no blog a possibilidade das redes de comunicação juvenis da sociedade civil serem suplantadas por velhos partidos, pretensamente religiosos até, e da Primavera Árabe (onda de protestos revolucionários que varreu o Oriente Médio e Norte da África e evoca a libertária Primavera de Praga) se transformar, como exemplo, em um inverno fundamentalista. Acresce à incapacidade de renovação política na região, e em relação com ela, a dificuldade de coexistência cultural pluralista e de diálogo inter-religioso - principalmente no que diz respeito a muçulmanos e judeus.

Mas estamos percebendo sempre melhor que há um grande problema também intra-religioso na abertura do Oriente Médio, majoritariamente muçulmano, para a democracia e a emancipação das pessoas (perceba conexões com os muçulmanos brasileiros aqui, mais sobre o fundamentalismo no Islã veja aqui e, para não se dizer que "não falamos de flores", baixe por aqui o belíssimo livro "Art of the Islamic World: a resource for educators"). O fato é que as tradições islâmicas, envolvidas com influências bélicas, confrontam-se por lá em um campo violento de batalha política. É bom não esquecer de que "a guerra é a teologia continuada por outros meios"!

Na recente guerra civil da Síria, por exemplo, que ameaça envolver o resto do mundo, joga-se uma disputa maior entre Arábia Saudita (sunita) e Irã (xiita, defensor de Assad - com a conivência do Ocidente, no caso, porque o ditador mantém equilíbrio político na região). Assistimos perplexos à notícia dessa guerra e ficamos impressionados com cenas de cristãos, católicos bizantinos sobretudo, que ainda falam a língua de Jesus, sendo decapitados por não se converterem ao islamismo!

Há inclusive sites "cristãos" usando essas imagens para conclamar nova cruzada "evangelizadora" contra os "bárbaros que carecem do amor de Cristo"! Resta esclarecer que aqueles católicos convivem muito bem com muçulmanos (do xiismo ismaelita) há séculos, mas são hostilizados agora por grupos que invocam uma outra vertente do Islã - e na verdade são peças de um xadrez geopolítico.

A tradição espiritual muçulmana é organizada por grupos liberais Kharijitas ou por místicos do Sufismo, mas principalmente por Xiitas e Sunitas: aqueles são partidários de Ali, genro do profeta Maomé, e estes (mais de 80% dos muçulmanos são sunitas) militam pela liderança tradicional dos califas, colaboradores do profeta.

Hoje, no Oriente Médio, para além de disputas teológicas, Xiitas e Sunitas se confrontam numa luta sangrenta pelo poder: "a existência do crescente xiita, que vai do Irã ao Líbano, passando pelo Iraque e pela Síria, está no coração do conflito sírio. Ele é considerado uma ameaça pelas monarquias árabes sunitas, um bloco que vai do Egito à Turquia, passando pela Jordânia, a Arábia Saudita e o Catar".

Essa análise é defendida pelo programa suíço Geopolitis, apresentado em junho passado, com o título "Chiites - sunnites: une guerre fratricide pour le pouvoir?". A emissão de geografia política decodifica os mecanismos atuais desse conflito milenar, fazendo-nos pensar sobre as intrincadas relações entre política e religião. Afinal, "tudo é político, mesmo que a política não seja tudo".

O programa (em francês), cuja série a gente acompanha e pode atestar sua perspicácia, faz uma contextualização do conflito sírio, traz uma reportagem sobre os grupos religiosos envolvidos e apresenta os comentários de Hasni Abidi, diretor do Centro de Estudos e de Pesquisa sobre o Mundo Árabe e Mediterrâneo (CERMAM). Traz também sugestões de livros e sites, além de infográficos para estudo. Um bom mapa para intérpretes dos fatos "religiosos"!

Assista ao programa por aqui.


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