31 de jul de 2012

EXISTEM MILAGRES AINDA?!




O semestre vai começar e quero abri-lo aqui com o curta metragem “O Circo Borboleta”, um filme criado por Joshua e Rebekah Weigel em 2009. Em meio à Grande Depressão, o apresentador de um circo diferente lidera sua trupe pelas tristes pairagens dos Estados Unidos, criando um pouco de alegria pelo caminho. Durante suas andanças, eles descobrem um homem sem membros, em um show de horrores. Will, reduzido fisicamente, vai aos poucos sendo ajudado a se acreditar e a ter fé nos outros, a se ultrapassar com dons que (nem sabia que) a vida lhe deu...

Vejam que o filme inspira-se em um caso real, pois quem faz o papel de Will é Nick Vujicic, um australiano que nasceu sem as extremidades do corpo, mas, ao invés de ficar em casa dependendo dos pais e reclamando, tornou-se um palestrante motivacional para jovens e também para executivos - já que ele se formou em duas faculdades de finanças! O curta, por isso mesmo, faz pensar sobre o que é o nosso "corpo" e a necessidade que ele tem de "espírito", não como coisa "sobrenatural" e diferente dele, mas como qualidade inspirada e mais-que-natural das suas relações (veja aqui uma meditação sobre corpo e religião).

O circo, claro, é ali uma metáfora - e quem dera que o nosso curso de Ciências da Religião pudesse ser, semestre afora, um espaço circense! Precisamos de espaços pedagógicos onde as "lagartas" possam se exercitar e se tornar "borboletas", onde o milagre do acolhimento e da transformação da vida chegue a acontecer de verdade - em meio a muita dedicação e esforço, mas também a muitos sorrisos e brincadeiras. Escolas que façam a diferença, como um bom circo!

E quem sabe, também, não fosse demais a gente esperar encontrar "religiões" razoáveis por aí, como boas trupes nas "depressões" que assolam o nosso tempo. Que não roubassem ou enrolassem a vida das pessoas, mas as ajudassem nos "saltos" da existência... Milagres acontecem!

8 comentários:

  1. O senhor dá a entender que os milagres "sobrenaturais" estão desqualificados. Estou certo? Manoel.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Manoel (imagino que sei com quem tou falando, há, há!),
      O entendimento “sobrenatural” dos milagres estendeu-se da teologia cristã para as outras religiões no Ocidente. Comecemos, pois, pelo começo. Sobre o conceito de Natureza na teologia dos cristãos, o então cardeal Ratzinger, em debate com Habermas na Baviera, em 2004, reconheceu que “... O direito natural permaneceu sobretudo na Igreja Católica a figura de argumentação com a qual ela recorre - nas discussões com a sociedade secular e com as comunidades de outras crenças - à razão comum e busca os fundamentos para o entendimento acerca dos princípios éticos do direito em uma sociedade secular plural. Mas esse instrumento, infelizmente, se tornou gasto, e eu não gostaria, por isso, de me apoiar nele nesta discussão. A ideia do direito natural pressupôs uma noção de natureza na qual a natureza e a razão vão uma à outra. Essa visão da natureza, com a vitória da teoria da evolução, despedaçou-se...” (Leia mais em: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAACAwAJ/ratzinger-x-habermas). Quer dizer, o avanço das ciências, principalmente da antropologia, mostrou que a Lei “natural” é uma teoria culturalmente situada, passível de críticas pelo seu método dedutivo, seus prejulgamentos eurocêntricos e patriarcais, seu universalismo abstrato. Com base na hermenêutica neoescolástica, ambientes teológicos tradicionalistas continuam acreditando, porém, que todos os seres humanos compartilham a mesma natureza, que a natureza é criada diretamente por Deus e pode ser conhecida pela razão, e os bens que todas as pessoas buscam “por natureza” são o fundamento das normas morais (Leia mais na Concilium de 2010 sobre Natureza humana e Lei natural: http://crunicap.blogspot.com.br/2010/10/natureza-humana-tem-futuro.html). Em relação com esse conceito de Natureza e Lei natural, está o de Sobrenatural ou de Ordem sobrenatural na teologia cristã (http://fr.wikipedia.org/wiki/Surnaturel_(christianisme)), que não se deve confundir com o homônimo relacionado aos eventos paranormais e esotéricos (http://fr.wikipedia.org/wiki/Surnaturel), mas se refere ao conjunto de fenômenos extraordinários tidos como manifestação da graça divina que culminou em Cristo e na sua Igreja, tais como as visões e revelações, as grandes aparições, estigmas e milagres, através do que Deus intervém na Ordem natural corrompida e restabelece sua amizade com os homens, rompida pelo pecado original. Igualmente aqui, trata-se de uma compreensão que buscou associar dados da crença na ação salvífica do Espírito de Cristo à cosmovisão mitológico-filosófica (que falava de outro mundo, acima da nossa natureza, céu de éter que as divindades habitavam e de onde intervinham na sorte da gente), que foi uma “ciência” destituída pela moderna cosmologia e pelo avanço da ciência física. Mesmo as últimas descobertas da mecânica quântica, da matéria atravessada por energias cheias de possibilidades de transformação, não nos permitem pensar em milagres como interrupções de processos naturais por Deus - cujo “poder” seria reduzido assim às outras forças do mundo! O conceito de Sobrenatural, aliás, nem aparece nos fundamentos bíblicos da fé cristã e não precisa ser invocado ao defendermos as razões dessa fé (comece lendo algo como O que é milagre na Bíblia, de Alfons Weiser, Paulinas)...

      Excluir
    2. Do mesmo modo que o cardeal, no debate acima, buscou novos fundamentos, interculturais e não mais na Lei da natureza, pra defender uma inspiração transreligiosa para os valores, no caso, da constituição europeia, nós aqui podemos e devemos ensaiar outros fundamentos, não mais no Sobrenatural e na sua metafísica, para encontrar palavras mais bem-ditas sobre a trans-significação qualitativa das relações, sobre os milagres n(que são)a vida de quem se reveste de novo espírito e maior fé. A teologia, portanto, deve reinterpretar a crença em diálogo com o conhecimento do tempo, que impõe o entendimento de “milagres” não mais em relação com acontecimentos imponentes e extraordinários da natureza, mas nos eventos intersubjetivos. Noutras palavras, precisamos passar da dependência do milagre “sobrenatural” que traz benefício "mágico" do santo, para a crença na possibilidade de sermos igualmente “santos” e capazes de fazer das nossas vidas um milagre “mais-que-natural” para a vida dos outros – pelo amor, que é (de) Deus!
      Espero ter ajudado na conversa...

      Excluir
  2. Eu entendo que, num mundo onde a verdade não é mais objetiva, mas inter-subjetiva, a realidade das coisas, dos milagres também, deva ser buscada mesmo não acima da natureza, mas entre a gente. Como bem mostrou esse filme do circo... lindo! Me fez chorar e tocou meu coração. Espero que me faça olhar e me relacionar com os outros de modo mais belo!
    Vânia Lima.

    ResponderExcluir
  3. De fato, no raciocínio antigo, quanto mais um fenômeno parece sobre-humano, mais divino e miraculoso deve ser. Mas na lógica de hoje, quanto mais o fato é humano, profundamente humano, só pode ser divino, não é? Manoel.

    ResponderExcluir
  4. Tem mais uma coisa: uma fé, seja em que religião for, que depende de milagres, não vai longe. Pois todos os milagres até podem retardar a morte... Mas nenhum livra da morte! E se a gente é cristã, devia olhar pra fé de Jesus na cruz: se entregou ao divino e perdoou os outros, não porque Deus fez milagre, mas apesar disso!
    Vânia.

    ResponderExcluir
  5. Mas vamos deixar de arrodeio:
    esse assunto já virou filme e virou até sátira.
    Olhem aí: http://youtu.be/PM_8FYMfqyU
    Bom proveito.
    Franci.

    ResponderExcluir
  6. Desde o surgimento da agricultura, quando o ser humano já não dependia da fase coletora e extrativa, tenta-se domesticar a natureza, impor-lhe limites, desviar o seu curso, exigir que ela siga, não suas leis intrínsecas, e sim a nossa lógica voltada ao lucro. Assim, represamos rios, reduzimos o ímpeto das marés, quebramos a escuridão da noite, logramos fazer voar o que é mais pesado do que ar. A razão moderna desencantou o mundo. E a primeira vítima foi o milagre que a ciência tenta expulsar do mundo e da mente humana. A crença no milagre revela certa noção de Deus. Seria ele como um encanador que, tendo cometido erros em sua obra, a todo momento precisa correr aqui e ali para corrigir defeitos imprevistos? Ele livra da doença os filhos preferidos e não os preteridos? Fica atento a quem mais emite súplicas e premia a insistência com o milagre? ...

    http://www.brasildefato.com.br/node/12471

    ResponderExcluir

Obrigado pela sua participação!