14 de jun de 2012

FIM DAS RELIGIÕES AGRÁRIAS?!


O catolicismo e o protestantismo estão atravessando uma séria crise, tanto na Europa como na América do Norte. Cada vez mais observadores preveem que essa crise vai afetar também outras tradições religiosas e que sua origem pode ser a crescente incapacidade das religiões para se acomodar à profunda mudança cultural global em andamento. Um relatório da Associação de Teólog@s do Terceiro Mundo (ASETT) mostra a falência cada vez maior das “Religiões do Neolítico" e levanta hipóteses sobre as novas formas de espiritualidade que poderiam sobreviver na sociedade do conhecimento.

A espiritualidade existia antes das religiões e vai sobreviver às formas religiosas como as conhecemos. Espiritualidade não como referência ao “espírito” contraposto a uma suposta matéria não espiritual, mas no sentido das motivações últimas, ou daquela dimensão de profundidade (Tillich), daquela necessidade de situar nossas vidas em contextos mais amplos (Armstrong), da qualidade humana profunda (Corbì), ou da mística (respeito ao Mistério) pela qual se vive e luta e com a qual se contagia aos demais (Casaldáliga).

A argumentação da ASETT foi comentada na última edição da revista eletrônica espanhola Tendencias de las Religiones, por Leandro Sequeiros. Ele resenha os elementos principais da proposta de reflexão teológica na direção de um paradigma "pós-religional", que são os seguintes: primeiro, as religiões (não a religião, nem a espiritualidade, ou a religiosidade...), no sentido técnico, as tradições que se institucionalizaram com doutrinas, rituais e ministros, enfatizando uma divindade cada vez mais separada das pessoas e ordenadora da sua vida moral e política, são fruto da imaginação do Neolítico, idade agrícola da humanidade; elas são tanto produtos simbólicos como causas dessa mesma idade.

Depois, a transformação sociocultural que estamos experimentando hoje envolve precisamente o fim dessa época agrário-neolítica. O que agora está sendo superado e varrido da história esteve nos fundamentos da sociedade humana e na forma da consciência humana da espécie durante os últimos 10.000 anos (desde o começo dessa idade, e essa é a profundidade da mudança atual). Surge um novo tipo de sociedade, em um mundo globalizado pelas comunicações e por revoluções tecnológicas, com bases diferentes, especialmente epistemológicas, que são incompatíveis com o "sistema operacional" Neolítico antigo. É imperativo, portanto, uma mudança sistêmica, tanto a nível epistemológico como no tipo de consciência espiritual da humanidade. Daí a radical e a profunda mudança de época que estamos vivenciando, uma nova "idade axial". 

Como consequência, as religiões (agrário-neolíticas), identificadas com o tipo de consciência, cosmologia e epistemologia agrícola, estão perdendo bases e entrando em um declínio, na medida em que o acúmulo de conhecimentos científicos, tecnológicos, sociais e vivenciais vai provocando um novo tipo de consciência, visão de mundo e nova epistemologia, incompatíveis com o Neolítico tradicional. Os seres humanos nessa sociedade que surge não podem mais expressar a sua dimensão espiritual nas configurações das religiões "agrícolas" (tanto agrárias como pecuárias), e estas não conseguem entrar em sintonia e ser compreendidas pela nova sociedade. As religiões agrário-neolíticas são obrigadas, portanto, a se transformar radicalmente ou a desaparecer. Enquanto isso, pessoas, comunidades e instituições destas religiões, na medida em que passam para a nova cultura, vão se desprendendo dos mecanismos e da epistemologia agrárias, e passam a viver a sua espiritualidade "pós-religionalmente".

Leia integralmente a matéria (em espanhol) aqui,
na Revista Tendencias de las Religiones.

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