18 de jan de 2013

MORRE TISSA BALASURIYA

Morreu na manhã de ontem, 17 de janeiro, Tissa Balasuriya, um homem cujas ideias não morrerão tão cedo. Nascido no Sri Lanka, em 1924, estudou economia política e teologia na sua terra e também em Oxford, Paris e Roma. Tornou-se padre católico dos Oblatos de Maria, destacando-se como teólogo do diálogo inter-religioso. Balasuriya fundou, em 1971, o Center for Society and Religion e participou da criação da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo.

Planetary theology é o seu livro mais conhecido e aí ele defendeu: "Não é possível nenhum diálogo promissor com as religiões asiáticas partindo da afirmação da unicidade da revelação cristã, entendida como única, privilegiada e definitiva revelação de Deus, enquanto as outras revelações são vistas como secundárias, de menor valor e, em certo sentido, menos verdadeiras".

Em 1990 publicou o livro Mary and Human Liberation (Maria e a libertação humana). Em 1996 ele foi foi proibido de lecionar pela Congregação da Doutrina da Fé. A Congregação avaliou que o livro minimizava a tradição da Igreja e o valor da fé, apresentando a doutrina do pecado original de uma maneira que colocava em dúvida a divindade de Cristo, sua missão salvadora assim como o papel de Maria na história da salvação. Excomungado em 1997, a excomunhão foi revogada em janeiro de 1998, na véspera da realização do Sínodo para a Ásia.

Há pouco, em diálogo com teólogos latino-americanos, Balasuriya continuou incisivo na afirmação do pluralismo religioso, por princípio: "O divino é impenetrável pelos humanos. Ninguém tem o controle sobre o conhecimento referente a Deus e o impacto da ação divina. As declarações de revelação ou comunicação divinas são sempre externamente expressas analogicamente, metaforicamente e num dado contexto sociocultural. As elites poderosas, em qualquer comunidade, tendem a interpretar tais declarações de revelação da maneira favorável a elas: por exemplo, a dominação masculina. As interpretações de revelação historicamente dadas pelas Igrejas Cristãs têm, geralmente, levado à exclusão da graça divina e da salvação eterna à grande maioria da humanidade" (Revelação e revelações. In Teologia latino-americana pluralista da libertação. Paulinas, 2006).

Leia por aqui artigo de Balasuriya na revista Voices.
Leia por aqui capítulo de Tissa no livro Descer os pobres da cruz
e por aqui outro capítulo, no livro Teologias com sabor de Mangostão.
 
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Um comentário:

  1. "... A contribuição particular de Balasuriya como asiático se refere, no entanto, ao diálogo inter-religioso. No contexto em que viveu, o desafio era o de "repensar os dogmas fundamentais da tradição cristã" à luz do hinduísmo e do budismo: "Na Ásia – afirmava – devemos pôr em discussão as bases de uma teologia que feriu os nossos povos durante séculos".

    Aqui, a sua teologia se encontrou diante de pontos espinhosos, quando investigou as doutrinas do pecado original e da necessidade da redenção de Cristo. A ideia cristã de "uma humanidade que nasce repudiada pelo seu criador", afirmava Balasuriya, com o seu esmagador senso de impotência (Maria teve que ser preservado do destino comum humano através da Imaculada Conceição), é profundamente inaceitável para as outras fés, assim como a ideia de que "gerações inteiras de outros continentes viveram e morreram com uma possibilidade a menos de se salvar".

    E aqui outro ponto fundamental: a crítica à ideia de Jesus como "único, universal e necessário redentor". O conceito da graça divina entendida como decorrente de Cristo, destaca Balasuriya, não deve ser um obstáculo para o diálogo com pessoas de outras religiões teístas, já que a graça é vista como "benevolentemente concedida a todos os seres humanos".

    O aspecto mais forte e "desestabilizador" para o Vaticano, contudo, era a consequência política da sua mariologia. A tradicional piedade mariana, defendia Balasuriya, "contribuiu para legitimar as diferenças de classe e de condição entre Senhor e consciência do fiel, entre Nossa Senhora e mulher comum".

    A partir desse ponto de vista, a prática de rezar o terço mecanicamente "pode dar a ideia de uma salvação das almas da perdição sem nenhuma referência a uma libertação humana integral", assim como a aparição de Lourdes "não diz nada sobre a condição da classe operária na França à época", e muito menos "alude aos danos causados na África pela expansão militar e econômica francesa. No entanto, quando Maria é apresentada aos habitantes do Sri Lanka, ela é chamada de 'Senhora das Vitórias' no conflito entre cristãos e turcos na Batalha de Lepanto".

    E assim, com raras exceções, como Nossa Senhora de Guadalupe ou de Czestochowa, a Maria tradicional é uma "Maria do primeiro mundo do cristianismo, capitalista, patriarcal e colonialista"..."

    http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517323-tissa-balasuriya-o-teologo-que-revelou-o-pecado-original-da-igreja-sobre-o-dialogo-inter-religioso

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