24 de mai de 2012

MISSÃO EM FERNANDO DE NORONHA

No milênio passado, quando ainda cursava o mestrado em São Paulo, tive a graça de conviver, na paróquia do padre Luiz Antônio, com um seminarista muito animado, Glênio. Ele já era formado na área de saúde e tinha uma inquietação mística desconcertante. Soube depois que se ordenou presbítero em João Pessoa ("um padre capaz de rir com gosto e de animar e educar o povo para sorrir com a vida, vai ser legal", pensei). Mas outro dia abri uma revista ISTOÉ na fila do supermercado e tomei um susto: lá estava Glênio (na foto ao lado) aprontando mais uma e virando padre-surfista em Fernando de Noronha! Pra completar, ele me apareceu aqui na UNICAP com o projeto de abrir um campus avançado da Universidade lá na ilha: "pra oferecer formação técnica pros jovens e educação humanista pro pessoal!". Pronto, mas enquanto o acordo institucional tramita, Glênio já abriu as portas para receber voluntários que ajudem na formação dos professores de educação religiosa em Ciências da Religião... que desejem dar uma força nas brigadas ecológicas e, de quebra, "pegar umas ondas" por lá também. Vejam o relato que ele enviou aqui pro blog sobre a sua missão (e manifestem aí as suas adesões ou sugestões!):

Eu, Glênio, irmão e companheiro de vocês neste tempo de tribulação, na realeza e perseverança em Jesus, estou exilado na ilha de Fernando de Noronha, por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus, Cf Ap 1,9. Sempre sonhei que um dia chegaria num lugar “diferente” para pregar a Palavra de Deus. Após quase 20 anos como padre, com meio século de vida, estou tentando realizar esse sonho. E o mais interessante, é que está sendo surpreendente também pra mim.

O Arquipélago de Fernando de Noronha com suas 21 ilhas e ilhotas, embora só a maior seja habitada, tem uma população de aproximadamente 4mil habitantes, além de uma grande quantidade de turistas (brasileiros e estrangeiros) que desembarcam diariamente. Foi descoberto pelos portugueses em 10/08/1503, mas que só vieram a ocupá-la cerca de 200 anos depois, após expulsarem cerca de dez nações europeias. Reassumindo o domínio, Portugal transforma a ilha num presídio, para poder utilizar da mão de obra dos presos, construindo assim uma pequena Vila e passando a contar com um sistema de proteção através de seus 10 fortes. Fernando de Noronha foi também uma base militar, bem como presídio político, onde ressaltamos a passagem de Miguel Arraes, Agildo Ribeiro e de outras personalidades famosas. Foi ainda Território Federal e hoje é um Distrito Estadual pertencente a Pernambuco, embora seus moradores sonhem com sua municipalização.

Apesar da Igreja católica se fazer presente desde a sua descoberta, quando foi rezada uma missa, nem sempre Noronha pode contar com a presença de um padre residente. E como consequência desse abandono, tivemos a instalação de seis denominações protestantes além de um centro espírita e ainda a perda da casa paroquial situada ao lado da Matriz de N. Sra. dos Remédios (hoje funciona uma casa noturna), mas que depois foi construída uma outra.

Há cerca de 18 anos, sabendo da necessidade de um padre e com o interesse de conhecer essa ilha paradisíaca, vim pela primeira vez, seguida de mais sete vezes. Foram muitos os convites para caminhar com a comunidade, mas achava uma possibilidade quase que remota, uma vez que eu estava muito bem situado em minha Arquidiocese (Paraíba) e seria difícil a convivência com o arcebispo da época. Mas após a sucessão apostólica, não pude resistir aos apelos de Deus rumo à nova e desafiadora missão. Cedido por alguns anos por meu arcebispo, dom Aldo, fui aceito por dom Fernando e há dois anos encontro-me aqui: a princípio, atraído pelo exotismo e beleza da ilha, mas agora seu “prisioneiro” por causa de Cristo, a serviço do Reino de Deus.

Chegando “de mala e cuia”, decidido a residir, passei a caminhar com o povo (moradores e turistas), encontrando uma comunidade sem padre residente há cerca de 50 anos, exceto quando aparecia algum para fazer suas obrigações e retornar ao continente o quanto antes. Na verdade, é tudo praticamente por fazer. Parece muito tempo (dois anos), mas não é, pois só agora é que estou reorganizando a pastoral, conhecendo as pessoas e elas a mim.

Tenho feito muitos batizados e casamentos de locais, bem como de noivos de vários Estados; celebrado de segunda a sábado uma missa ao pôr-do-sol (um momento tocante, sobretudo para os turistas), além das missas dominicais; procurado formar as pastorais básicas, como catequese, liturgia, dízimo e juventude, mas também abrindo novas frentes como a pastoral do turismo, dos surfistas, a ecológica e outras. Mas é um trabalho que deverá ser feito a exemplo da realidade animal que nos rodeia: a passos de tartaruga, mas duradora; com o destemor dos tubarões, intimidando os predadores e com a docilidade dos golfinhos, que atraem a atenção de todos.

Curiosidades dessa missão toda particular:
1- Entendia-se por missionário aquele que deixava tudo para encontrar o Povo de Deus. Aqui, apesar da minha vinda para encontrar um povo de moradores, tenho também que encontrar/esperar um outro povo (turistas) que vem e vai diariamente. É interessante, mas todo dia encontro pelo menos duas ou três pessoas do Brasil ou do mundo e elas querem falar com o padre e participar das missas, onde procuro saudá-las em vários idiomas.
2- Desde quando cheguei, tenho diariamente e “pessoalmente” aberto às 6h e fechado à meia noite as três igrejas aqui existentes, uma vez que não temos problemas de roubos. Na verdade, quer moradores ou turistas, sentimo-nos como uma grande família.
3- Considerando que o surf em Noronha é uma opção irresistível, com inúmeros adeptos, resolvi encarar pela primeira vez esse desafio, a exemplo de São Paulo que procurava se fazer igual aos demais, para ganhá-los para Cristo. Na verdade, tudo começou com um convite de uma repórter para uma entrevista em uma das melhores praias do mundo para “nós” surfistas, onde fui desafiado a dar uma surfadinha ao término – afinal, a praia chama-se Cacimba do Padre (porque ali morou um padre há cerca de 100 anos atrás, tendo descoberto uma cacimba, mas jamais pensado em surfar!). Eis a minha resposta diante do convite/desafio: minha filha, Jesus andou sem nada sobre as águas, quanto mais eu, que contarei com a Sua ajuda e em cima de uma prancha. Aceito! Chegou o dia, e com apenas seis aulas, estava eu dando a entrevista e no final, milagrosamente, com o auxílio de anjos (creio que foi preciso uma legião) estava eu surfando. É uma sensação maravilhosa! Aí as pessoas me perguntam se já “peguei algum tubo” e eu respondo que não, mas já “entrei pelo cano” várias vezes. Tenho procurado aprender, já tenho duas pranchas e pretendo formar uma escola de surf.
4- Continuo com minhas corridas diárias (5 a 7 Km), além de fazer rapel e ser credenciado em mergulho. Enfim, tenho feito tudo isso por gostar de esportes e poder usar como um instrumento de convivência e evangelização.

Bem, que Deus nos abençoe nessa missão que é mais surpreendente do que eu imaginava. Que N. Sra. dos Remédios e São José nos ensinem a cada dia dar o nosso “sim” ao Deus todo poderoso, criador de todas as belezas e com um capricho a mais aqui em Noronha. Amém! 

Glênio Guimarães

8 comentários:

  1. GGil, se é pra ir ajudar esse padre, pode botar o meu nome na lista. Ufa! Fernanda Monteiro.

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  2. Pois bem, a impressão que dá é que novas fronteiras interpelam a missão da Igreja, das Igrejas. Mas o Espírito desperta esses "loucos de Deus", que assumem reinventar e inculturar a Palavra e os Sacramentos... e também se reinventar como ministros... em meio às "águas do mar da vida"! Parabéns ao padre e à sua equipe! Boa onda!
    Manoel Mendonça.

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  3. Gil, se o Glênio é bom com as palavras, certamente, nos desafios que enfrenta deve ser um verdadeiro atleta. De todo modo, se existe os padres dos espetáculos, ele pode ser o das ondas, "tirando-as" ou enfrentando-as.... Parabéns Glênio, pela jovialidade e energia na sua missão.

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  4. Não tem nada mais forte do que a vontade de Deus. É fantástico quando o coração bate para realizar a vontade Dele. Parabéns por sua missão Glênio.

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  5. Luca Pacheco25 maio, 2012

    Também tive a alegria de conhecer o Glênio em uma de suas vindas pela Católica e até iniciamos uma proposta de oficina de Catequese Narrativa para o pessoal das pastorais da ilha, além de gravar um documentário sobre a presença da Igreja em Noronha. Eu e Ãngela iríamos dar a oficina de uma semana, fazer as imagens e, é claro, curtir um final de semana, pegar umas ondas... Quem sabe, até aprender a surfar com o padre surfista! Rsrsrssss!!!
    Só pra dizer que esse pode ser o ensaio de uma proposta bacana entre a Católica e o Pe. Glênio. Abraço a todos! Luca

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  6. Professor GilBraz e Padre Glenio ! Glenio, lembra de mim ?? Sandro de Palmares !!! Trabalhei com você na Comunidade de São Josédo Pilar rsrsrsrsr Saudades de você, do seu jeito e das suas loucuras kkkkk Parabéns !Meu amigo, estou no Mestrado na Católica edesde já pode contar comigo ! Como faço pra te ajudar ! ???

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  7. No meu tempo, os padres traziam um manípulo de seda atado ao punho e não uma braçadeira de prancha de surf! Esse aí, daqui a pouco vai tocar rock no lugar do santo latim! O tempora, o mores!!!

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