23 de mar de 2013

RAPADURA, BUCHADA E FÉ NO SERTÃO

Dia desses uma comitiva do nosso Mestrado fez uma excursão de estudos ao Memorial José Comblin. E aqui no campus da UNICAP, nossos Mestres em Ciências da Religião estão engajados na construção de um futuro Núcleo de Pesquisas sobre o seu pensamento: Karina Bezerra está escaneando textos inéditos do grande teólogo, Carlos Vieira organiza uma página na internet para divulgar trabalhos sobre a obra de Comblin e principalmente facilitar o acesso aos seus livros em nossa biblioteca, e Mariano Vicente está recolhendo artigos para um número monográfico sobre o Padre José na Revista Paralellus.

O pastor Paulo Cesar Pereira, também nosso Mestre em Ciências da Religião, que se tornou pesquisador e discípulo do velho Comblin, esteve novamente agora no Memorial, em Santa Fé, Solânea, na Paraíba, para participar da Romaria Missionária Comblin-Ibiapina. Padre José contribuiu para recuperar o modelo cristão desse grande missionário e foi sepultado ao lado do Padre-mestre Ibiapina. Muita gente acorreu esta semana aos seus túmulos para renovar a fé e o compromisso com o Governo de Deus, que eles testemunharam, e para celebrar, entre buchadas e rapaduras compartilhadas, que "a esperança dos pobres vive". Paulo Cesar trouxe um alforge cheio de entrevistas e belos depoimentos, e nos enviou as seguintes imagens e relato:





De 15 a 18 deste mês de março, aconteceu no Santuário de Santa Fé, em Solânea-PB, a Primeira Romaria em Memória do Pe. José Comblin. A festa aconteceu por ocasião da comemoração dos 90 anos de seu nascimento. Muita gente apareceu por lá, foram aproximadamente 450 inscritos. Seis bispos deram o ar da graça, dentre eles, os sempre prestigiados Dom José Maria Pires, arcebispo emérito de João Pessoa e Dom Luiz Cáppio, de Barra na Bahia. Mas, a festa foi mesmo marcada pela presença maciça daqueles que conheceram e beberam na fonte do Padre Comblin. Esse é exatamente o sentido de uma romaria, voltar e beber na fonte.

Tinha padres, lavrador@s, lavadeiras, religios@s, professores, estudantes, meninos, meninas e gente já bem vivida. Tinha ativistas, militantes, comunistas e socialistas. Apareceram os amigos de primeira hora e também os dos últimos anos. Era gente do Mato Grosso, do Rio de Janeiro, da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará, Piaui, Maranhão e uma ruma de gente boa da Paraíba. Por lá estiveram a Associação Missionária Jesus no Meio dos Pobres, a AMINE, os Missionários do Meio Popular, os Missionários do Meio Rural, a Irmandade do Servo Sofredor, a Comunidade do Discípulo Amado, a Congregação Missionários do Campo e muitos outros. 

Nos dois primeiros dias aconteceu a romaria propriamente dita, nos dois últimos foram as reuniões de avaliação e planejamento das Escolas de Formação Missionária. Todas elas estavam presentes, Juazeiro(BA), Brotas(BA), Floresta(PE), Esperantina(PI), Mogeiro(PB) e São Lourenço(PE). As celebrações foram marcadas por momentos de grande emoção. Além da memória do Padre Comblin, ainda foram lembrados e reverenciados os Padres Ibiapina, Cícero do Juazeiro, Lamberto e Dom Hélder Câmara, bem como Margarida Maria Alves e o Beato José Lourenço. 

Os testemunhos foram muitos, histórias que não estão contados nos livros. Foi gente dizendo que aprendeu a resolver muita coisa com o silêncio, outros dizendo que aprenderam a escutar, pois “o evangelho é a vida, é dar oportunidade para os mais simples falarem”. Tinha aqueles que lembravam das recomendações do Padre Comblin: “Não é para dar conselho, manda a pessoa pensar.” Ou ainda: “Vocês não vão fazer o discurso de opção preferencial pelos pobres, vocês são pobres, vão se assumir como pobres.” Amanda, de Paulo Afonso, BA, quando decidiu se matricular na Escola Missionária de Juazeiro, relata que muitos religiosos da paróquia se dirigiam a ela e perguntavam: “-Vai virar mais uma cobra de Comblin?” E ela de pronto respondia: “-Eu não tenho medo de cobra não senhor”.

De tudo teve um pouco, e de cada pouco muita coisa boa para se pensar e viver. Lembrar, ainda com água na boca, do gostinho deixado pela buchada no almoço, da rapadura na sobremesa e dos testemunhos de fé contados nas rodas de conversa. Quem estava presente, recebeu o encontro como um verdadeiro tempo de pentecostes, para os que não puderam ir, vão ter que aguardar um pouco, mas daqui a cinco anos nos reuniremos novamente em Santa Fé. Até lá vamos amadurecendo e administrando todo esse “ribuliço” que ficou dentro de nossa mente e coração.

Paulo Cesar Pereira,
pastor batista em Olinda, Mestre em Ciências da Religião pela UNICAP.

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