23 de ago de 2012

O CASO PADRE HENRIQUE, POR ERNANNE

Ernanne
Auxiliar direto de dom Helder Câmara – que, à época da ditadura os militares rotulavam de "arcebispo vermelho" –, o padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto foi torturado até a morte, no Recife, entre a noite e a madrugada de 26 e 27 de maio de 1969. O crime teve o objetivo claramente político de tentar barrar, através da violência física indireta, o arcebispo nas suas ações e pregações em defesa da liberdade. Em dias de Finado, fomos muitas vezes ao túmulo do padre Henrique, na Várzea, onde nalgumas ocasiões conversamos com dona Isaíras, sua mãe, sobre esse crime que devastou sua família e, nunca esclarecido, parecia cair no esquecimento para sempre.
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Padre Henrique
Mas essa história vai mudar. O site da da Conferência dos Bispos do Brasil informa que o padre José Ernanne Pinheiro, assessor da CNBB, querido professor e diretor da gente no antigo ITER, declarou no último 17 de agosto, em sessão pública da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco, que o assassinato do padre Henrique foi uma tentativa da repressão de calar os dois segmentos mais atuantes da sociedade pernambucana naquele momento: a Igreja Católica e o movimento estudantil. Na época, o padre Ernanne era o vigário-geral da Arquidiocese de Olinda e Recife e acompanhou todos os ataques e a pressão sofrida por dom Helder e seus principais assessores e amigos.

"A morte do padre Henrique era um ataque indireto a dom Helder. Além disso, Henrique cuidava da Pastoral da Juventude e tinha muita influência entre os estudantes, o que também incomodava. Não tenho nomes para acusar por esse fato, mas está claro que se tratou de um crime político”, avaliou padre Ernanne. Para o religioso, a Comissão da Verdade cumpre uma tarefa primordial dentro do processo de registro histórico brasileiro. “As próximas gerações precisam conhecer seus heróis. Esperamos que essa comissão, a nacional e as demais que estão surgindo nos outros Estados, contribuam para isso”, frisou.

Em seu depoimento, padre Ernanne esclareceu que dentro da própria Igreja Católica existiam correntes adversas e que bispos e padres colaboraram com a repressão. “Em Pernambuco, sob o comando de dom Helder nos posicionamos ao lado da democracia e dos excluídos”, completou.

Para o advogado Pedro Eurico, relator do caso Padre Henrique na comissão, o depoimento reforçou o entendimento de que vários setores da sociedade pernambucana sujaram as mãos de sangue durante a ditadura. “Não era apenas a Polícia e as Forças Armadas que estavam na vanguarda desse movimento. Muitos civis se engajaram na repressão e se beneficiaram disso posteriormente”, concluiu.

O presidente da comissão, Fernando Coelho, afirmou que o depoimento trouxe elementos importantes para a investigação. “Ficamos honrados com a presença do padre Ernanne, pela clareza de suas ideias e pela contextualização do momento histórico que eles nos trouxe”.

A comissão resolveu adiar, do dia 23 para dia 30 deste mês, o depoimento do ex-major da PM de Pernambuco José Ferreira dos Anjos. Os integrantes da comissão querem mais tempo para se preparar para ouvir o ex-militar, considerado uma das fontes mais ricas sobre o período da ditadura no Estado. Ferreira foi recrutado dentro da PM pelo 4º Exército e atuou diretamente na repressão aos opositores do golpe militar de 1964. Sobre a importância das informações guardadas pelo ex-major, o advogado Humberto Vieira de Melo, membro da comissão, foi enfático. “Basta que ele repita o que nos disse na sessão reservada”, ressaltou.

Continue lendo aqui a matéria da CNBB
 e veja, na íntegra, o depoimento do padre Ernanne.

Saiba mais aqui sobre o padre Henrique no PE A-Z.
Leia aqui o cordel de Patativa do Assaré pro padre Henrique.
Procure também o livro O mártir da juventude (de Marinalva Silva, Paulinas, 1985).
Veja mais sobre dom Helder aqui no blog.

4 comentários:

  1. Manoel Mendonça11 setembro, 2012

    Nunca fui e nem serei a favor de tortura ou/e assassinato político. Entretanto, uma coisa me deixa intrigado: Porquê houve a necessidade da intervenção militar que resultou na ditadura? Teriam tentado mudar a democracia para o regime comunista e daí a represália? O pretexto não teria sido tirar o Brasil do domínio "Imperialista americano" para entregá-lo ao regime comunista russo? Ditadura, tortura e assassinatos foram consequências do quê? E os atos terroristas nós devería-mos chamá-los de quê? Tinha apoio da população ou só dos que se interessavam em implantar o regime comunista?

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  2. Meu irmão, um dos benefícios das comissões da verdade é o esclarecimento de que, justamente, vivemos uma história de muitos equívocos, que precisa ser mais conhecida - pra não ser repetida. Enquanto comunistas queriam impor a ditadura do estado sobre nós, capitalistas transnacionais impuseram a ditadura do mercado - e desenvolveram a economia hipotecando o nosso futuro pelo endividamento externo. Mas dou uns pelos outros e não quero torna! Aliás, posso testemunhar pra você que Dom Helder (e a maioria dos religiosos de diversas igrejas), quando criticaram a ditadura militar e clamaram por justiça social, não era por ideologia comunista não, mas por um socialismo meio utópico que sempre deriva de uma espiritualidade profunda. Claro que, à época, eram vozes que "clamavam no deserto", como são sempre as dos profetas... Mas vamos vivendo e aprendendo!

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  3. Major Ferreira confirma que empresários pernambucanos financiavam assassinatos de "comunistas" na ditadura:
    http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2012/09/20/major_ferreira_confirma_que_empresarios_pernambucanos_financiavam_assassinatos_de_comunistas_138531.php

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  4. bernardopaivas@gmail.com21 setembro, 2012

    A União Soviética treinava milícias e financiava atos terroristas que terminaram por levar o Brasil a uma ditadura. Comunistas do passado são os corruptos de hoje. Aliás, comunismo e capitalismo disputam entre si o que é mais nocivo para a humanidade. Se no comunismo não existe povo - tudo é governo - , no capitalismo tudo é mercadoria e tem valor de mercado. O problema está em encontrar o equilíbrio.

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